Estudo revela que centenas de espécies já enfrentam estresse térmico além de seus limites fisiológicos
O impacto do aquecimento global sobre os anfíbios já é uma realidade preocupante: 2% das espécies avaliadas em um novo estudo científico já ultrapassaram seus limites fisiológicos em razão do aumento das temperaturas em seus habitats naturais.
Publicado na revista Nature, o estudo analisou 5.203 espécies de anfíbios — incluindo sapos, rãs e salamandras — e comparou seus limites de tolerância térmica com os dados reais de temperatura dos últimos 10 anos. O resultado mostra que 104 espécies já não conseguem sobreviver plenamente ao calor extremo nos ambientes em que vivem.
E a tendência é de agravamento: caso a temperatura global suba 4 °C até 2100, como preveem alguns cenários, cerca de 7,5% dos anfíbios do planeta podem não resistir às ondas de calor.
Superaquecimento ameaça principalmente espécies terrestres
A pesquisa avaliou os efeitos do aquecimento em diferentes microhabitats — terrestres, arbóreos e aquáticos. As espécies terrestres foram as mais vulneráveis, especialmente aquelas que habitam regiões próximas ao Equador no Hemisfério Sul, onde o calor é mais intenso.
Curiosamente, espécies localizadas em altitudes mais elevadas ou em ambientes aquáticos mostraram maior resiliência, beneficiadas por microclimas mais frescos. No Hemisfério Norte, porém, os anfíbios que vivem mais afastados do Equador enfrentam um risco crescente de superaquecimento, segundo os pesquisadores.
Ameaça ao equilíbrio ecológico
Além de estarem entre os vertebrados mais ameaçados do mundo, os anfíbios cumprem funções ecológicas essenciais. Eles são predadores naturais de insetos, incluindo mosquitos transmissores de doenças, e também servem de alimento para diversas espécies, como aves, répteis e mamíferos.
A perda de anfíbios representa um risco direto ao equilíbrio dos ecossistemas e à saúde pública. Segundo dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 41% das mais de 8.000 espécies conhecidas de anfíbios já estão ameaçadas de extinção, devido a fatores como perda de habitat, doenças e, cada vez mais, mudanças climáticas.
Mitigação climática e adaptação local são essenciais
A autora principal do estudo, Patrice Pottier, pesquisadora da Universidade de Nova Gales do Sul, alertou que manter o aquecimento global abaixo de 2°C pode evitar uma catástrofe para muitas espécies. Acima desse limite, o risco de extinções locais se multiplica.
“Observamos que, ao fornecer sombra e água, muitas espécies de anfíbios conseguem suportar eventos de calor extremo. Isso mostra a importância de conservar e restaurar áreas úmidas e vegetação nativa”, explicou Pottier.
No entanto, ela alerta que os modelos usados foram conservadores, presumindo o acesso a abrigos térmicos — o que nem sempre ocorre na prática. Por isso, os impactos reais podem ser ainda maiores do que os projetados.
O caminho para preservar os anfíbios
Entre as soluções propostas pelos cientistas estão:
- Conservação de vegetação nativa e corpos d’água, essenciais para o resfriamento dos microclimas;
- Criação de refúgios térmicos em áreas protegidas;
- Políticas públicas para redução de emissões de gases de efeito estufa, com ações em escala local e global;
- Educação ambiental e incentivo à ciência cidadã para engajar a população na proteção da biodiversidade.
“Cada décimo de grau conta. Se não agirmos com urgência, perderemos não apenas espécies, mas toda a complexidade ecológica que os anfíbios ajudam a manter”, conclui Pottier.


