Relatório divulgado na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos revela que crise química nos mares já compromete biodiversidade global
Durante o primeiro dia da Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3), em Nice, na França, cientistas revelaram um alerta preocupante: a acidificação dos oceanos (AO) ultrapassou o limite planetário seguro por volta de 2020. A constatação foi publicada na revista Global Change Biology e indica uma ameaça crescente a diversos ecossistemas marinhos, como recifes de corais e habitats costeiros.
O fenômeno, causado principalmente pela absorção de dióxido de carbono (CO₂) pelos mares, modifica a química da água e reduz a concentração de íons carbonato — essenciais para organismos que formam conchas e esqueletos calcários, como moluscos e corais. A pesquisa foi liderada por instituições como o Laboratório Marinho de Plymouth (Reino Unido), a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) e a Universidade Estadual do Oregon.
Segundo os cientistas, 60% das águas profundas do oceano, até cerca de 200 metros, já ultrapassaram o limite planetário seguro para a acidificação. Na superfície, esse número chega a 40%. “As regiões polares e zonas de ressurgência na costa oeste da América do Norte e próximo ao Equador são algumas das áreas mais afetadas”, explicou Helen Findlay, autora principal do estudo.

Perdas já visíveis em habitats e espécies marinhas
A análise mostra que os impactos da acidificação são mais amplos e profundos do que se imaginava. Espécies como os pterópodes — pequenos moluscos conhecidos como “borboletas-do-mar” — perderam até 61% de seus habitats. Recifes tropicais já registram perdas de 43% em áreas adequadas para sua sobrevivência. Moluscos costeiros também sofrem: estima-se que 13% dos seus habitats globais foram eliminados pela mudança química dos mares.
“A acidificação não é apenas uma crise ambiental, é uma bomba-relógio para a biodiversidade e para as comunidades costeiras que dependem desses ecossistemas”, alertou Steve Widdicombe, coautor do relatório e membro da Rede Global de Observação da Acidificação dos Oceanos, ligada à ONU.
Recomendações e urgência por ação internacional
O estudo propõe a revisão do limite de segurança adotado até então — um desvio de 10% em relação aos níveis pré-industriais —, pois esse patamar já foi ultrapassado globalmente no início dos anos 2000. Os autores também recomendam a implementação de estratégias de conservação em áreas menos impactadas, bem como o direcionamento de políticas públicas para proteger espécies mais vulneráveis.
Jessie Turner, diretora da Aliança Internacional para o Combate à Acidificação dos Oceanos, reforçou: “Estamos diante de uma ameaça existencial. Já perdemos grande parte do habitat essencial para muitas espécies. Os governos precisam incluir esse tema nas agendas políticas com urgência”.
A expectativa é que a UNOC3, junto com outras conferências ambientais como a COP30, que será sediada no Brasil, impulsione medidas de mitigação e políticas públicas voltadas à saúde dos oceanos.


