A poluição plástica atingiu um nível tão profundo que já está alterando a geologia de um dos lugares mais remotos do Brasil. Um estudo da Unesp, publicado no Marine Pollution Bulletin, revelou que ninhos de tartarugas-verdes (Chelonia mydas) na Ilha da Trindade estão acumulando e enterrando “pedras de plástico” — aglomerados de detritos humanos fundidos a sedimentos naturais.
Localizada a 1.100 km da costa do Espírito Santo, Trindade é o território mais oriental do país e um santuário de biodiversidade. No entanto, a pesquisa demonstra que o plástico já faz parte do ciclo geológico da ilha, com potencial para permanecer no registro fóssil por milhões de anos.
O surgimento das pedras antropogênicas
Essas formações, detectadas pela primeira vez na praia Parcel das Tartarugas, surgem principalmente de cordas de pesca de polietileno (PEAD) que se fundem com a areia, muitas vezes devido a fogueiras ou à degradação térmica.
- Erosão e dispersão: Após cinco anos de monitoramento, os cientistas notaram que as rochas originais perderam 40% de seu tamanho, espalhando fragmentos para outras seis praias da ilha.
- O papel dos ninhos: As depressões escavadas pelas tartarugas para depositar ovos tornaram-se “armadilhas” para esse material. O plástico soterrado em ninhos (até 10 cm de profundidade) apresenta formas angulares, indicando que, uma vez enterrado, ele fica protegido da erosão das ondas e se estabiliza no sedimento.
Ameaça à conservação e ao futuro geológico
Para a pesquisadora Fernanda Avelar Santos, autora do estudo, a descoberta é um forte indício do Antropoceno — a época geológica marcada pela influência humana. “Como esse material está enterrado nos ninhos, ele se torna um ponto de acumulação para o próximo milhão de anos”, explica.
Além do impacto geológico, há o risco biológico imediato:
- Contaminação química: Análises identificaram corantes de cobre nas cordas de pesca, um metal pesado que pode contaminar o ambiente de incubação.
- Ingestão pela fauna: Além das tartarugas, peixes, aves e caranguejos da ilha podem estar ingerindo esses fragmentos, confundindo-os com alimento ou sedimentos naturais.
Gestão urgente de resíduos marítimos
A Ilha da Trindade não possui população permanente, apenas uma equipe rotativa da Marinha, o que prova que o lixo que chega lá é trazido pelas correntes oceânicas e pelas atividades de pesca industrial e transporte marítimo global.
Os pesquisadores reforçam que os resultados são um alerta para a urgência de políticas públicas focadas na gestão de resíduos de pesca (redes e cordas) e em mutirões de limpeza estratégicos em praias de desova, para evitar que o berço das tartarugas se transforme em um depósito eterno de plástico.
Fonte: www.agencia.fapesp.br




