O hidrogênio é considerado uma das alternativas mais promissoras para diminuir emissões em setores como siderurgia e refino de petróleo (imagem: Freepik versão)
O hidrogênio é considerado uma das alternativas mais promissoras para diminuir emissões em setores como siderurgia e refino de petróleo (imagem: Freepik versão)

Inteligência de dados revela o “mapa do tesouro” do hidrogênio verde no Brasil: Sete polos de produção Identificados

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O Brasil já sabe onde estão as minas de ouro da energia do futuro. Um estudo detalhado do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI/USP), apoiado pela FAPESP e pela Shell, utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para cruzar dados de mais de 5,5 mil municípios brasileiros. O resultado é um mapa de alta precisão que identifica sete clusters de produção e dez de consumo industrial de Hidrogênio Verde (H₂V).

A pesquisa, publicada no International Journal of Hydrogen Energy, confirma o potencial brasileiro, mas acende um alerta: o país terá que construir uma “ponte” logística entre o vento do Nordeste e as chaminés do Sudeste.

Potenciais clusters de produção de hidrogênio verde no Brasil (imagem: Celso da Silveira Cachola e Drielli Peyerl)

A anatomia do estudo: Como os polos foram escolhidos?

Para chegar aos sete polos ideais, os pesquisadores sobrepuseram camadas de informação geográfica essenciais:

  • Potencial natural: Incidência solar e velocidade dos ventos.
  • Segurança hídrica: Disponibilidade de água (insumo básico para a eletrólise).
  • Infraestrutura: Proximidade de portos, gasodutos e rede elétrica.
  • Demanda: Municípios com altos índices de emissão de CO₂ industrial.

O desafio da distância: Onde o H₂V é gerado x Onde ele é usado

Os dados revelam um “descompasso geográfico” que define o tamanho do investimento necessário em infraestrutura:

  1. O Nordeste como Usina: É a região com maior capacidade de produção, graças aos recursos eólicos e solares.
  2. O Sul/Sudeste como Mercado: Concentra os setores “hard-to-abate” (difíceis de descarbonizar), como a siderurgia e o refino de petróleo, que precisam do hidrogênio para substituir combustíveis fósseis.

As soluções propostas: Hubs e Amônia Verde

Segundo a pesquisadora Drielli Peyerl, uma das autoras do estudo, o segredo para viabilizar a economia do hidrogênio no Brasil está na criação de Hubs. “Quando você produz perto da indústria que vai utilizar, reduz perdas energéticas e custos de transporte”, explica.

Para as distâncias onde o transporte por cano (gasoduto) não é viável, a solução pode ser a Amônia Verde. Por ser um líquido mais fácil de manusear do que o gás hidrogênio, a amônia permite usar a infraestrutura portuária já existente para levar a energia do Nordeste para o resto do país ou para exportação.

O Brasil na dianteira da matriz mundial

O estudo reforça que o Brasil joga em outra liga quando o assunto é energia limpa. Enquanto o mundo tem, em média, apenas 15% de matriz renovável, o Brasil já opera entre 45% e 50%. No setor elétrico (essencial para o H₂V), mais de 80% da nossa fonte é limpa.

“O Brasil tem enorme potencial para hidrogênio, mas também para eletrificação, biometano e biomassa. O desafio é identificar em cada região qual solução faz mais sentido”, conclui Peyerl.


Os números da transição energética no Brasil:

O estudo da FAPESP/USP não apenas mapeia locais, mas quantifica por que o Brasil é considerado a “bola da vez” na economia verde global. Confira os indicadores que sustentam essa liderança:

  • 7 Clusters de Alta Produção: Concentrados majoritariamente no Nordeste, onde a combinação de ventos constantes e alta incidência solar permite que as usinas de eletrólise operem com o menor custo por quilo de hidrogênio do mundo.
  • 10 Clusters de Consumo Industrial: Localizados nos corações fabris do Sul e Sudeste, onde indústrias de aço, cimento e fertilizantes aguardam o H₂V para zerar suas emissões de carbono.
  • 80% de Eletricidade Limpa: Enquanto a média dos países industrializados luta para descarbonizar suas redes elétricas, o Brasil já possui uma base renovável consolidada, o que garante que o hidrogênio produzido aqui seja verdadeiramente “verde” desde a origem.
  • Dobra da Média Mundial: O Brasil possui uma matriz energética geral cerca de 3 vezes mais renovável que a média global (45-50% no Brasil contra apenas 15% no mundo), o que reduz drasticamente o investimento necessário para iniciar novos projetos.
  • R$ 25 Bilhões em Jogo: Este é o volume de incentivos fiscais e créditos que podem ser injetados no setor assim que a regulamentação do Rehidro for concluída, transformando o potencial acadêmico em canteiros de obras reais.
  • Desafio de 2.500 km: Esta é a distância média que a infraestrutura brasileira precisará vencer para conectar os centros de geração de energia renovável do topo do mapa aos centros de produção industrial na base do país.

O que é TRL (Technology Readiness Level)?

Mencionado pela pesquisadora Drielli Peyerl, o TRL é uma escala de 1 a 9 criada pela NASA para medir a maturidade de uma tecnologia.

  • TRL 1-3: Ideia e prova de conceito em laboratório.
  • TRL 4-6: Protótipos e testes em ambientes simulados.
  • TRL 7-9: Tecnologia testada, aprovada e pronta para o mercado comercial.

O Hidrogênio Verde via eletrólise já está em TRL 9, o que significa que não é mais uma “promessa de laboratório”, mas uma solução pronta para ser escalada industrialmente, dependendo apenas de infraestrutura e viabilidade econômica.

Fonte: Agência FAPESP

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