A Encephalartos horridus, uma cicadácea rara e ameaçada de extinção originária da África do Sul, chama a atenção por suas folhas pontiagudas em tom azul-prateado — uma cor que, surpreendentemente, não vem de pigmentos. Pesquisadores da Universidade de Hiroshima (HU) descobriram que essa tonalidade é resultado de um elaborado truque óptico produzido por minúsculos cristais de cera, e não pela presença de corantes naturais.
Apesar de seu visual “pré-histórico”, essa espécie evoluiu muito depois do desaparecimento dos dinossauros. No entanto, carrega heranças bioquímicas de plantas ancestrais que conviveram com a fauna jurássica. O estudo, publicado no Journal of Experimental Botany, revelou que o revestimento de cera epicuticular das folhas forma cristais tubulares microscópicos que refletem luz ultravioleta (UV) e azul, criando o efeito visual característico.
O composto principal dessa cera é o nonacosan-10-ol, um lipídio encontrado em diversas linhagens vegetais, como ginkgos, coníferas, outras cicadáceas e até musgos. Pesquisadores acreditam que a capacidade de produzi-lo surgiu nos primórdios da colonização terrestre pelas plantas. Porém, apenas poucas espécies conseguem organizar esse material em estruturas capazes de gerar cores estruturais — matizes produzidos pela interação física da luz com microestruturas, como ocorre nas asas de borboletas-morfo e nas penas de gaios-azuis.
“A cor azul das folhas de Encephalartos horridus não vem de pigmentos, mas de um truque natural inteligente. Pequenos cristais de cera na superfície criam o que chamamos de coloração estrutural”, explica Takashi Nobusawa, professor assistente e autor correspondente do estudo.
A interação entre cera e clorofila
A equipe descobriu que a cor não é produzida apenas pela cera, mas também pela interação dela com os tecidos verde-escuros ricos em clorofila logo abaixo. Se a camada de cera for removida, o azul desaparece; recolocada sobre uma superfície escura, a tonalidade retorna instantaneamente.
Modelos computacionais mostraram que a camada de cera sobre um fundo escuro intensifica o azul e reduz reflexos indesejados. Já um espaço de ar entre a cera e o tecido vegetal cria um tom acinzentado. Substituir o ar por água restaura a coloração, permitindo maior passagem de luz para as células fotossintéticas.
Função dupla: proteção e sinalização
A tonalidade azulada pode ter funções adaptativas múltiplas. Além de oferecer proteção contra radiação UV intensa — comum em ambientes áridos —, ela pode atuar como um sinal visual para polinizadores, especialmente insetos capazes de enxergar luz ultravioleta e sensíveis a comprimentos de onda azuis.
Um mistério bioquímico
Embora se saiba que E. horridus acumula nonacosan-10-ol, os cientistas ainda não identificaram as vias metabólicas exatas responsáveis por sua produção. Tentativas de replicar o processo em plantas-modelo, como Arabidopsis thaliana, não tiveram sucesso, sugerindo que enzimas e genes desconhecidos estão envolvidos.
Aplicações futuras
Compreender esse mecanismo pode abrir caminho para novas tecnologias inspiradas na natureza, como revestimentos ópticos, superfícies super-hidrofóbicas e materiais que manipulam a luz de maneira eficiente. O próximo passo dos pesquisadores é desvendar o código genético dessa adaptação e entender como ela evoluiu ao longo de milhões de anos.
Fonte: Universidade de Hiroshima


