Uma nova e importante série de três artigos publicada na revista científica The Lancet, escrita por 43 especialistas internacionais, soa um alarme urgente: o rápido aumento global do consumo de alimentos ultraprocessados (AUPs) está substituindo refeições frescas e impulsionando uma série de problemas crônicos de saúde.
O Professor Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo, explica que essa mudança nos hábitos alimentares é impulsionada por poderosas corporações globais, cujo foco no lucro prioriza produtos ultraprocessados. A série alerta que a influência política dessas empresas continua sendo o maior obstáculo para uma reforma eficaz nas políticas alimentares.
A expansão global e os riscos à saúde
O estudo utiliza a classificação Nova e revela a magnitude da expansão dos AUPs:
- A proporção de energia alimentar proveniente de AUPs triplicou na Espanha (de 11% para 32%) e na China (de 4% para 10%) nas últimas três décadas.
- Nos EUA e no Reino Unido, o consumo se manteve acima de 50% nas últimas duas décadas.
- Uma revisão sistemática de 104 estudos constatou que dietas ricas em AUPs estão associadas a maior risco de pelo menos uma doença crônica. Meta-análises identificaram ligações significativas com 12 condições, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e depressão.
Apesar do debate científico sobre as definições dos AUPs, os autores enfatizam que o conhecimento atual é robusto o suficiente para justificar uma ação imediata. “Aguardar estudos adicionais permitiria que os alimentos ultraprocessados se consolidassem ainda mais nas dietas globais”.
Plano de ação política e o combate ao poder corporativo
Os especialistas defendem que a melhoria das dietas não pode depender apenas do comportamento individual. O progresso exige políticas coordenadas para limitar a produção e a comercialização dos AUPs.
A Professora Camila Corvalan, da Universidade do Chile, sugere a implementação de ações políticas ousadas: “desde a inclusão de indicadores de alimentos ultraprocessados nos rótulos frontais das embalagens até a restrição da comercialização e a implementação de impostos sobre esses produtos para financiar um maior acesso a alimentos nutritivos e acessíveis”.
O relatório também recomenda:
- Limites de marketing mais rigorosos, especialmente para promoções direcionadas a crianças.
- A proibição de AUPs em locais públicos, como escolas e hospitais.
- O uso da tributação para financiar subsídios para opções mais saudáveis para famílias de baixa renda.
O Dr. Phillip Baker, da Universidade de Sydney, compara a situação à luta contra a indústria do tabaco, clamando por uma “forte resposta global de saúde pública” para proteger os espaços políticos da interferência do lobby da indústria.
O terceiro estudo da série demonstra que o aumento do consumo é impulsionado por corporações que maximizam lucros com ingredientes de baixo custo, sendo o segmento mais lucrativo da indústria alimentícia, com vendas globais anuais de US$ 1,9 trilhão.
A transformação exige uma nova visão que valorize os produtores locais de alimentos, preserve as tradições alimentares culturais e assegure que os benefícios econômicos cheguem às comunidades.




