Para os surfistas e nadadores do Havaí, o mês de outubro carrega uma fama mística e perigosa apelidada de “Sharktober”. Agora, um estudo abrangente de 30 anos, publicado na revista Frontiers in Marine Science, confirma que o fenômeno é real: as mordidas de tubarão na região são de duas a quatro vezes mais frequentes neste mês do que em qualquer outra época do ano.
A causa, segundo o biólogo marinho Carl Meyer, não é o aumento de turistas na água, mas sim um evento biológico previsível: a reprodução dos tubarões-tigre.
A migração das mães famintas
Os tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier), que podem atingir mais de 4 metros e pesar quase 400 quilos, são os grandes protagonistas deste aumento estatístico. De acordo com a pesquisa:
- O Ciclo: Fêmeas adultas migram das ilhas do Noroeste do Pacífico para as águas costeiras das ilhas principais do Havaí especificamente para dar à luz em outubro.
- Fome Pós-Parto: Após uma gestação exaustiva de até 16 meses e o nascimento de cerca de 30 filhotes, as fêmeas precisam recuperar suas reservas de energia rapidamente. Isso as torna caçadoras muito mais ativas e presentes em áreas rasas, onde humanos costumam praticar esportes.
Mães protetoras? nem tanto.
Diferente de muitos mamíferos, o risco não vem do instinto de proteção materna. Assim que nascem, os filhotes de tubarão-tigre são totalmente independentes e costumam fugir para águas ainda mais rasas para evitar serem devorados por outros tubarões — inclusive pelas próprias mães. O perigo real para os humanos é a sobreposição de habitat: mais tubarões grandes buscando alimento no mesmo lugar onde as pessoas se divertem.

Tendência global em alta
O estudo também aponta que o fenômeno da sazonalidade não é exclusivo do Havaí. Na Austrália, por exemplo, ataques de tubarões-touro aumentam durante o verão no hemisfério sul, coincidindo com seu período reprodutivo e chuvas que deixam a água mais turva, condições ideais para a caça.
Estatísticas do Museu da Flórida reforçam que o número de incidentes globais subiu de 157 na década de 70 para mais de 800 entre 2010 e 2019.
Como se proteger (sem pânico)
Embora os números assustem, o risco geral continua sendo extremamente baixo. “A principal implicação é a conscientização, não o alarme”, afirma Meyer. As recomendações para outubro incluem:
- Evitar atividades solitárias: Não surfe ou nade sozinho em áreas isoladas.
- Atenção à transparência da água: Evite entrar no mar após chuvas fortes ou em águas turvas.
- Horários críticos: Evite o amanhecer e o entardecer, quando os tubarões são mais ativos.


