Agentes amaciantes adicionados a xampus, condicionadores e muitos produtos de higiene pessoal podem prejudicar a vida aquática, revela nova pesquisa. AleksandarGeorgiev / E+ / Getty Images
Agentes amaciantes adicionados a xampus, condicionadores e muitos produtos de higiene pessoal podem prejudicar a vida aquática, revela nova pesquisa. AleksandarGeorgiev / E+ / Getty Images

Ingredientes de shampoos e cosméticos ameaçam ecossistemas aquáticos, alerta estudo científico

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Produtos de uso cotidiano como shampoos, condicionador e protetores solares são considerados essenciais na rotina de autocuidado, mas uma nova pesquisa científica acende um alerta ambiental: seus ingredientes podem prejudicar seriamente a vida aquática.

A descoberta, conduzida por pesquisadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, revela que substâncias presentes em produtos de cuidados pessoais – especialmente agentes amaciantes usados para dar brilho e reduzir o frizz dos cabelos – afetam fisicamente microcrustáceos aquáticos, como as dáfnias, e podem até levar à morte desses organismos.

Impactos invisíveis, mas profundos

Liderado pelo pesquisador sênior Hans Sanderson, o estudo investigou os efeitos de compostos chamados poliquatérnios, uma classe de polímeros catiônicos amplamente utilizados em cosméticos. Ao contrário do que se acreditava até então, essas moléculas não precisam entrar nas células para causar dano — elas se aderem ao corpo dos animais aquáticos, comprometendo sua locomoção, alimentação e sobrevivência.

“Essas substâncias não penetram nas células, mas se fixam à superfície dos animais. Isso os torna incapazes de se mover e de se alimentar, o que pode levá-los à morte”, explicou Sanderson, em nota oficial.

A pesquisa, pioneira em seu tipo, testou o impacto dessas substâncias em duas espécies de dáfnias, pequenos crustáceos de água doce que têm papel essencial no ecossistema aquático, atuando como filtros naturais de lagos, rios e córregos, além de servirem de alimento para peixes.

Resultados preocupantes

Em um dos testes, os poliquatérnios aderiram de forma tão intensa à carapaça das dáfnias que os animais ficaram quase imóveis, o que comprometeu drasticamente sua capacidade de sobrevivência. A segunda espécie estudada apresentou impacto um pouco menor, mas ainda significativo do ponto de vista ecológico.

“Os resultados sugerem um forte efeito negativo, mesmo em baixas concentrações. É algo que merece atenção regulatória urgente”, alertou o cientista.

Produtos ecológicos também contêm as substâncias

Outro ponto que causou surpresa foi a presença desses compostos até mesmo em cosméticos que ostentam selos ecológicos, como o Nordic Swan, bastante respeitado na Europa. Isso indica uma lacuna nos critérios de certificação ambiental e reforça a necessidade de atualização nas regulamentações.

“Mesmo os produtos neutros e rotulados como ecológicos contêm essas substâncias. As indústrias precisarão buscar alternativas mais seguras no futuro”, afirmou Sanderson.

Questões regulatórias e responsabilidade compartilhada

Na União Europeia, a preocupação com esse tipo de composto químico está em crescimento, e novas regulamentações estão sendo discutidas. Até recentemente, substâncias de grande porte molecular eram consideradas inofensivas por não penetrarem nas células, mas o estudo mostra que a adesão física aos corpos dos organismos também pode ser letal.

Além dos cosméticos, esses agentes amaciantes também são usados em estações de tratamento de águas residuais, para ligar-se a outras substâncias e facilitar a purificação da água.

“Agora precisamos discutir o que representa maior risco ambiental: os agentes que filtram contaminantes ou os próprios contaminantes que eles ajudam a remover?”, questiona Sanderson.

Um alerta para o consumo e a conservação da biodiversidade

O estudo — publicado na revista científica Aquatic Toxicology com o título “Toxicidade aguda e crônica de poliquatérnios catiônicos para Daphnia magna e Ceriodaphnia dubia” — reforça a necessidade urgente de repensar a formulação de produtos de higiene pessoal, bem como de estabelecer testes ambientais mais realistas, que simulem as condições reais de córregos e lagos.

“Desenvolvemos um novo método experimental para analisar essas substâncias em condições próximas da natureza. Isso nos permitirá avaliar o impacto de milhares de compostos ainda não estudados”, conclui Sanderson.

O que você pode fazer?

  • Reveja os rótulos de cosméticos e prefira marcas que adotem transparência química.
  • Evite o descarte direto de produtos no ralo ou no meio ambiente.
  • Apoie a regulamentação de ingredientes nocivos e o desenvolvimento de bioalternativas.

Na Dinamarca, 99 espécies de dáfnias, comumente chamadas de pulgas-d’água, são encontradas principalmente em água doce. Creative Commons / Loja Norske Leksikon

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