O que levaria cientistas a enfrentar ventos glaciais, noites inteiras sem descanso e mares revoltos apenas para retirar lama do fundo do oceano?
Essa foi a missão de uma equipe internacional de pesquisadores na remota Península Antártica: coletar amostras preciosas que podem guardar segredos sobre a vida marinha e o clima do planeta.
Esses sedimentos funcionam como páginas de um livro da história oceânica, registrando desde a abundância de espécies até o impacto humano — incluindo quase um século de caça industrial às baleias.

Um arquivo natural do oceano
Para alcançar esse tesouro escondido, os cientistas utilizaram uma perfuratriz especial acoplada a um navio de pesquisa, capaz de atingir 500 metros de profundidade. Foram retirados mais de 40 núcleos de sedimentos, em formato de longos tubos, de diferentes pontos do fundo do mar.
Segundo a pesquisadora Elisenda Balleste, da Universidade de Barcelona, cada camada da lama guarda pistas sobre o que já viveu ali e sobre como nossas ações moldaram o ambiente marinho. Congeladas e enviadas a laboratórios de vários países, essas amostras serão analisadas em busca de poluentes, sinais de vida microbiana e até a quantidade de carbono aprisionada no fundo do oceano.

DNA congelado no tempo
Uma das frentes mais promissoras é a análise de DNA ambiental — uma técnica que permite identificar organismos a partir de fragmentos genéticos preservados em água, solo ou ar. Mantidas a –80 °C, as amostras servirão para investigar como a caça às baleias alterou os ecossistemas antárticos e a capacidade dos oceanos de reter carbono.
O cientista Carlos Preckler, da Universidade King Abdullah, explica que baleias armazenam grandes quantidades de carbono em seus corpos. Ao morrerem, parte desse carbono pode ser soterrada no fundo do mar, funcionando como um “sumidouro natural” que ajuda a frear o aquecimento global.
Medindo o DNA e o carbono nos sedimentos, será possível estimar o papel que esses gigantes marinhos desempenharam — e ainda podem desempenhar — na regulação climática.

Uma missão global pelo clima
A iniciativa faz parte do projeto internacional Convex Seascape Survey, que reúne universidades e centros de pesquisa do mundo todo em busca de respostas sobre a conexão entre os oceanos e o clima.
Como lembra a oceanógrafa Claire Allen, do British Antarctic Survey, antes de 1950 não havia tecnologia para monitorar a região. Núcleos de gelo e sedimentos eram — e ainda são — as únicas “janelas” para compreender como o ambiente antártico mudou ao longo dos séculos.
Ao revelar a relação entre vida marinha, carbono e atividade humana, essa lama congelada pode ajudar a compreender não apenas o passado da Antártida, mas também o futuro do planeta.

Fonte: BBC News


