Os modelos climáticos mais avançados do mundo estão subestimando a velocidade com que a Terra está acumulando calor. Um novo estudo, liderado pelo cientista Seiji Yukimoto, do Instituto de Pesquisa Meteorológica do Japão, revela que a diferença entre a energia que recebemos do Sol e a que devolvemos ao espaço — o chamado desequilíbrio energético — cresceu de forma explosiva nas últimas duas décadas, especialmente após 2010.
O dado é alarmante: em 2023, esse desequilíbrio atingiu 1,8 watts por metro quadrado, o dobro do que as simulações baseadas apenas em emissões de gases de efeito estufa previam. Na prática, isso significa que o planeta está “fechando as janelas” para o calor sair muito mais rápido do que imaginávamos.
O mistério das nuvens e dos aerossóis
Os cientistas acreditam ter identificado o “elo perdido” que os computadores não estão captando: a interação entre as nuvens e os aerossóis (pequenas partículas em suspensão na atmosfera).
Historicamente, os aerossóis — provenientes da poluição industrial e do transporte marítimo — ajudavam a resfriar o planeta, tornando as nuvens mais brilhantes e reflexivas, enviando a energia solar de volta ao espaço. No entanto, dois fatores mudaram o jogo desde 2010:
- Redução da poluição: Novas regulamentações no transporte marítimo e cortes de emissões na China diminuíram a quantidade de aerossóis.
- Efeito inverso: Com menos partículas, as nuvens podem estar se tornando menos reflexivas, permitindo que o oceano e a superfície absorvam muito mais radiação.
“A representação das mudanças nas nuvens em resposta aos aerossóis pode não refletir totalmente a realidade nos modelos atuais”, explica Yukimoto.
Por que isso é perigoso?
Se o desequilíbrio continuar a subir no ritmo atual, o aquecimento global pode acelerar de forma imprevisível. Existem duas hipóteses principais sendo investigadas:
- Hipótese A: O aumento é um ajuste temporário devido à queda dos aerossóis e deve estabilizar em breve.
- Hipótese B: O aumento é uma resposta das próprias nuvens às temperaturas mais altas da superfície (um feedback positivo), o que significaria que o planeta entrou em um ciclo de aquecimento acelerado que os modelos ainda não dominam.
O diagnóstico da Ciência
Para Tianle Yuan, cientista da NASA que analisou o estudo, a falha dos modelos em capturar esse aumento sugere que existem mecanismos ocultos regulando a energia que escapa da Terra. A análise de 15 modelos de última geração confirmou que nenhum deles conseguiu espelhar os dados reais coletados por satélites entre 2001 e 2024.
A conclusão é clara: precisamos de modelos que representem com mais precisão como as temperaturas dos oceanos e os aerossóis afetam as nuvens. Sem isso, estaremos tentando prever o futuro do clima com uma bússola descalibrada.

Fonte: Live Science
Fontes do artigo
Yukimoto, S., Kawai, H., Oshima, N., & Deushi, M. (2026). Forçamento radiativo efetivo emergente no desequilíbrio radiativo desde 2010. Geophysical Research Letters , 53 (4). https://doi.org/10.1029/2025gl119913




