Cientistas acabam de resgatar na Antártida o que pode ser considerado o “Santo Graal” da paleoclimatologia: um bloco de gelo com 6 milhões de anos. A descoberta, realizada na região de Allan Hills, na Antártida Oriental, esmaga o recorde anterior de 2,7 milhões de anos e oferece uma janela direta para uma Terra que não existe mais.
O estudo, publicado na revista PNAS, revela que este gelo não contém apenas água congelada, mas bolhas de ar aprisionadas que conservam a atmosfera exata do período Mioceno.

Como era a Terra há 6 milhões de anos?
Ao analisar essas amostras, os pesquisadores estão “viajando” para uma época em que o planeta era drasticamente diferente:
- Clima e Mares: A Terra era muito mais quente e o nível do mar significativamente mais alto que o atual.
- Fauna Exótica: O planeta era habitado por gigantes agora extintos, como tigres-dentes-de-sabre, rinocerontes do Ártico e os primeiríssimos mamutes.
- Resfriamento: A análise dos isótopos de oxigênio mostrou que a região de Allan Hills resfriou cerca de 12°C de forma constante ao longo desses 6 milhões de anos.
A ciência da datação: O isótopo de argônio
Diferente de camadas mais jovens, onde se conta os anos como anéis de árvores, o gelo de Allan Hills exigiu tecnologia de ponta. Os cientistas mediram o decaimento radioativo de isótopos de argônio presentes nas bolsas de ar para confirmar a idade impressionante de 6 milhões de anos.
Por que o gelo não derreteu ou se moveu?
Allan Hills é um lugar geologicamente único. Enquanto a maior parte do gelo da Antártida flui em direção ao mar, as montanhas acidentadas desta região “travam” o gelo no lugar. Além disso, ventos catabáticos fortíssimos varrem a neve fresca, expondo o que os cientistas chamam de “gelo azul” — camadas antigas que ficam quase na superfície, facilitando a perfuração.
Por que isso importa hoje?
Entender como os níveis de gases de efeito estufa e as temperaturas oceânicas se comportaram naturalmente no passado é a chave para prever o impacto da atual crise climática causada pelo homem. Este gelo é o registro mais antigo que temos para entender como o “termostato” da Terra funciona em escalas de tempo de milhões de anos.


