Na composição das exsicatas, detalhes que resgatam a vida das plantas - Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP
Na composição das exsicatas, detalhes que resgatam a vida das plantas - Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP

Acervo de 43 mil plantas ganha vida nova no herbário do Instituto de Biociências da USP

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Coleção especial do imigrante japonês Goro Hashimoto traz para um dos herbários mais importantes do País registros raros como o da extinta flora do Parque Nacional de Sete Quedas

São histórias que aliam a vida das plantas à trajetória humana, destacando as Ciências da Natureza, Biológicas, Humanas e também a Ciência da Arte. É essa paisagem que está no cotidiano dos cientistas, botânicos, biólogos, estagiários de diferentes áreas e voluntários que atuam no herbário SPF (sigla internacional do herbário da Universidade, reconhecido por sua coleção científica) no Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da USP.

“O herbário do IB foi fundado em 1932. Inicialmente era localizado na Faculdade de Farmácia e só mais tarde, nos anos 1960, foi transferido para o Departamento de Botânica. Na época, tinha cerca de 12 mil espécimes. Hoje, trata-se de um museu com 279 mil amostras de plantas secas para estudos científicos”, explica o curador, cientista e professor do IB José Rubens Pirani.

Agora, uma coleção de 43 mil plantas formada pelo imigrante japonês Goro Hashimoto passou a integrar o acervo. Ele começou a ser transferido em 2022 do Centro de Pesquisa de História Natural (CPHN), uma instituição fundada por Hashimoto, em 1950. A coleção, acondicionada em caixas de papelão cuidadosamente lacradas, foi sendo transferida em nove viagens de caminhão no decorrer de quase dois anos. Uma carga de plantas e sonhos que foi crescendo desde 1934, quando o botânico chegou no Brasil, com o objetivo de pesquisar e se dedicar à diversidade da flora de várias regiões do País.

José Rubens Pirani, curador do herbário e professor do Instituto de Biociências da USP – Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP

“Goro Hashimoto nasceu na cidade de Kakegawa no Japão. Mudou para o Brasil, instalando-se em São Paulo, onde esteve envolvido com atividades ligadas à botânica” conta Marcelo Fernando Devecchi, botânico e gestor acadêmico dos projetos do laboratório do herbário. “Duas décadas depois, transferiu-se para o Paraná, onde fundou o Museu Sete Quedas, em Guaíra, e depois de três décadas retornou a São Paulo e organizou o herbário Goro Hashimoto. Depois de peregrinar por algumas edificações em diferentes bairros de São Paulo, esse herbário, que é o centro principal do CPHN, finalmente, desde janeiro de 1997, passou a ocupar um prédio erguido em uma área cedida por Patrício Yoshio Yoshioka, em Itaquera, na zona leste da capital.”

Professor Pirani ouviu e pesquisou com atenção a vida e trajetória de Goro Hashimoto. “A paixão que tinha pelas plantas sempre manteve amigos por perto que atuavam no Centro de Pesquisa, realizando muitas viagens para apreciação da natureza e coletas de partes de plantas para preservar em museu”, explica. “Publicou livros sobre plantas medicinais, frutas e legumes do Brasil, e contribuiu com sua equipe para o mapeamento e identificação das árvores dos parques municipais de São Paulo nos anos 80 e 90.”

Hashimoto foi coordenador botânico do Jardim do Pavilhão Japonês no Parque do Ibirapuera, construído por ocasião do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Entre as honras que recebeu, destaca-se o título Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Shizuoka do Japão, em 2001. Hashimoto faleceu em 2008.

Registros preciosos da flora

O principal legado deixado por ele é a coleção com 43 mil exsicatas (amostras de plantas secas, prensadas e identificadas, montadas em folhas de papel). “Até o momento já incorporamos 10 mil exsicatas. Com essa integração, o acervo do herbário SPF passa a ser um dos maiores do estado de São Paulo”, afirma Devecchi. Na avaliação do professor, um dos destaques da coleção Hashimoto é o registro da extinta flora do Parque Nacional de Sete Quedas, devido à formação da enorme Represa da Usina Hidrelétrica de Itaipu. “O professor pesquisou inúmeras exsicatas que conseguiu coletar antes da inundação da área para a construção da usina”, ressalta. “A publicação da lista florística de Sete Quedas compilada por Hashimoto foi publicada postumamente.”

Fernando Devecchi, botânico e gestor acadêmico dos projetos do laboratório do herbário – Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP

Devecchi observa que a coleção tem ainda muitos registros preciosos de plantas em diversos bairros da cidade de São Paulo e que foram eliminadas localmente com o crescimento rápido da metrópole. Goro também fez coletas em nove países sul-americanos.

Embora bem cuidado, o acervo passou por procedimentos técnicos para garantir a sua integração no herbário. “Esta etapa de recepção e tratamento das numerosas caixas contou com o apoio de muitos alunos e da equipe do Centro de Pesquisa. Cada lote de material que chegava ao herbário na USP era submetido a um tratamento de expurgo por uma fase de ultracongelamento por sete dias seguido de aquecimento e secagem, evitando contaminação da coleção por fungos e insetos”, esclarece o professor Pirani. “Mas desde setembro de 2022 já havia sido iniciado o processamento das amostras herborizadas, denominadas exsicatas, incluindo reparos quando necessário, como fichas descoladas ou material solto.”

O professor Devecchi e equipe estão acompanhando todo o processo cuidadoso para a integração do acervo. “Todas as exsicatas recebem um código de barras e é realizada uma checagem do nome para atualização antes da incorporação. Os exemplares que possuem duplicatas foram separados para envio para outros herbários nacionais e mesmo alguns internacionais.”

Devecchi explica que após todo o processamento, os dados de todos os exemplares são inseridos no banco de dados do herbário e encaminhados para serem fotografados. “E só depois as exsicatas são devidamente organizadas nas respectivas famílias botânicas a que pertencem.”

Segundo a equipe do herbário, a riqueza botânica do acervo Goro Hashimoto é atestada pela presença de 330 famílias representadas, sendo as mais numerosas as Asteráceas, a família do girassol, com mais de cinco mil amostras, as Leguminosas com quase quatro mil plantas, e as Rubiáceas, a família do café, com quase duas mil exsicatas.

“Com isso, um acervo extremamente valioso de plantas coletadas em diversas partes do Brasil está ganhando vida nova. E o mais importante, está se tornando, após cuidados de recuperação e atualização científica. disponível para consultas, tanto físicas no herbário como virtuais em repositórios on-line”, acentua o professor Pirani.

Paixão pela botânica

Como representante do Centro de Pesquisas de História Natural (CPHN), Marina Kiyomi Ito acompanhou de perto a transferência do acervo de Goro Hashimoto para a USP. E depois de quase quatro anos vê, com satisfação, o legado do professor nas mãos dos cientistas, botânicos, professores e estudantes de diversas áreas de todo o País.

“O professor Goro era uma pessoa muito tranquila, de fala mansa e muito compenetrado. Viveu para a Botânica, que era a sua paixão. Podia ficar sem se alimentar, mas era ávido em consumir livros sobre Botânica”, conta. “Um estudioso, cientista e, mesmo não tendo formação superior, o seu conhecimento em Botânica permitiu que ele publicasse livros sobre plantas brasileiras. Essas publicações foram em japonês e por isso pode-se dizer que ele era mais conhecido e reconhecido pelo seu trabalho por especialistas do Japão. Daí ter recebido o título de Professor Honoris Causa da Universidade de Shizuoka. Minha impressão é que ele se inspirou no “pai da Botânica” do Japão, Tomitaro Makino, e se dedicou de maneira muito semelhante a este pioneiro.”

Marina Kiyomi Ito coordenou a transferência do acervo para a USP e hoje é voluntária no herbário – Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP

Goro Hashimoto realizou as suas pesquisas sempre com o apoio de voluntários e amigos. Foi por essa amizade e gratidão à USP por ter incorporado o acervo de Hashimoto que Marina atua de forma voluntária junto ao Herbário.

Paulista de Mogi das Cruzes. Ela é nutricionista, professora aposentada da Universidade de Brasília. Fez mestrado em Ciências da Nutrição pela Universidade de Tokushima e doutorado em Ciências Biológicas pela University of Rhode Island. Mas afirma que tem orgulho de ser uma estudante no herbário do IB. “Estou aqui há um ano e aprendendo muito sobre a montagem das exsicatas, os cuidados com o acervo e o universo da Botânica que encantaram Goro Hashimoto, José Rubens Pirani, Wilson Hoehne, Aylthon Brandão Joly e tantos outros mestres cientistas.”

Fonte: https://jornal.usp.br/

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