Durante a 3ª Conferência dos Oceanos da ONU, realizada em junho de 2025, em Nice, na França, a Polinésia Francesa deu um passo histórico ao anunciar a criação da maior área marinha protegida (AMP) do mundo. O anúncio foi feito pelo presidente do território ultramarino francês, Moetai Brotherson, e posiciona a região como um novo líder global na conservação dos oceanos.
A nova AMP abrangerá 4,8 milhões de quilômetros quadrados, cobrindo toda a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) da Polinésia Francesa. Com essa iniciativa, o país ultrapassa o recorde anterior do Monumento Nacional Marinho Papahānaumokuākea, nos Estados Unidos, que possui cerca de 1,5 milhão de km².
O que será protegido?
Dentro da extensa área anunciada, 900 mil km² serão classificados como áreas de proteção rigorosa, seguindo os padrões das categorias I e II da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Nessas zonas, serão permitidas apenas práticas sustentáveis, como:
- Pesca tradicional local
- Pesquisas científicas controladas
- Ecoturismo monitorado
Além disso, outros 200 mil km² de áreas costeiras também terão proteções intensificadas, formando uma rede sólida de conservação de habitats marinhos.
Medidas restritivas
O plano da Polinésia Francesa inclui proibições claras para garantir a integridade dos ecossistemas marinhos. Estão vetadas:
- Exploração mineral em águas profundas
- Pesca de arrasto
- Pesca de cerco — método industrial que utiliza redes gigantescas para capturar cardumes inteiros
“Estas águas estão repletas de vida — tubarões, baleias, tartarugas marinhas e recifes de coral entre os mais saudáveis do planeta”, afirmou M. Sanjayan, CEO da Conservation International. “Proteger esse oceano é preservar os meios de subsistência, a cultura e a biodiversidade de um povo inteiro.”
Uma tradição que encontra os padrões globais
Durante o anúncio, o presidente Moetai Brotherson ressaltou que o novo plano de conservação está alinhado às práticas ancestrais de gestão oceânica do povo polinésio:
“Há séculos gerimos esta ZEE com sabedoria, usando técnicas transmitidas por nossos antepassados. Mas agora damos um passo ousado para alinhar nossa gestão aos padrões internacionais da UICN.”
Além disso, Brotherson se comprometeu a adicionar mais 500 mil km² de áreas altamente protegidas até 8 de junho de 2026, data em que se comemora o Dia Mundial dos Oceanos.
Liderança global em conservação marinha
A decisão da Polinésia Francesa chega em um momento crucial. De acordo com a Global Plastic Action Partnership, apenas 8,3% dos oceanos do mundo estavam formalmente protegidos até maio de 2025. Para cumprir a meta global de proteger 30% dos mares até 2030, outros países precisarão seguir o exemplo polinésio.
A presidente da UICN, Razan Al Mubarak, celebrou a iniciativa:
“Este é o tipo de ambição que o mundo precisa. Aplaudimos a Polinésia Francesa por sua visão. Esperamos que esse gesto estabeleça uma nova tendência global no estabelecimento de áreas marinhas protegidas de larga escala e com alto nível de preservação.”
Impacto ambiental e cultural
A criação dessa gigantesca AMP não só impulsiona a conservação da biodiversidade, como também fortalece a identidade cultural do povo polinésio, para quem o oceano é muito mais que um recurso natural — é uma extensão de sua própria história.
A AMP protege habitats de espécies endêmicas e ameaçadas, promove resiliência frente às mudanças climáticas e impede a degradação dos ecossistemas pelos métodos de pesca predatória.
Além disso, o modelo de gestão proposto pela Polinésia Francesa valoriza o conhecimento tradicional aliado à ciência, uma abordagem cada vez mais defendida por especialistas e ambientalistas como forma de construir soluções realmente sustentáveis.
Um novo paradigma para os oceanos
Com a criação da maior área marinha protegida do mundo, a Polinésia Francesa inaugura um novo paradigma na luta pela preservação dos oceanos. A decisão mostra que é possível conciliar tradição, ciência e governança internacional para proteger os mares, seus recursos e os modos de vida que deles dependem.
Este anúncio coloca o país na vanguarda das discussões ambientais globais e pressiona outras nações a agir com a mesma ambição, especialmente diante da urgência imposta pela crise climática e pelo colapso da biodiversidade marinha.


