A utilização de fossas sépticas biodigestoras (BSTs) para transformar o esgoto doméstico em adubo líquido é uma tecnologia social que se espalhou pelo Brasil e pela América Latina. No entanto, uma pesquisa recente da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (FECFAU) acende um alerta: a forma como esse líquido é aplicado nas plantações pode estar expondo famílias rurais a doenças graves transmitidas pela água.
O estudo, que deu origem a um artigo na revista Environmental Monitoring and Assessment, revela que o manejo inadequado do efluente — como o uso de regadores e mangueiras diretamente sobre o solo — cria cenários de contaminação que ultrapassam os limites de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O perigo do “ciclo do patógeno”
O professor Adriano Luiz Tonetti, coautor do estudo, ilustra o risco com uma cena comum no campo: um agricultor aplica o efluente em uma árvore frutífera; um animal de estimação deita sob a sombra daquela árvore, entra em contato com o líquido contaminado e, horas depois, leva esses patógenos para dentro de casa, interagindo com crianças.
Para quantificar esse risco, a engenheira ambiental Caroline Kimie Miyazaki realizou uma avaliação microbiológica baseada na presença da bactéria Escherichia coli. Os resultados foram contundentes:
- Cenário crítico: A adição de esterco bovino fresco (etapa comum do método tradicional) e a irrigação superficial com regadores apresentaram os maiores riscos de infecção.
- Dados alarmantes: No caso da irrigação superficial, 99% das simulações ultrapassaram o limite de risco aceitável por ano, sugerindo um alto potencial de surtos de doenças gástricas e infecções.
A solução: Irrigação subterrânea
A boa notícia é que o estudo não condena a tecnologia, mas propõe uma adaptação simples e barata para torná-la 100% segura. A principal recomendação é eliminar o contato humano com o líquido.
- Enterrar o efluente: Em vez de usar torneiras e regadores, o sistema deve despejar o líquido através de um tubo perfurado enterrado a cerca de 30 cm de profundidade, envolto em cascalho. Assim, o líquido infiltra diretamente no solo, chegando às raízes sem exposição a pessoas ou animais.
- Fim do esterco no tanque: O estudo comprovou que adicionar esterco bovino ao primeiro tanque (uma recomendação antiga) não aumenta a eficiência do biofertilizante e é a principal forma de contaminação dos trabalhadores durante o manejo.
- Tanques menores: Os pesquisadores sugerem que tanques de 500 litros (em vez dos tradicionais de 1.000L) são suficientes para famílias de quatro pessoas, reduzindo o custo de instalação e o tempo de permanência do líquido no sistema.
O “Mito” da absorção do patógeno pela planta
Uma dúvida comum entre agricultores é se a planta “bebe” a contaminação da água. Tonetti é categórico: o patógeno é grande demais para passar pelos poros das raízes. “É como tentar engolir um elefante usando um canudo”, compara. O risco real não está dentro do fruto, mas na superfície do solo e no manuseio da água. Se a aplicação for feita no subsolo, o risco de contaminação torna-se aceitável para qualquer padrão internacional.
Fonte: Agência FAPESP




