© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Planejamento da restauração do Rio Doce deve considerar mudanças climáticas, alerta estudo

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Novo estudo propõe olhar climático para restaurar o Rio Doce

As atuais estratégias de restauração ecológica na Bacia do Rio Doce — que abrange os estados de Minas Gerais e Espírito Santo — podem falhar a longo prazo se não forem ajustadas aos impactos das mudanças climáticas. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pelo Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (LECE) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicado na revista internacional Ambio.

Utilizando projeções climáticas para o ano de 2070, o trabalho analisou como a vegetação nativa nas margens dos rios pode influenciar a qualidade da água sob diferentes cenários futuros. O objetivo foi indicar quais áreas devem ser priorizadas para restauração e como garantir a segurança hídrica de mais de 2,2 milhões de pessoas que dependem da bacia.

O que diz o estudo?

O estudo foi desenvolvido no mestrado do biólogo Luiz Conrado Silva, orientado pela professora Aliny Pires, e utilizou a ferramenta InVEST (Integrated Valuation of Ecosystem Services and Tradeoffs), desenvolvida pela Universidade de Stanford, para modelar os cenários de restauração. A análise revelou que:

  • Mudanças climáticas podem aumentar significativamente a erosão em sub-bacias como Santo Antônio, Piracicaba e Piranga.
  • A exportação de sedimentos pode crescer em até 500 mil toneladas por ano, comprometendo a qualidade da água.
  • Somente restaurar as Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas pela Lei da Vegetação Nativa (2012) pode não ser suficiente.
  • É necessário ampliar a restauração para além das margens dos rios, especialmente nas áreas mais elevadas da bacia.

Contexto: os impactos dos desastres ambientais

O estudo ganha ainda mais relevância ao se aproximar dos 10 anos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015. O desastre liberou 40 milhões de m³ de rejeitos de minério, provocando uma das maiores tragédias socioambientais do país. Quatro anos depois, em 2019, a barragem em Brumadinho rompeu, agravando ainda mais a degradação da bacia.

Segundo os autores, recuperar a vegetação é fundamental para reverter os danos e restaurar funções ecológicas essenciais, como a filtragem natural da água e a retenção de sedimentos.

Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco Antonio Cruz/ Agência Brasil

Restauração inteligente: onde e como agir

A pesquisa propõe uma abordagem mais estratégica: restaurar áreas degradadas da porção alta do Rio Doce e conservar regiões já bem preservadas, que costumam ser esquecidas nos projetos atuais.

“Precisamos olhar para as áreas que ainda estão conservadas, pois elas são cruciais para a manutenção da qualidade da água”, destaca a professora Aliny Pires.

Entre as recomendações do estudo estão:

  • Plantio de espécies nativas;
  • Criação de corredores ecológicos;
  • Recuperação de áreas queimadas;
  • Fortalecimento de unidades de conservação na parte alta da bacia.

Impactos esperados com planejamento climático

O modelo mostra que áreas restauradas estrategicamente podem reduzir em até 90% a exportação de sedimentos, melhorando a qualidade da água e aumentando a resiliência dos ecossistemas.

Entretanto, os cenários climáticos projetados alteram as prioridades em cinco das oito sub-bacias analisadas, reforçando a importância de planejar com base no clima futuro, e não apenas nas condições atuais.

Foz do rio Doce, distrito de Regência – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um protocolo replicável para outras regiões

Mais do que apontar fragilidades, o estudo propõe um protocolo replicável para outras regiões do Brasil. A ideia é que qualquer plano de restauração inclua os serviços ecossistêmicos chave — como água, clima e biodiversidade — e considere diferentes cenários climáticos.

“Essa pesquisa não é uma crítica ao que está sendo feito, mas sim uma forma de propor alternativas mais eficazes, que garantam resultados duradouros”, explica Aliny.

Mobilização e próximos passos

Agora, os pesquisadores querem que os resultados do estudo cheguem aos tomadores de decisão, como órgãos ambientais, mineradoras envolvidas nas ações reparatórias, ICMBio e governos estaduais.

“A missão é mobilizar todos os atores envolvidos. Essa é uma oportunidade de transformar a restauração do Rio Doce em uma referência nacional em resiliência ambiental”, finaliza a professora.

Fonte: Agência Brasil

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