O extremo norte do Alasca entrou em um regime de fogo sem precedentes históricos. Uma pesquisa publicada na revista Biogeosciences demonstra que os incêndios florestais na tundra ártica foram mais intensos no último século do que em qualquer outro momento nos últimos 3.000 anos.
A descoberta é fruto de uma colaboração entre cientistas da Alemanha, Reino Unido, Polônia, Romênia e da Universidade do Alasca Fairbanks.
A “caixa-preta” da turfa
Para reconstruir essa trajetória, a equipe extraiu núcleos de turfa — uma camada de solo orgânico que acumula vestígios ao longo de milênios — em nove locais ao norte da Cordilheira Brooks. Através da datação por radiocarbono e análise de microfragmentos de carvão e pólen, os cientistas mapearam a história da região desde 1.000 a.C..
- 1000 a.C. a 1900 d.C.: Incêndios eram eventos raros e esporádicos.
- A partir de 1900: A atividade começou a subir de forma constante.
- Pós-1950: O fogo atingiu níveis recordes, superando qualquer pico dos últimos três milênios.
O ciclo vicioso do aquecimento
De acordo com Angelica Feurdean, pesquisadora da Universidade Goethe e autora principal, o aumento das chamas é impulsionado por dois fatores diretamente ligados ao aquecimento global:
- Ressecamento do solo: A turfa, que antes era úmida, está perdendo água e tornando-se altamente inflamável.
- Expansão da vegetação lenhosa: O calor permite que arbustos cresçam onde antes só havia musgos, servindo como combustível extra para o fogo.
Incêndios mais “vorazes”
Randy Fulweber, especialista da Estação de Campo Toolik (UAF), aponta que as evidências sugerem uma mudança no regime de fogo. “Os incêndios atuais estão queimando com tanta intensidade que consomem o combustível quase completamente, deixando até menos carvão residual do que o esperado, o que indica incêndios muito mais severos”, explica.
Essa transformação sinaliza que o Ártico deixou de ser um sistema resiliente ao fogo para se tornar uma região em rápida metamorfose, com implicações diretas na liberação de carbono armazenado no solo para a atmosfera.


