A ancestral tradição da cerâmica do povo Waurá, transmitida por mais de mil anos e que se conecta à lenda de uma grande cobra-canoa chamada Kamalu-hái, está em risco. O problema não é o esquecimento, mas as mudanças climáticas, que afetam diretamente a disponibilidade das matérias-primas essenciais. Yakuwipu Waurá, liderança indígena e ceramista que vive no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, afirma que as secas prolongadas e as cheias curtas têm reduzido drasticamente a oferta do cauxi, uma esponja de água doce que dá liga ao barro e impede que as peças rachem.
A produção artesanal da cerâmica Waurá, que utiliza barro coletado no leito do rio, madeira específica e pigmentos naturais para a pintura dos grafismos, é um pilar da identidade e da autonomia econômica das mulheres da aldeia. A escassez do cauxi tem dificultado a produção e encarecido o trabalho, afetando a renda e a transmissão cultural para as novas gerações.
Alerta sobre os impactos das mudanças climáticas
Em São Paulo, Yakuwipu Waurá aproveitou uma série de eventos para alertar sobre a crise climática e seus efeitos sobre seu povo. A líder indígena destacou que nunca imaginaram que as mudanças climáticas afetariam a produção de suas cerâmicas, que são vistas como “pedaços de nossas histórias”. Ela ressalta que o povo Waurá vive da natureza, mas está pagando o preço pelo “mal que os outros fazem à natureza”.
A crise também se reflete na agricultura. Yakuwipu relatou que, em 2023, a colheita de mandioca e milho foi severamente comprometida pelas condições climáticas.
A importância das vozes indígenas na COP30
Diante desse cenário, a ceramista reforça a urgência dos debates na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorrerá em Belém. Ela defende que as autoridades ouçam as vozes indígenas e que os fazendeiros parem de desmatar. A analista de pesquisa social do Instituto Socioambiental, Karina Araújo, concorda e destaca que a consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas é crucial para mitigar os impactos ambientais de projetos de infraestrutura. Ela também ressalta a importância da participação indígena na COP30 como uma oportunidade para que governos brasileiros e internacionais escutem seus apelos.
Fonte: Agência Brasil


