Um buraco triangular no gelo, águas a -2°C e um silêncio perturbador. Foi nesse cenário, no leste da Groenlândia, que o fotógrafo subaquático Alex Dawson capturou a imagem vencedora do Underwater Photographer of the Year 2024. Intitulada “Ossos de Baleia”, a foto revela uma vala comum de baleias-anã (minke) em águas rasas — um espetáculo visual que esconde uma crise ecológica invisível.

Oásis de vida em águas profundas
Em condições naturais, quando uma baleia morre, seu corpo protagoniza um dos eventos biológicos mais importantes do planeta: a “queda da baleia”. Ao afundar por milhares de metros, a carcaça torna-se uma “ilha de nutrientes” em um leito marinho geralmente deserto.
Esse banquete colossal sustenta ecossistemas inteiros por décadas:
- Fase dos necrófagos: Peixes-bruxa, tubarões-dorminhocos e caranguejos removem a carne e a gordura em poucos meses.
- Fase dos vermes “comedores de ossos”: Organismos do gênero Osedax digerem o colágeno e as gorduras de dentro dos ossos.
- Fase quimiossintética: À medida que o esqueleto se decompõe, libera enxofre, alimentando bactérias que sustentam comunidades de mexilhões, caracóis e vermes, em um habitat similar às fontes hidrotermais.
Uma única carcaça pode abrigar mais de 400 espécies, muitas das quais só existem nesses restos mortais.
O ciclo interrompido
As imagens de Dawson, feitas perto da cidade de Tasiilaq, mostram o que acontece quando esse ciclo é quebrado. Na Groenlândia, a caça de subsistência é permitida e vital para a sobrevivência das comunidades locais, onde a agricultura é impossível.
As baleias são trazidas para a costa, onde a carne e a gordura são aproveitadas pelas famílias. O que sobra — os esqueletos — é levado pela maré de volta ao mar, mas fica retido em águas rasas.
O problema ambiental: Esses ossos, agora limpos e em profundidades baixas, não chegam ao abismo. O oceano profundo é privado desse “sustento vital”. Sem a queda das carcaças originais, corredores mundiais de biodiversidade marinha deixam de existir, e espécies podem estar sendo extintas antes mesmo de serem descobertas pela ciência.
O medo sob o gelo
Além do valor científico, a expedição de Dawson foi um teste de resistência humana. Mergulhar sob o gelo flutuante é perigoso; o som do gelo rachando com a maré assemelha-se a explosões de dinamite. “Se o nosso único buraco se comprimisse, eu estaria perdido”, relatou o fotógrafo.
O resultado desse esforço é um alerta visual: o declínio das populações de baleias no último século reduziu drasticamente o número de carcaças no fundo do mar, empobrecendo o ecossistema mais misterioso da Terra.






