Um novo relatório internacional acende o alerta para o futuro financeiro da Petrobras e do setor de petróleo no Brasil. Segundo o estudo conduzido por três organizações — Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), World Benchmarking Alliance (WBA) e WWF-Brasil — até 85% dos projetos da estatal brasileira se tornariam economicamente inviáveis caso o mundo cumpra o compromisso do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
A análise revela que 56% da nova produção de petróleo prevista para o Brasil até 2030 poderá dar prejuízo sob esse cenário climático. A estimativa é de perdas de até US$ 35 bilhões, quase cinco vezes o lucro líquido registrado pela Petrobras em 2024, que foi de US$ 7,5 bilhões.
Expansão incompatível com as metas climáticas
O relatório destaca uma contradição fundamental: os planos de expansão da produção de petróleo e gás do Brasil, especialmente pela Petrobras, só se justificariam economicamente em um cenário de aquecimento global descontrolado, acima dos 2,4°C — o que comprometeria profundamente a estabilidade climática global.
“A nova produção só pode valer a pena em um mundo perigosamente superaquecido. Por outro lado, uma ação climática eficaz tornará obsoletos alguns ativos de combustíveis fósseis”, destaca o documento, divulgado por veículos como Exame, UOL e RFi.
Os autores do estudo criticam os modelos econômicos usados por empresas do setor, que frequentemente se baseiam em premissas otimistas para justificar investimentos em combustíveis fósseis e, assim, enfraquecer a ambição climática global.
Petrobras na contramão do futuro energético
Atualmente, o Brasil é o maior produtor de petróleo da América Latina, e planeja elevar a produção para 5,3 milhões de barris por dia (bpd) até 2030. A partir daí, o país deve entrar em curva descendente, chegando a 4,4 milhões de bpd em 2034, segundo projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Apesar da tendência de queda global na demanda, a Petrobras e setores do governo seguem defendendo a exploração de novas áreas, como a foz do Amazonas e outras bacias da Margem Equatorial. Isso, mesmo com previsões da Agência Internacional de Energia (IEA) indicando redução no consumo global de petróleo a partir de 2030.
“Para conter o aquecimento global, governos e empresas deverão cortar o consumo de petróleo, gás e seus derivados”, afirma Ricardo Fujii, especialista em conservação do WWF-Brasil.
Risco financeiro e climático
Com o avanço da transição energética e a diminuição da demanda por combustíveis fósseis, o preço do petróleo tende a cair. Isso afeta diretamente a rentabilidade de projetos mais caros e tecnicamente complexos, como os da Margem Equatorial.
“Isso pode fazer com que a produção seja menos rentável e até gerar prejuízos às petroleiras”, acrescenta Fujii.
Dessa forma, os riscos para o Brasil vão além do ambiental. A insistência em expandir a produção de petróleo em um cenário de transição energética pode gerar grandes prejuízos para os cofres públicos, já que a Petrobras é controlada majoritariamente pela União e repassa dividendos ao Tesouro.
Oportunidade para uma nova estratégia
O relatório propõe que o Brasil reavalie sua política energética e direcione investimentos para setores alinhados à transição climática, como:
- Energias renováveis (solar, eólica e biomassa)
- Eficiência energética
- Inovação e infraestrutura verde
- Desenvolvimento de combustíveis sustentáveis
“Os planos atuais de expansão do petróleo no Brasil estão em desacordo com o futuro necessário para evitar a catástrofe climática. Persistir nesse caminho é arriscar perder dinheiro e agravar ainda mais os impactos da crise climática”, concluem os autores do estudo.


