Conhecida como forrageamento urbano, a prática de colher frutos e folhas em vias públicas emerge como estratégia de resiliência climática e segurança alimentar nas metrópoles.
A arborização urbana tradicional é amplamente reconhecida por gerar sombra e melhorar a qualidade do ar. No entanto, uma pesquisa inovadora desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, propõe dar um passo além: integrar espécies alimentícias à malha urbana. O estudo indica que o cultivo e a coleta de plantas comestíveis em ambientes públicos — prática batizada cientificamente de forrageamento urbano — tem o potencial simultâneo de mitigar as ilhas de calor e democratizar o acesso à comida.
Conduzida pelo engenheiro florestal Eduardo Ribas, sob a orientação do professor Demóstenes Ferreira Silva Filho, a pesquisa joga luz sobre um tema que cresce exponencialmente na literatura científica internacional, associando diretamente o manejo florestal urbano à adaptação das cidades frente às mudanças climáticas.
Entenda o estudo em 3 etapas
O robô analítico da USP estruturou a investigação em três frentes complementares para mapear a viabilidade do projeto:
Etapa 1: A revisão científica global
A equipe realizou uma varredura sistemática na literatura acadêmica mundial. Embora o primeiro artigo sobre o tema tenha sido publicado em 2009, mais de 50% de toda a produção científica global sobre forrageamento urbano surgiu nos últimos três anos, consolidando a prática como uma tendência emergente na busca por resiliência nas metrópoles.
Etapa 2: O comportamento dos moradores de São Paulo
Os pesquisadores entrevistaram mais de 300 moradores da capital paulista e descobriram que a prática já está enraizada no cotidiano urbano:
- 60% dos entrevistados afirmaram já ter coletado frutos ou plantas em espaços públicos ao menos uma vez.
- 30% da população realiza a coleta com foco direto na própria alimentação.
- Fator renda e tradição: O estudo comprovou uma correlação clara entre renda e acesso à comida. Para famílias vulneráveis, as árvores frutíferas da rua representam um complemento nutricional essencial na dieta. Além disso, constatou-se que o saber tradicional sobre quais espécies são seguras para o consumo está concentrado nas gerações mais antigas, correndo o risco de se perder.
Etapa 3: A percepção do poder público
Os cientistas entrevistaram gestores ambientais nos níveis municipal, estadual e federal para entender se o conceito já está integrado às políticas públicas de desenvolvimento urbano. A conclusão é que, embora ainda falte apoio institucional e marcos legais específicos, as cidades possuem um vasto número de áreas livres e subutilizadas prontas para receber essa transição microclimática.
Engenharia reversa da comida: Os benefícios práticos
A introdução de florestas urbanas comestíveis redesenha a dinâmica socioambiental das cidades por meio de um fluxo de benefícios diretos:
- Conexão de baixo impacto logístico: Ao trazer árvores frutíferas e Hortaliças Não Convencionais (PANCs) para perto dos cidadãos, reduz-se drasticamente a distância entre o alimento e o consumidor final. Isso encurta os custos logísticos de transporte e a pegada de carbono da distribuição de alimentos.
- Filtro térmico natural: As árvores funcionam como condicionadores de ar biológicos. A transpiração das plantas e a cobertura de suas copas reduzem a radiação solar direta no asfalto e no concreto, equilibrando o microclima local.
- Coesão comunitária: Áreas públicas de forrageamento estimulam o convívio social, a revitalização de praças e o cuidado coletivo com o patrimônio verde do bairro.
Das salas de aula para as ruas do país
A pesquisa dialoga diretamente com a disciplina de Silvicultura Urbana da Esalq. Desde 2021, os estudantes da USP realizam inventários florestais e desenvolvem planos de plantio reais para diferentes municípios paulistas, visando ampliar as zonas de sombra em vias públicas.
A iniciativa começou avaliando a capital paulista e, nos anos seguintes, entregou diagnósticos para Tietê e Nova Odessa. Em 2026, o foco das simulações de campo será a cidade de Águas de São Pedro. A expectativa dos pesquisadores é que esses inventários sirvam de base para que as prefeituras adotem o forrageamento urbano como uma extensão natural e inteligente do planejamento de suas metrópoles.
Fonte: jornal.usp.br


