Pesquisadores revelam sinais compartilhados entre golfinhos que podem ter funções específicas e contextuais, semelhantes à linguagem humana
Golfinhos-nariz-de-garrafa sempre fascinaram cientistas por sua inteligência notável, empatia, comportamento social complexo e habilidades de comunicação. Agora, um novo estudo conduzido por pesquisadores da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) traz a primeira evidência de que golfinhos selvagens podem usar sons com funções específicas — uma forma rudimentar de comunicação semelhante à linguagem.
A pesquisa foca nos chamados assobios sem assinatura (NSWs) — sons distintos dos famosos “assobios de assinatura”, que funcionam como nomes próprios dos golfinhos. Embora os assobios de assinatura sejam bem documentados, os NSWs vinham sendo pouco estudados até agora.
Sons com possíveis significados compartilhados
A equipe do WHOI, em parceria com o Programa de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota (SDRP) e outras instituições, usou etiquetas acústicas digitais e hidrofones para gravar os sons produzidos por golfinhos conhecidos, permitindo identificar padrões de vocalização entre mais de 170 indivíduos.
Eles descobriram 22 tipos distintos de assobios sem assinatura, dos quais dois — NSWA e NSWB — são compartilhados por ao menos 25 e 35 golfinhos diferentes, respectivamente.
“Nosso trabalho mostra que esses assobios podem funcionar como palavras, com significados específicos compreendidos por diferentes indivíduos”, explicou a bióloga Laela Sayigh, autora principal do estudo.
Segundo os pesquisadores, o NSWA provoca comportamento de evasão, sugerindo que pode ter função de alarme, enquanto o NSWB parece ser usado em situações inesperadas, podendo ter uma função semelhante à de uma consulta ou questionamento.
Comunicação referencial?
A pesquisa, publicada no servidor de pré-impressão bioRxiv, destaca que esses sons são aprendidos e compartilhados por diferentes indivíduos — um traço incomum entre mamíferos não humanos, mas que reforça a ideia de comunicação referencial, ou seja, com significado específico.
“Essa capacidade de compartilhar sons contextuais pode ser a base para um sistema de comunicação mais complexo, com paralelos à linguagem humana”, afirmam os autores.
Embora ainda seja uma hipótese, a equipe está testando como os golfinhos reagem a esses sons em diferentes situações para entender como os NSWs são usados na prática. Até o momento, os resultados indicam funções distintas dependendo do contexto, sugerindo que esses sons desempenham papéis sociais e comunicativos claros.
Reconhecimento e novas perspectivas
O trabalho rendeu à equipe o prêmio do Desafio Coller Dolittle, que incentiva pesquisas sobre comunicação animal. Jeremy Coller, idealizador do desafio, destacou a importância do estudo:
“Os humanos compartilham o planeta com milhões de espécies, mas por muito tempo só conversamos entre nós. Essa pesquisa abre portas para entender a linguagem de outras espécies.”
A descoberta representa um avanço promissor na bioacústica e etologia animal, contribuindo para a compreensão de como animais inteligentes podem desenvolver formas de comunicação estruturada — talvez até mais próximas da linguagem do que se imaginava.


