O Brasil, líder mundial na produção de celulose de eucalipto, acaba de ganhar uma arma poderosa para tornar sua indústria mais limpa. Pesquisadoras da USP e da Unesp, com apoio da FAPESP, desenvolveram um método para produzir a enzima xilanase a partir do fungo Aspergillus caespitosus. O diferencial? O fungo é cultivado em “lixo” agrícola, como bagaço de cana e farelo de trigo, e a enzima resultante pode substituir o cloro no branqueamento do papel.
O estudo, publicado na revista BioResources, ataca um dos gargalos ambientais do setor: o uso de dióxido de cloro. Esse reagente, embora eficiente para branquear a celulose, é altamente tóxico e gera efluentes que podem contaminar rios e a atmosfera.
Como funciona o “branqueamento verde”
A xilanase atua degradando a xilana, uma espécie de “cola” natural (hemicelulose) que prende a lignina residual às fibras de celulose. Ao remover essa camada, a enzima aumenta a alvura da polpa e facilita o trabalho dos processos seguintes, permitindo uma redução drástica na carga de produtos químicos.
O segredo do Aspergillus caespitosus: Diferente da maioria das enzimas fúngicas, que perdem o efeito acima de 40 °C, a xilanase isolada na USP de Ribeirão Preto mantém-se estável a até 60 °C. Essa estabilidade térmica é o que permite sua aplicação real nas fábricas, onde o processo de cozimento da madeira exige temperaturas elevadas.
Bioeconomia circular: Do campo para a fábrica
O processo de produção da enzima utiliza resíduos abundantes no Brasil, agregando valor ao que seria descartado:
- Bagaço de cana: Ideal para regiões como o interior de São Paulo. Requer um pré-tratamento simples para facilitar o acesso do fungo às fibras.
- Farelo de trigo: Perfeito para o Sul do país, dispensando pré-tratamento por ser uma fonte de energia direta para o microrganismo.
“Como o Brasil é protagonista na celulose, desenvolver tecnologias de branqueamento limpas é estratégico. É uma alternativa sustentável que reduz a toxicidade e utiliza nossa biodiversidade”, explica Diandra de Andrades, autora do estudo.
O Futuro: Nanotecnologia e reúso
O próximo passo das pesquisadoras é aumentar ainda mais a eficiência. O grupo trabalha na imobilização da enzima em nanopartículas magnéticas. Isso permitiria que a xilanase fosse “pescada” do processo e reutilizada diversas vezes, além de aumentar sua resistência a temperaturas ainda mais altas, tornando o processo de fabricação de papel quase inteiramente biológico.
Os números da inovação:
- 60 °C: Temperatura de operação da enzima (superior à média do mercado).
- 215 mil toneladas: Total de resíduos gerados por dia no Brasil que poderiam alimentar biotecnologias como esta.
- 1º Lugar: Posição do Brasil na exportação de celulose de eucalipto, mercado que agora pode se tornar referência em sustentabilidade.
Fonte: Agência FAPESP


