Um corredor ecológico que movimenta 5 bilhões de dólares anualmente e sustenta quase 900 mil empregos está sob ameaça silenciosa. Um novo estudo publicado na revista Discover Oceans revela que a falta de coordenação política e científica entre Brasil, Argentina e Uruguai coloca em risco a conservação do Atlântico Sudoeste, uma das regiões marinhas mais produtivas do globo.
O artigo, que reúne especialistas da UFRN, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e de instituições internacionais, aponta que o avanço da pesca ilegal e as mudanças climáticas estão agindo mais rápido do que a nossa capacidade de organização regional.
O “Triângulo das Bermudas” da governança
Embora os três países compartilhem as mesmas águas e espécies migratórias, a gestão atual é fragmentada. O estudo identifica três grandes lacunas:
- Vácuo de coordenação: Não existe uma estrutura formal onde os três governos decidam juntos sobre a proteção do ecossistema compartilhado.
- Pesca ilegal de grande escala: Frotas estrangeiras (especialmente de outros continentes) aproveitam a falta de vigilância integrada para capturar recursos valiosos, como lula e atum.
- Apagão de dados: Ainda faltam informações científicas padronizadas sobre como as espécies estão se deslocando devido ao aquecimento das águas.
Mudanças climáticas: O inimigo invisível
As incertezas climáticas em 2026 já mostram sinais claros de alteração nas correntes marinhas. Isso muda a circulação de nutrientes e a conectividade entre os berçários de vida marinha. Se uma espécie de peixe migra da Argentina para o Brasil fugindo do calor, mas a regra de pesca não acompanha esse deslocamento, o estoque pode colapsar.
“Existe uma oportunidade de ouro para fortalecer a governança regional. O sucesso da conservação dependerá da nossa capacidade de colocar a ciência no centro da tomada de decisão”, avalia Juliano Palacios, autor principal do estudo.
2026: O ano da virada oceânica?
O momento para essa união é estratégico. O Tratado do Alto Mar (BBNJ) passou a vigorar em janeiro de 2026, com a ratificação de 87 países, criando regras para proteger a biodiversidade além das fronteiras nacionais. Além disso, o Brasil consolidou seu papel de liderança ambiental ao sediar recentemente a COP30 (Belém) e a COP15 (Campo Grande).
O próximo grande marco será em 2027, quando o Rio de Janeiro receberá a Conferência das Nações Unidas sobre a Década do Oceano. Até lá, o desafio é transformar esses encontros diplomáticos em instituições operacionais que protejam o “ouro azul” do Atlântico Sul.
Fonte: INPO


