À esquerda, um tanque séptico biodigestor instalado em Holambra, na região de Campinas. À direita, a adição mensal de esterco bovino à válvula de retenção antes da primeira câmara ( fotos: Isabel Figueiredo ).
À esquerda, um tanque séptico biodigestor instalado em Holambra, na região de Campinas. À direita, a adição mensal de esterco bovino à válvula de retenção antes da primeira câmara ( fotos: Isabel Figueiredo ).

Biofertilizante ou risco sanitário? Estudo da Unicamp propõe mudanças no reúso de esgoto na agricultura familiar

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A utilização de fossas sépticas biodigestoras (BSTs) para transformar o esgoto doméstico em adubo líquido é uma tecnologia social que se espalhou pelo Brasil e pela América Latina. No entanto, uma pesquisa recente da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (FECFAU) acende um alerta: a forma como esse líquido é aplicado nas plantações pode estar expondo famílias rurais a doenças graves transmitidas pela água.

O estudo, que deu origem a um artigo na revista Environmental Monitoring and Assessment, revela que o manejo inadequado do efluente — como o uso de regadores e mangueiras diretamente sobre o solo — cria cenários de contaminação que ultrapassam os limites de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O perigo do “ciclo do patógeno”

O professor Adriano Luiz Tonetti, coautor do estudo, ilustra o risco com uma cena comum no campo: um agricultor aplica o efluente em uma árvore frutífera; um animal de estimação deita sob a sombra daquela árvore, entra em contato com o líquido contaminado e, horas depois, leva esses patógenos para dentro de casa, interagindo com crianças.

Para quantificar esse risco, a engenheira ambiental Caroline Kimie Miyazaki realizou uma avaliação microbiológica baseada na presença da bactéria Escherichia coli. Os resultados foram contundentes:

  • Cenário crítico: A adição de esterco bovino fresco (etapa comum do método tradicional) e a irrigação superficial com regadores apresentaram os maiores riscos de infecção.
  • Dados alarmantes: No caso da irrigação superficial, 99% das simulações ultrapassaram o limite de risco aceitável por ano, sugerindo um alto potencial de surtos de doenças gástricas e infecções.

A solução: Irrigação subterrânea

A boa notícia é que o estudo não condena a tecnologia, mas propõe uma adaptação simples e barata para torná-la 100% segura. A principal recomendação é eliminar o contato humano com o líquido.

  1. Enterrar o efluente: Em vez de usar torneiras e regadores, o sistema deve despejar o líquido através de um tubo perfurado enterrado a cerca de 30 cm de profundidade, envolto em cascalho. Assim, o líquido infiltra diretamente no solo, chegando às raízes sem exposição a pessoas ou animais.
  2. Fim do esterco no tanque: O estudo comprovou que adicionar esterco bovino ao primeiro tanque (uma recomendação antiga) não aumenta a eficiência do biofertilizante e é a principal forma de contaminação dos trabalhadores durante o manejo.
  3. Tanques menores: Os pesquisadores sugerem que tanques de 500 litros (em vez dos tradicionais de 1.000L) são suficientes para famílias de quatro pessoas, reduzindo o custo de instalação e o tempo de permanência do líquido no sistema.

O “Mito” da absorção do patógeno pela planta

Uma dúvida comum entre agricultores é se a planta “bebe” a contaminação da água. Tonetti é categórico: o patógeno é grande demais para passar pelos poros das raízes. “É como tentar engolir um elefante usando um canudo”, compara. O risco real não está dentro do fruto, mas na superfície do solo e no manuseio da água. Se a aplicação for feita no subsolo, o risco de contaminação torna-se aceitável para qualquer padrão internacional.

Fonte: Agência FAPESP

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