Um sinal de alerta acaba de ser emitido para a biodiversidade marinha do Norte do Brasil. Pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) registraram, pela primeira vez, a presença de uma larva do temido peixe-leão (Pterois volitans) na Plataforma Continental Amazônica (PCA). O achado é histórico e preocupante: ele comprova que a espécie invasora não está apenas “de passagem” vinda do Caribe, mas já se estabeleceu e completa seu ciclo reprodutivo em águas brasileiras.
A descoberta ocorreu durante a expedição científica franco-brasileira AMAZOMIX, que estuda as complexas interações entre as águas do Rio Amazonas e o Oceano Atlântico.
Menor que um grão de arroz, mas uma ameaça gigante
A larva identificada tem apenas 3,9 milímetros — o equivalente a um grão de arroz — e idade estimada em apenas nove dias. O exemplar foi coletado em mar aberto, ao largo do Amapá, a cerca de 200 metros de profundidade.
Para garantir que não houvesse erro de identificação, os cientistas utilizaram uma técnica de ponta:
- DNA Barcoding: Funciona como um “código de barras” biológico. Os pesquisadores leram um trecho específico do material genético (gene COI) para confirmar, com 100% de precisão, que se tratava do peixe-leão.
- Morfologia: Mesmo minúsculo, o animal já apresentava a cabeça bem desenvolvida e os pequenos espinhos típicos que o tornam um predador implacável no futuro.

A quebra de uma barreira natural
Historicamente, a foz do Rio Amazonas era considerada uma “barreira de água doce” que impedia a migração de espécies de recifes de corais do Caribe para o Brasil. A presença desta larva prova que o peixe-leão conseguiu superar esse obstáculo.
Segundo os autores do estudo, a baixa densidade encontrada (apenas uma larva em 343 amostras) sugere o que a ecologia chama de “população dormente”: a espécie está presente em números pequenos, “escondida”, aguardando condições ambientais favoráveis para uma explosão populacional que pode devastar a fauna local.
Por que o peixe-leão é tão perigoso?
O peixe-leão é um predador oportunista e generalista. Como não possui predadores naturais no Atlântico Sul, ele se alimenta vorazmente de peixes e crustáceos nativos, desequilibrando toda a cadeia alimentar e ameaçando a pesca artesanal da região.
“A presença de uma larva indica que a espécie está se reproduzindo na área de estudo, o que sugere que está estabelecida na região”, afirmam os pesquisadores no estudo.

Monitoramento urgente
Diante da retomada de atividades industriais na Foz do Amazonas (como a perfuração da Petrobras), os cientistas defendem que o monitoramento ambiental seja intensificado. Compreender como essa larva se dispersa é vital para criar estratégias de controle antes que a invasão se torne irreversível e comprometa a economia pesqueira do Amapá, Pará e Maranhão.
Fonte Revista Cenarium


