Uma vista do Observatório Mauna Loa da NOAA, no Havaí, em 9 de agosto de 2019. UCAR SciEd / Flickr
Uma vista do Observatório Mauna Loa da NOAA, no Havaí, em 9 de agosto de 2019. UCAR SciEd / Flickr

Níveis de CO₂ na atmosfera atingem maior concentração dos últimos 30 milhões de anos

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Cientistas alertam para aceleração histórica nas emissões e impactos severos sobre o clima, os oceanos e a vida na Terra

Pela primeira vez em milhões de anos, a atmosfera terrestre atingiu uma média de 430,2 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono (CO₂). O dado foi registrado em maio de 2025 no Observatório Mauna Loa, no Havaí — um dos principais centros mundiais de monitoramento de gases de efeito estufa.

Essa concentração representa um aumento de 3,5 ppm em relação ao mesmo período de 2024, e reforça o ritmo acelerado da crise climática global, impulsionada principalmente pela queima de combustíveis fósseis. Os dados foram divulgados por cientistas da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, em parceria com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos.

O que significa 430 ppm de CO₂?

A concentração atual de dióxido de carbono indica que há mais de 430 moléculas de CO₂ para cada milhão de partículas de ar na atmosfera. Pode parecer pouco, mas esses níveis são suficientes para alterar o equilíbrio térmico do planeta, intensificando o efeito estufa e provocando:

  • Aumento da temperatura global média
  • Eventos climáticos extremos (ondas de calor, secas, enchentes)
  • Derretimento de geleiras e elevação do nível do mar
  • Acidificação dos oceanos
  • Ameaças diretas à biodiversidade marinha e terrestre

Segundo os pesquisadores, o último período geológico em que a Terra registrou concentrações semelhantes foi há cerca de 30 milhões de anos — muito antes da existência da civilização humana.

A origem da medição: a histórica Curva de Keeling

O monitoramento contínuo do CO₂ em Mauna Loa começou em 1958, com o trabalho pioneiro do cientista Charles David Keeling, que identificou um padrão sazonal nas emissões de carbono e, mais importante, uma tendência anual de aumento contínuo.

Esse registro ficou conhecido como a Curva de Keeling, que se tornou um marco na ciência do clima. O trabalho foi continuado por seu filho, Ralph Keeling, atual diretor do Programa de CO₂ da Scripps. Em entrevista à imprensa, ele resumiu a gravidade do momento:

“Mais um ano, mais um recorde. É triste”, declarou Keeling.

Ele também ressaltou que, se a humanidade tivesse evoluído sob níveis tão elevados de CO₂, talvez muitas regiões do planeta hoje habitadas fossem inóspitas.

Como o CO₂ afeta o clima e os oceanos?

O dióxido de carbono é o principal gás de efeito estufa produzido por atividades humanas. Ele atua como uma espécie de cobertor atmosférico, retendo o calor que, em condições naturais, seria refletido de volta ao espaço. Isso provoca:

Aquecimento da atmosfera

  • Intensificação do efeito estufa
  • Mudanças nos padrões climáticos
  • Amplificação de eventos extremos como incêndios florestais e ciclones

Acidificação dos oceanos

  • O CO₂ dissolvido nos oceanos altera o pH da água, tornando-a mais ácida
  • Prejudica organismos marinhos que dependem de estruturas calcárias, como corais, moluscos e crustáceos
  • Afeta cadeias alimentares inteiras e ecossistemas costeiros

Um marco histórico: da linha dos 400 aos 500 ppm?

O nível de 400 ppm foi superado pela primeira vez em 2013. Menos de 12 anos depois, já ultrapassamos 430 ppm, e projeções indicam que poderemos alcançar 500 ppm em apenas três décadas se nenhuma mudança drástica for feita.

Isso representa um ritmo de aumento sem precedentes geológicos. Para comparação: entre as últimas eras glaciais e os períodos interglaciais, as variações de CO₂ costumavam acontecer ao longo de milhares de anos, não de décadas.

Monitoramento global e políticas públicas

Embora Mauna Loa seja a estação de referência mais reconhecida globalmente, existem outras estações no Hemisfério Sul que ainda não atingiram a marca de 430 ppm — reflexo das variações sazonais e geográficas na composição atmosférica.

Todos os dados são incorporados à Rede Global de Referência de Gases de Efeito Estufa, que serve de base para políticas climáticas internacionais e compromissos como o Acordo de Paris e os objetivos traçados para a COP30, que ocorrerá no Brasil em 2025.

Um alerta claro: a saúde do planeta em risco

Os níveis crescentes de CO₂ são considerados o termômetro do impacto humano sobre a Terra. Segundo Keeling, cada nova medição é um sinal de advertência sobre a saúde do sistema climático global:

“Estamos obtendo uma medição holística da atmosfera com um conjunto simples de dados”, afirmou à NBC News.

Para cientistas e ambientalistas, o recado é claro: é urgente reduzir as emissões, preservar florestas e investir em fontes renováveis de energia. Caso contrário, a escalada de CO₂ poderá comprometer seriamente o futuro do planeta como o conhecemos.

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