Apenas alguns meses após o encerramento da COP30 em Belém, onde o mundo discutiu a transição para longe dos combustíveis fósseis, o Senado francês tomou uma decisão que reacende o debate sobre a coerência climática global. Em 29 de janeiro, o Senado aprovou uma proposta que flexibiliza a proibição de 2017 e permite a reabertura de licenças para exploração de petróleo e gás em territórios ultramarinos, com foco direto na Guiana Francesa.
O texto, aprovado por ampla maioria apesar da oposição do governo central, segue agora para a Assembleia Nacional Francesa, onde ainda pode sofrer alterações.
Soberania vs. clima
A medida é impulsionada por dois fatores principais:
- Instabilidade geopolítica: Parlamentares defensores da proposta argumentam que a exploração fortaleceria a soberania energética da França diante da insegurança no abastecimento europeu.
- Potencial regional: A empolgação de parlamentares da Guiana Francesa cresceu após descobertas significativas de hidrocarbonetos em águas vizinhas.
Por outro lado, o próprio ministro francês da Economia e Energia, Roland Lescure, classificou o projeto como “anacrônico”, alertando que o recuo nas restrições internas pode destruir a credibilidade da França em futuras negociações climáticas multilaterais.
O feito espelho na margem equatorial brasileira
A decisão francesa não pode ser lida de forma isolada do contexto brasileiro. A Guiana Francesa faz fronteira com o Amapá, e ambos os territórios compartilham a geologia da chamada Margem Equatorial.
- Pressão mútua: No Brasil, o debate sobre a exploração na Foz do Amazonas — vizinha à jurisdição francesa — tem sido intenso.
- Argumento político: Parlamentares franceses têm usado os avanços exploratórios do Brasil na região como justificativa para que a Guiana Francesa não fique para trás na corrida petrolífera.
O alerta científico
A insistência em novas fronteiras de combustíveis fósseis ocorre em um momento crítico. Relatórios científicos indicam que a expansão do consumo de petróleo e gás é o principal motor para que o mundo ultrapasse o limite de 1,5 °C de aquecimento global, meta central do Acordo de Paris.
A situação destaca a persistência global em explorar áreas de alta sensibilidade ambiental em vez de acelerar a redução de emissões, mantendo o mundo em uma rota perigosa de aquecimento.
Fonte: Reuters




