Com 35 anos e uma trajetória marcada por décadas em cativeiro, a elefanta africana Pupy finalmente vive seus primeiros dias de liberdade. Imagens aéreas feitas por drone e divulgadas pelo Global Sanctuary for Elephants (GSE) revelam a adaptação da nova moradora do Santuário de Elefantes Brasil, localizado em Chapada dos Guimarães (MT) — o primeiro refúgio do tipo na América Latina.
A cena é comovente: ao invés das grades e concreto, Pupy agora caminha por trilhas naturais, interage com árvores, rola na lama e esmaga melancias com sua tromba — um comportamento impossível nos anos de confinamento.
“É emocionante vê-la se aventurando pelo habitat. No início, só as árvores balançando denunciavam sua presença. Agora, ela caminha com confiança, derrubando galhos como se sempre tivesse pertencido ao lugar”, relata a equipe do GSE.
De cativeiro na Argentina à liberdade em solo brasileiro
A trajetória de Pupy começa em 1993, quando foi retirada do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, ainda jovem, e enviada ao zoológico de Buenos Aires. Durante três décadas, viveu em um ambiente urbano e artificial, sem a companhia de outros elefantes.
O antigo zoológico, alvo de críticas crescentes após a morte de um urso polar durante uma onda de calor em 2012, foi fechado em 2016 e transformado no atual EcoParque Buenos Aires, com foco em conservação e reabilitação de fauna silvestre. Desde então, mais de 1.000 animais foram transferidos para santuários — um processo lento e criterioso.
Pupy permaneceu como uma das últimas residentes por causa da idade avançada e da complexidade logística envolvida no transporte de elefantes. Após anos de preparação comportamental e médica, a transferência finalmente se concretizou.
Uma jornada de 2.700 quilômetros rumo à reabilitação
No dia 18 de abril de 2025, Pupy foi embarcada em uma grande caixa de ferro especialmente adaptada, iniciando uma viagem terrestre de cinco dias e 2.700 km de Buenos Aires até Mato Grosso. Cuidadores e veterinários acompanharam a elefanta em tempo integral durante o trajeto.
“Às vezes, os elefantes não se alimentam nas primeiras 24 horas de deslocamento, mas Pupy reagiu bem desde o início”, disse María José Catanzariti, gerente operacional do EcoParque.
A chegada ao santuário exigiu paciência: a elefanta hesitou por horas antes de sair da caixa. Mas com tempo e cuidados contínuos, começou a explorar o Pátio 1, um dos espaços do habitat dedicado às fêmeas africanas.
Recuperando comportamentos naturais e saúde da pele
Desde que chegou ao Brasil, Pupy vem redescobrindo comportamentos naturais. Segundo o GSE, ela tem passado horas se esfregando em árvores e se banhando em lama, um ritual essencial para o cuidado da pele — após anos acumulando células mortas por falta de estímulo físico.
“Ela é um pouco coceguenta, o que faz sentido. Cada árvore usada como escova natural ajuda sua pele a se renovar”, explicam os cuidadores.
Sua fruta preferida? Melancia esmagada com a tromba. O santuário compartilha vídeos regulares com apoiadores mostrando Pupy em momentos de pura expressão animal — curiosa, tranquila e brincalhona.
Um refúgio em expansão para elefantes resgatados
Atualmente, o Santuário de Elefantes Brasil oferece 13 acres de habitat natural exclusivo para fêmeas africanas, com planos de expansão para mais 80 acres, permitindo maior liberdade de movimentação e interação.
Por ora, Pupy está sozinha, mas a expectativa é que, em breve, receba a companhia de Kenya, outra elefanta africana resgatada de um zoológico em Mendoza, também na Argentina. Assim como Pupy, Kenya está em fase de treinamento para realocação.
O GSE ressalta que a convivência entre elefantes resgatados é gradual e respeita o ritmo de cada animal, priorizando o bem-estar e a construção de vínculos positivos.
Um novo capítulo na vida de Pupy — e na conservação animal
A história de Pupy representa mais do que a jornada de um animal. É um símbolo de mudança cultural: o abandono do cativeiro como entretenimento e o avanço de políticas de bem-estar e reabilitação da fauna silvestre.
O Santuário de Elefantes Brasil se torna, assim, um espaço de cura — onde gigantes da natureza voltam a ser o que são: livres, conscientes e dignos de respeito.


