O governo do presidente Donald Trump demitiu toda a equipe de produção de conteúdo do Climate.gov, site oficial da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) voltado à divulgação de dados científicos e educação sobre mudanças climáticas. A decisão, tomada em 31 de maio, levanta preocupações sobre a desinformação climática e o apagão de dados públicos relacionados à crise ambiental.
Segundo reportagem do The Guardian, cerca de 10 profissionais contratados foram desligados de forma simultânea, em uma aparente tentativa de desmantelar o projeto. “Toda a equipe de conteúdo do Climate.gov, incluindo eu, foi demitida”, afirmou um ex-funcionário sob anonimato, temendo retaliações.
O site é considerado um dos mais acessados do mundo sobre ciência climática, recebendo centenas de milhares de visitas mensais. Seus conteúdos incluem análises de dados, previsões climáticas, estudos sobre adaptação, mitigação e impactos em setores como agricultura, saúde, economia e segurança alimentar.
Ações vistas como “apagão climático deliberado”
Rebecca Lindsey, ex-gerente de programa do Climate.gov e também afastada em fevereiro durante uma reestruturação promovida pela atual administração, classificou a medida como “um ataque deliberado e direcionado”. Ela reforça que o conteúdo produzido era apartidário e cientificamente preciso. “Operávamos exatamente como se espera de um grupo independente de comunicação científica”, declarou.
A iniciativa marca mais um episódio de conflito entre a gestão Trump e a comunidade científica, que já havia enfrentado censura, manipulação de relatórios e exclusão de termos como “mudanças climáticas” em agências federais durante seu mandato anterior.
Para o cientista Robert Rohde, da Berkeley Earth, as demissões representam o início de um possível “apagão informativo”. Em postagem nas redes sociais, ele lamentou: “Espera-se que o Climate.gov pare de publicar novos conteúdos após o fim da equipe. Não está claro se o site será arquivado, removido ou usado para propaganda pró-Trump.”
Dois técnicos permanecem, mas não há plano editorial
De acordo com o ex-porta-voz da NOAA, Tom Di Liberto, dois desenvolvedores web foram poupados, o que, segundo ele, reforça o caráter seletivo da demissão. “Eles demitiram apenas a equipe de conteúdo. Isso é um sinal claro de direcionamento político.”
Atualmente, o que resta do portal são conteúdos previamente agendados. “Depois disso, não temos ideia do que acontecerá com o site”, disse outro ex-funcionário.
Os profissionais temem que o Climate.gov possa ser reformulado com viés ideológico ou até ser retirado do ar. “Seria devastador vê-lo transformado em um veículo de propaganda para esta administração”, desabafou um dos membros da equipe.
O papel do Climate.gov e o risco para a transparência pública
Criado para ampliar o acesso público à ciência climática, o Climate.gov é uma plataforma crucial para a educação, o jornalismo, a formulação de políticas públicas e a preparação para eventos extremos. A própria missão oficial do site é clara: “fornecer ciência e informações para uma nação climaticamente inteligente”.
Entre seus objetivos estão:
- Promover a compreensão pública da ciência climática
- Tornar acessíveis os dados e serviços da NOAA
- Apoiar a tomada de decisão baseada em evidências
- Fortalecer a economia com dados confiáveis para o setor privado
A possível paralisação ou reconfiguração desse canal pode comprometer seriamente o acesso da sociedade à informação científica, em um momento crítico de aceleração das mudanças climáticas globais.
O contexto mais amplo: política climática sob tensão
Desde o início de 2025, o governo Trump tem adotado uma série de ações que fragilizam a governança ambiental e a comunicação científica nos Estados Unidos. A recente proposta de desmantelar a FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências) e transferir a responsabilidade de desastres climáticos aos estados segue na mesma direção.
Com eventos climáticos extremos se intensificando, como furacões, enchentes e incêndios florestais, especialistas alertam que decisões como essas aumentam a vulnerabilidade da população e comprometem a capacidade de resposta nacional.


