Você sabe de onde vem a água do seu condomínio, clube ou hospital? Na Região Metropolitana de São Paulo, 18% do consumo de água depende de poços artesianos. O problema? Um estudo da USP, publicado na Environmental Earth Sciences, revela que dois terços dos 14 mil poços da região não têm registro e muitos estão localizados em áreas contaminadas por solventes tóxicos.
Com a desindustrialização de bairros como Mooca, Vila Prudente, Jurubatuba e Jaguaré, antigas fábricas deram lugar a prédios residenciais. Porém, o solo desses locais ainda guarda “solventes clorados” — substâncias altamente tóxicas usadas por décadas para limpar máquinas — que agora ameaçam o lençol freático.
O perigo do “efeito ralo”
Segundo os pesquisadores Daphne Silva Pino e Reginaldo Bertolo, o risco é potencializado pelo próprio uso da água:
- Migração vertical: Quando um poço profundo (de 100 metros, por exemplo) bombeia água, ele cria um gradiente que “puxa” a contaminação da superfície para as camadas mais profundas e puras do aquífero.
- Invisibilidade: Como 2 em cada 3 poços são clandestinos, as autoridades não conseguem monitorar se a água consumida oferece risco à saúde.
- Persistência: Diferente da gasolina, que se degrada rápido, os solventes clorados duram décadas e, ao se decomporem, podem gerar subprodutos ainda mais perigosos.
O mapa do risco
A pesquisa cruzou mapas de poços registrados com áreas de contaminação industrial confirmada. O resultado é assustador: em bairros como a Mooca, há uma sobreposição direta entre pontos de extração de água e plumas de contaminantes químicos.
“A contaminação não respeita as linhas do terreno. Ela é transportada pela água subterrânea por quilômetros”, alerta Bertolo. Hoje, apenas 18,6% das áreas contaminadas por esses solventes em SP foram reabilitadas para uso seguro.
Gestão urgente
O estudo conclui que tratar a contaminação “lote por lote” é insuficiente. É preciso uma gestão regional que reconheça os aquíferos como sistemas integrados. Sem fiscalização rigorosa sobre poços particulares e bases de dados robustas, a revitalização imobiliária de São Paulo pode estar sendo construída sobre um passivo ambiental perigoso.
Fonte: Agência FAPESP


