A Assembleia Geral Ordinária (AGO) da Petrobras, realizada na última quinta-feira (16/4), foi marcada por um contraste profundo. No interior do edifício, acionistas celebravam a aprovação de R$ 41,23 bilhões em dividendos. Do lado de fora, no Centro do Rio, movimentos sociais e organizações ambientais erguiam cartazes cobrando o fim da exploração na Foz do Amazonas e uma transição energética que vá além do marketing.
O protesto ocorre em um momento crítico: a petrolífera fechou 2025 com um lucro líquido superior a R$ 110 bilhões, mas enfrenta duras críticas por reduzir em 20% o orçamento destinado à agenda verde em seu plano de negócios até 2030.
A conta que a sociedade paga
Para as organizações presentes, como a 350.org e o Observatório do Clima, o modelo atual da Petrobras transfere o risco climático para a população. Os manifestantes relembraram o vazamento de fluido na perfuração do poço Morpho, na Foz do Amazonas, ocorrido em janeiro, como um alerta dos perigos de insistir na expansão fóssil.
“Eles lucram bilhões, enquanto nós pagamos: como contribuintes pelos subsídios, e como cidadãos pelos desastres climáticos que exigem cada vez mais verba pública para reconstrução”, pontuou João Cerqueira, diretor da 350.org Brasil.
Orçamento de 2026: 90% para combustíveis fósseis
Os dados aprovados na AGO confirmam que a transição energética ainda é coadjuvante na estratégia da empresa. Dos R$ 114 bilhões previstos para o orçamento de capital de 2026:
- R$ 83,6 bilhões (73%) vão exclusivamente para Exploração e Produção (E&P).
- Apenas 6,5% do total foi destinado ao segmento de “Gás e Energias de Baixo Carbono”.
Como o gás natural também é um combustível fóssil, a fatia real para fontes 100% renováveis é considerada irrisória por especialistas.
Soberania e o risco geopolítico
A dependência do petróleo também foi citada como um risco à segurança nacional. Os recentes ataques de EUA e Israel ao Irã fizeram os preços dispararem, forçando o governo brasileiro a adotar subvenções para conter o preço na bomba.
Para Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo, a Petrobras está perdendo a chance de liderar. “Os ataques expuseram a urgência financeira da transição para garantir a soberania. Insistir em fósseis é um risco para a própria perenidade da empresa”, alerta.
O caminho possível
Documentos como “A Petrobras de que Precisamos” sugerem que a estatal deveria aproveitar sua expertise técnica para liderar em:
- Biocombustíveis de 2ª e 3ª gerações;
- Diesel Verde (HVO) e Combustível Sustentável de Aviação (SAF);
- Diversificação para além do petróleo, tornando-se uma empresa de energia integrada.
Petrobras em números (Abril/2026):
- R$ 41,23 bilhões: Dividendos distribuídos aos acionistas.
- R$ 114 bilhões: Orçamento de capital aprovado para 2026.
- 90%: Percentual de investimentos ainda atrelado a combustíveis fósseis.
- 20%: Corte no orçamento para projetos de baixo carbono no plano 2026-2030.
Fonte: ClimaInfo


