As criaturas marinhas estão sendo forçadas a lidar com o aumento da atividade humana nos oceanos / Christian Harboe-Hansen
As criaturas marinhas estão sendo forçadas a lidar com o aumento da atividade humana nos oceanos / Christian Harboe-Hansen

Barulho humano invade os oceanos e coloca golfinhos e baleias em risco

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Ruídos produzidos por navios, sonares e exploração submarina ultrapassam os limites naturais dos oceanos, afetando a comunicação, a alimentação e até a reprodução de animais marinhos.

A paisagem sonora dos oceanos, que antes era dominada por sons naturais como o assobio das baleias, o canto de aves marinhas, as ondas e o vento, tem sido drasticamente alterada. A presença crescente de ruídos gerados por atividades humanas, como o tráfego de navios, os sonares navais e as explosões submarinas para exploração de petróleo, está interferindo de forma alarmante na vida dos seres que habitam o fundo do mar.

A poluição sonora submarina afeta diretamente espécies como golfinhos, baleias, peixes e invertebrados, cujas atividades vitais dependem fortemente do som. A audição é o principal sentido desses animais, fundamental para comunicação, navegação, reprodução, caça e fuga de predadores.

Os navios estão entre as principais fontes de poluição sonora dos oceanos / Getty Images

Aumento do ruído oceânico é mensurável

Embora a medição precisa do ruído nos oceanos seja recente, os dados existentes já mostram um cenário preocupante. Um estudo da Universidade de San Diego (EUA) comparou registros entre 1964 e 2004 e identificou um aumento médio de 10 a 12 decibéis, o equivalente a 3 dB por década. Isso representa um crescimento significativo de poluição sonora submarina.

A expansão das rotas marítimas comerciais é apontada como um dos principais responsáveis. De acordo com o International Fund for Animal Welfare (IFAW), existem aproximadamente 250 mil embarcações nos oceanos em qualquer momento. Alguns cargueiros emitem ruídos de até 190 decibéis, muito acima dos 140 dB que, em humanos, já causam dor imediata e danos auditivos permanentes.

Golfinhos gritam para se entender

Estudos recentes mostram que golfinhos aumentam o volume e a duração de seus assobios para superar a interferência sonora humana — um comportamento semelhante ao de “gritar” para se fazer ouvir. Mesmo assim, sua cooperação em grupo diminui, indicando prejuízos nas suas interações sociais.

A Universidade de Bristol, no Reino Unido, identificou que, sob ruído intenso, os golfinhos têm dificuldades para executar tarefas colaborativas. Esse tipo de perturbação sonora também compromete a capacidade de caça e alimentação, forçando os animais a tomar decisões difíceis.

“As baleias enfrentam o dilema de ‘viver em vez de jantar’. Elas abandonam áreas de alimentação ao ouvirem sons artificiais intensos, como os de sonares navais”, explica o pesquisador Patrick Miller, da Universidade de St Andrews (Escócia).

As baleias beluga se comunicam e navegam por meio de assobios e estalos / Getty Images

Miller e sua equipe observaram que as baleias pararam de se alimentar após ouvir o ruído do sonar / Harboe-Hansen

Baleias confundem barulhos humanos com predadores

Uma das descobertas mais preocupantes vem de estudos com baleias-bicudas, que mostraram comportamentos de fuga diante de sonares militares, como se estivessem diante de predadores. Elas pararam de se alimentar por dias, mudaram de rota e abandonaram áreas essenciais ao seu ciclo de vida.

Em alguns casos, o barulho intenso leva ao encalhe em massa desses animais. Por isso, a Marinha dos EUA foi obrigada, em 2015, a restringir o uso de determinados sonares nas costas do Havaí e da Califórnia, após ser responsabilizada por mortes de cetáceos.

“Um sonar ativo de baixa frequência pode impactar uma área de 3,9 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente à soma dos territórios da Índia e do Paquistão”, alerta a bióloga Lindy Weilgart, consultora da ONG Oceancare.

Ao colocar tags de monitoramento nas costas das baleias, os cientistas conseguiram estabelecer a correlação entre os sons de sonar e a redução do tempo de alimentação / Eilidh Siegal

Exploração submarina e seus efeitos colaterais

Os canhões de ar comprimido, usados para localizar petróleo e gás no leito marinho, são ainda mais agressivos: produzem sons de até 260 decibéis — os mais altos registrados debaixo d’água — e cujos efeitos podem percorrer até 4 mil quilômetros.

Estudos mostram que a simples presença desses equipamentos afasta baleias-comuns de seus habitats. Um caso registrado no Canadá e na Groenlândia, em 2008, relacionou diretamente pesquisas sísmicas à morte em massa de narvais presos no gelo.

Além disso, peixes jovens têm sua capacidade de encontrar lar prejudicada por sons de baixa frequência contínuos. E os níveis de estresse nas baleias aumentam, comprometendo sua imunidade e fertilidade.

Os canhões de ar comprimido usados para localizar petróleo sob o leito marinho pode produzir sons de até 260 decibéis / Getty Images

Gigantes sensíveis ao som

Apesar do tamanho imponente, baleias e golfinhos são animais extremamente sensíveis. Weilgart, que passou um ano navegando 50 mil quilômetros no Pacífico em um veleiro para estudar cachalotes, relata:

“Mesmo um pequeno som os assusta. Tínhamos que deslizar silenciosamente para a água, sem pé de pato, sem saltos. Qualquer barulho os afastava.”

Esse comportamento ilustra o grau de dependência que esses animais têm da tranquilidade acústica do oceano — hoje cada vez mais rara.

O sonar usado pela Marinha para detectar submarinos foi responsabilizado por encalhes de baleias / Getty Images

Existe regulamentação?

Atualmente, não há uma regulamentação internacional unificada para limitar a poluição sonora submarina. Algumas iniciativas nacionais e regionais tentam mitigar os danos, mas o desafio é global.

A World Wildlife Fund (WWF) defende que reduções simples na velocidade dos navios, como 10%, já diminuiriam em 40% o ruído emitido, além de cortar emissões e evitar colisões com animais marinhos.

A crescente presença de barulho humano nos oceanos é mais do que um incômodo: representa uma ameaça direta à sobrevivência de inúmeras espécies marinhas. Os sons produzidos por atividades humanas perturbam profundamente os ecossistemas subaquáticos, interferindo na comunicação, alimentação e reprodução de animais sensíveis como golfinhos e baleias.

A urgência é clara: sem medidas concretas para reduzir a poluição sonora nos mares, podemos estar silenciando não só a beleza dos oceanos, mas também sua vida.

Fonte: BBC News

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