Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), os rejeitos de mineração continuam a cobrar um preço alto da saúde humana. Um estudo premiado, conduzido por pesquisadores da USP (ESALQ), UFES e da Universidade de Santiago de Compostela, revelou que metais tóxicos como chumbo e cádmio estão se acumulando em frutas e tubérculos cultivados no estuário do Rio Doce, em Linhares (ES). O dado mais alarmante: o consumo de bananas da região representa um risco real ao desenvolvimento de crianças de até seis anos.
O caminho do metal: Do solo ao fruto
A pesquisa, que faz parte da tese de doutorado de Amanda Duim (premiada pela USP e pela Capes em 2025), desvendou a dinâmica bioquímica da contaminação. O óxido de ferro, principal componente da lama de rejeitos, funciona como um “veículo” para elementos potencialmente tóxicos (EPTs).
- Bananas e mandioca: Os metais tendem a se concentrar nas raízes, mas na banana, o cádmio e o chumbo conseguem subir até o fruto.
- Cacau: Apresentou níveis críticos de cobre e chumbo na polpa, excedendo os limites de segurança da FAO (ONU).
Por que as crianças são as mais vulneráveis?
Ao calcular o Índice de Risco Total (IRT), os cientistas descobriram que, enquanto para adultos os níveis são considerados baixos, para crianças menores de seis anos o índice ultrapassou o limite de segurança (IRT > 1) no caso das bananas.
- Danos no desenvolvimento: A exposição prolongada ao chumbo, mesmo em doses baixas, pode afetar permanentemente o desenvolvimento cerebral infantil, reduzindo o QI e gerando problemas de comportamento e atenção.
- Efeito cumulativo: O cádmio, também encontrado acima do recomendado, pode causar danos renais e ósseos ao longo do tempo.
Risco de câncer a longo prazo
A Dra. Tamires Cherubin, coautora do estudo, alerta que o problema não é apenas imediato. Considerando a expectativa de vida média do brasileiro (75 anos), a ingestão contínua desses alimentos cultivados em solo contaminado pode levar a danos diretos no DNA, aumentando as chances de cânceres no trato digestivo, sistema nervoso e tecidos sanguíneos.
Recuperação ambiental
Apesar do cenário preocupante para a agricultura, a pesquisa também trouxe uma ponta de esperança na área da fitorremediação. Os cientistas identificaram espécies de plantas nativas que são altamente eficientes em absorver esses metais do solo sem transferi-los para a cadeia alimentar, funcionando como “filtros naturais” que poderiam ser usados para limpar o estuário do Rio Doce.




