O recuo das geleiras é um fenômeno global. A Geleira Chandran, na Índia, é um exemplo impressionante da mudança glacial na Ásia. (Imagem: Alexandra von der Esch / ETH Zurique)
O recuo das geleiras é um fenômeno global. A Geleira Chandran, na Índia, é um exemplo impressionante da mudança glacial na Ásia. (Imagem: Alexandra von der Esch / ETH Zurique)

Cada décimo de grau conta: limitar o aquecimento pode salvar o dobro das geleiras globais

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Estudo revela que quase 40% da massa glacial global está condenada a desaparecer mesmo com o clima estabilizado no nível atual

Um novo estudo publicado na revista Science alerta: mesmo que a temperatura global se mantenha no nível atual de 1,2°C acima da era pré-industrial, cerca de 39% da massa glacial do planeta ainda será perdida, contribuindo com mais de 10 cm para a elevação dos mares. O cenário se torna ainda mais dramático se a meta de 1,5°C não for cumprida — e o mundo siga rumo aos 2,7°C, como indicam as atuais políticas climáticas.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional de 21 cientistas de dez países, que utilizaram oito modelos glaciais para avaliar a perda potencial de mais de 200 mil geleiras fora da Groenlândia e da Antártida. Os cálculos foram feitos em escala de tempo multicentenária, revelando projeções muito além de 2100 — um diferencial em relação a estudos anteriores, que geralmente limitam suas análises até o fim do século.

“As escolhas que tomarmos hoje ecoarão por séculos. Cada fração de grau importa para o futuro das geleiras”, afirmou Harry Zekollari, coautor principal do estudo e professor da Vrije Universiteit Brussel.

O gráfico ilustra a perda de massa glacial em todo o mundo com o aumento das temperaturas globais. Ele mostra que mais geleiras — particularmente na Ásia e na Nova Zelândia — poderiam ser preservadas se o aquecimento global fosse limitado a 1,5°C, em comparação com a trajetória de 2,7°C resultante das políticas atuais. Cada círculo representa a proporção da massa glacial que se projeta ser perdida mesmo que as temperaturas permaneçam no nível atual de +1,2°C (segmento azul). As linhas coloridas indicam a perda adicional a longo prazo esperada se o aquecimento continuar.

O futuro que já está selado

Mesmo sem mais aumento de temperatura, as geleiras seguirão derretendo por séculos, em resposta ao calor já absorvido. Ao longo do tempo, elas migrarão para altitudes maiores até atingirem um novo equilíbrio. O estudo mostra que quase o dobro da perda prevista até 2100 ocorrerá nos séculos seguintes, se mantida a atual trajetória.

“As geleiras nos mostram visualmente as mudanças do clima. Mas seu tamanho atual mascara a gravidade da crise. A situação é mais crítica do que vemos nas montanhas hoje”, reforça Lilian Schuster, coautora da Universidade de Innsbruck.

Perda de geleiras ameaça água, turismo e estabilidade

O derretimento glacial não impacta apenas o nível do mar. Ele compromete o acesso à água doce, aumenta o risco de desastres como inundações e deslizamentos, e prejudica economias que dependem do turismo de neve. Regiões e gerações futuras sentirão os efeitos em cascata dessas perdas.

Atualmente, com o mundo a caminho de um aquecimento médio de 2,7°C, o risco de perder o dobro de massa glacial cresce exponencialmente. Para cada 0,1°C adicional, estima-se a perda de 2% a mais de gelo.

Um alerta no Ano da ONU para a Preservação das Geleiras

O estudo também é uma contribuição relevante para o Ano Internacional da Preservação das Geleiras das Nações Unidas, reforçando o apelo por ações climáticas urgentes. A abertura da Conferência Internacional de Alto Nível sobre Preservação de Geleiras coincidiu com a divulgação das descobertas.

Daniel Farinotti, professor da ETH Zurique e consultor do governo suíço na formulação da “Declaração da Geleira de Dushanbe”, reforçou que o trabalho evidencia o papel crítico da ciência glacial na luta contra as mudanças climáticas.

Na Suíça, o complexo glacial Morteratsch-Pers está encolhendo rapidamente. Esta caverna de gelo, formada em 2023, marca um portal glacial por onde a água do degelo emerge. Sem uma ação climática decisiva, as geleiras suíças podem desaparecer completamente até 2100. (Imagem: Lander Van Tricht / ETH Zurique, Vrije Universiteit Brussel)

Fonte: ETH Zurique

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