A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece em Campo Grande (MS), registrou um avanço fundamental para a preservação da fauna sul-americana. Em uma plenária marcada pelo protagonismo brasileiro, foi aprovada a inclusão da ariranha no Anexo I da Convenção (CMS) — o nível mais alto de proteção global — além da criação de um plano de ação inédito para os grandes bagres migratórios da Amazônia. As medidas buscam frear a extinção e garantir que os “corredores azuis” do continente permaneçam conectados.

Ariranha: Proteção global contra a extinção
A ariranha (Pteronura brasiliensis), maior lontra do mundo e símbolo do Pantanal e da Amazônia, agora integra o Anexo I da CMS. Isso significa que a espécie é oficialmente reconhecida como ameaçada de extinção em nível global, exigindo que os países membros proíbam sua captura e protejam rigorosamente seus habitats.
Vítima histórica da caça predatória para o mercado de peles — prática que a extinguiu em países como a Argentina —, a ariranha depende de ecossistemas saudáveis para sobreviver. “O alerta amplia a proteção internacional e reforça que precisamos agir juntos para garantir a sobrevivência da ariranha, vital para o equilíbrio dos nossos rios”, comemorou a ministra Marina Silva.
Os “nômades” dos rios: O plano para os grandes bagres
Liderado pelo Brasil com o apoio da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), o novo Plano de Ação foca em espécies como a dourada e a piramutaba. Esses bagres realizam as maiores migrações de água doce do mundo, viajando milhares de quilômetros desde o estuário do Amazonas até as cabeceiras nos Andes para se reproduzir.
Os pilares da nova estratégia incluem:
- Conectividade fluvial: Garantir que os rios permaneçam livres de barreiras (como grandes barragens) que impeçam o ciclo de vida dessas espécies.
- Segurança alimentar: Proteger os estoques pesqueiros dos quais dependem milhares de comunidades ribeirinhas e indígenas.
- Ciência e monitoramento: Integração de dados entre Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela para mapear rotas migratórias.
Espécies sentinelas e o “gap” de informação
Segundo Mariana Frias, analista do WWF-Brasil, bagres e golfinhos de rio são “espécies sentinelas”: se eles estão em declínio, todo o sistema hídrico está em perigo. Ela alerta para dois grandes inimigos da biodiversidade aquática: o impacto das hidrelétricas e o chamado “gap informacional” — a falta de dados precisos que agora o Atlas lançado na COP15 pretende sanar.
A aprovação desses acordos em Campo Grande coloca o Brasil na liderança de uma diplomacia ambiental que não olha apenas para as árvores, mas para as “veias” do continente: os seus rios.
Fonte: Agência Brasil


