Círio de Nazaré servirá como teste para infraestrutura de Belém, mas não simula realidades críticas da conferência climática COP30
Com a aproximação da COP30 em Belém, marcada para novembro de 2025, o governo do Pará pretende usar o Círio de Nazaré, celebrado em 12 de outubro, como teste para a infraestrutura da capital. O evento religioso deve reunir cerca de 2 milhões de pessoas, e pode ajudar a avaliar a capacidade da cidade em receber grandes públicos — ainda que seu perfil seja muito diferente da conferência climática da ONU.
Segundo o secretário estadual de infraestrutura, Adler Silveira, mais de 40 obras estão em andamento em Belém, com investimentos que ultrapassam R$ 4,5 bilhões. Entre elas, melhorias em saneamento, revitalização de 13 canais e construção de quatro novos viadutos. A sinalização turística e os acessos aos pavilhões da COP também ganharão versão em inglês.
O Parque da Cidade, espaço que abrigará a Blue Zone (negociações) e a Green Zone (atividades da sociedade civil), está com 97% das obras civis finalizadas. O local será o centro das atividades oficiais da COP30 e terá mais de 500 mil m² de área adaptada.
Hospedagem continua sendo o maior desafio
Apesar do progresso nas obras, o alto custo e a escassez de hospedagem continuam sendo pontos críticos. O governo estadual afirma que a Vila COP30, com 405 quartos para delegações e líderes, está 67% concluída. Além disso, seis escolas públicas foram reformadas para funcionar como hostels temporários.
Outras soluções alternativas estão em estudo, como o uso dos PREVBarcos da Previdência Social como embarcações de hospedagem para servidores do governo federal. No entanto, cada barco comporta apenas 34 pessoas, e não resolve o problema da demanda total.
Círio não replica a realidade da COP30
Embora o Círio de Nazaré reúna milhões de fiéis, o evento tem características muito distintas da COP30. Ele acontece em apenas um dia, enquanto a conferência climática dura duas semanas, exigindo uma logística muito mais complexa.
Outro ponto de atenção é o perfil do público. Enquanto fiéis passam poucas horas na cidade, os participantes da COP — como negociadores, cientistas, jornalistas e ativistas — permanecem por longos períodos, sob pressão e com necessidades específicas de trabalho, conforto e conectividade.
Jornalistas também enfrentam dificuldades
A imprensa também sente os impactos. O Knight Center para o Jornalismo nas Américas alertou que a cobertura da COP em Belém pode ser prejudicada pela falta de hospedagem e apoio financeiro a pequenos veículos. A estrutura limitada pode comprometer a representação da mídia nacional e internacional durante o evento.
Escândalos em meio aos preparativos
Enquanto isso, surgem denúncias envolvendo empresas contratadas nas obras da COP30. A Polícia Federal autuou uma empresa por comprar armamento pesado com recursos públicos e outra por contratar seguranças irregulares para atuar no Parque da Cidade. As ações reforçam os riscos de corrupção e má gestão nos bastidores da organização.
Participação controversa dos EUA
Mesmo fora do Acordo de Paris, representantes do governo dos Estados Unidos participaram da Rio Climate Action Week. Em vídeo, um assessor da Casa Branca criticou o foco global em energias renováveis, defendendo que o combate à poluição deveria ser a prioridade — uma fala que foi vista como desinformação climática e gerou desconforto entre autoridades brasileiras.


