O Rio Tapajós corre 840 quilômetros pelo coração da Amazônia brasileira, atravessando territórios indígenas, parques nacionais, cidades pobres e muitos dos pequenos garimpos do Brasil / Carlos Bandeira Jr.
O Rio Tapajós corre 840 quilômetros pelo coração da Amazônia brasileira, atravessando territórios indígenas, parques nacionais, cidades pobres e muitos dos pequenos garimpos do Brasil / Carlos Bandeira Jr.

Corrida do ouro ilegal impulsiona crime organizado e devasta a Amazônia, revela relatório da ONU

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Mineração ilegal de ouro amplia devastação ambiental e alimenta redes criminosas na Amazônia

A mineração ilegal de ouro está acelerando a destruição ambiental e ampliando os lucros de organizações criminosas na Amazônia, segundo um novo relatório divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A prática ilegal, cada vez mais associada ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro, representa um risco crescente para os ecossistemas, comunidades tradicionais e a estabilidade da região.

O documento destaca que mais da metade da produção de ouro na Bacia do Rio Tapajós, no Pará, é ilegal. Além disso, estima-se que a mineração irregular tenha crescido 625% em terras indígenas da região amazônica na última década, afetando diretamente territórios no Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.

Ecossistemas em risco: mercúrio, desmatamento e resíduos

A pesquisa revela que a extração clandestina utiliza produtos químicos perigosos, como o mercúrio, que contaminam solo, rios e alimentos. A prática ainda impulsiona o desmatamento e o despejo irregular de resíduos sólidos. Segundo o UNODC, os danos ambientais são agravados pela ausência de fiscalização e pela atuação de redes que burlam regulamentações ambientais em busca de lucros rápidos.

Facções do narcotráfico se voltam para o ouro

Com o aumento do preço do ouro no mercado internacional, facções ligadas ao tráfico de drogas na América Latina vêm explorando o setor como alternativa lucrativa. Grupos criminosos estão aproveitando rotas e estruturas logísticas do narcotráfico para contrabandear ouro, ampliando seus lucros e utilizando o mineral como instrumento de lavagem de dinheiro.

No Brasil, a Polícia Federal investiga diversos esquemas que conectam o garimpo ilegal à movimentação de recursos ilícitos, especialmente em áreas de difícil fiscalização na floresta amazônica.

Um incêndio na floresta amazônica no Brasil / 17ª Brigada de Infantaria de Selva

Tráfico de pessoas e violações trabalhistas nos garimpos

O relatório também denuncia violações graves de direitos humanos nos garimpos ilegais. Em mais de 800 entrevistas com garimpeiros conduzidas no início de 2023, cerca de 40% foram identificados como possíveis vítimas de tráfico humano para trabalho forçado. Entre os trabalhadores, 44% relataram recrutamento fraudulento e condições laborais degradantes, com jornadas médias de 12,5 horas por dia.

Além disso, 71% sofrem de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, e 44% relataram ter sofrido acidentes graves. A violência de gênero e a exploração sexual de mulheres e meninas também são frequentes nas áreas de mineração ilegal, onde foi registrado um aumento nas mortes violentas.

Urgência por ação global e dados confiáveis

Angela Me, chefe de Pesquisa e Análise do UNODC, defende uma resposta internacional mais coordenada e a padronização das legislações para conter a mineração ilegal. Segundo ela, melhores dados e medidas integradas são essenciais para enfrentar o avanço do crime organizado nesse setor.

A corrida pelo ouro, longe de ser apenas uma questão econômica, está se tornando um problema ambiental, social e de segurança pública. O relatório do UNODC é um alerta para a necessidade de ações conjuntas entre governos, sociedade civil e organismos internacionais para frear a destruição da Amazônia e a expansão das redes criminosas.

Fonte: ONU

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