Recorde de temperaturas oceânicas em 2024: um alerta global
Pôr do sol em uma praia em Cádiz, Espanha, em 23 de julho de 2024. Stefano Guidi / Getty Images

Recorde de temperaturas oceânicas em 2024: um alerta global

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Em 2024, as temperaturas dos oceanos atingiram níveis históricos, conforme revela um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences. A pesquisa, conduzida por 54 cientistas de sete países, utilizou milhares de instrumentos para monitorar temperaturas desde a superfície até profundidades de 2.000 metros, fornecendo um retrato detalhado do impacto das mudanças climáticas nos mares.

Um recorde triplo alarmante

Os cientistas observaram que todas as três métricas avaliadas — temperatura global da superfície do mar, temperatura média global da superfície e calor armazenado até 2.000 metros — quebraram recordes em 2024. Segundo o professor Lijing Cheng, do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências, “os recordes quebrados no oceano se tornaram um disco quebrado”.

O estudo destacou um aumento de 16 zettajoules no calor armazenado nos 2.000 metros superiores dos oceanos, o que equivale a 140 vezes a produção total de energia do mundo em 2023. Esse aquecimento também contribuiu para a elevação do nível do mar, com um aumento total de 1,0 milímetro em 2024, somando-se aos 54 milímetros desde 1960.

O papel do El Niño

Eventos climáticos como o El Niño tiveram um papel relevante nesse aumento. Segundo Cheng, “durante o El Niño, a temperatura da superfície global é muito alta, enquanto o La Niña é mais frio, influenciando as variações anuais”. O coautor Kevin Trenberth, da Universidade de Auckland, explicou que, embora o El Niño tenha impacto significativo na superfície, seu efeito no calor armazenado em profundidades oceânicas é limitado.

Oceanos: termômetros do aquecimento global

Os oceanos são cruciais para monitorar as mudanças climáticas, pois armazenam 90% do calor excedente causado pelo aquecimento global. Para coletar dados, os pesquisadores utilizaram tecnologias avançadas, incluindo:

Flutuadores Argo: Sensores robóticos que registram temperaturas até 2.000 metros de profundidade e enviam informações via satélite.
Batitermógrafos descartáveis: Instrumentos lançados de navios para registrar temperaturas ao longo da coluna de água.
Sensores presos a animais marinhos: Coletam dados enquanto os animais nadam, ampliando a cobertura geográfica.

Essas tecnologias permitiram um monitoramento detalhado e revelaram a crescente acumulação de calor nos oceanos.

Impactos do aquecimento oceânico

O aumento das temperaturas oceânicas tem efeitos amplos e preocupantes:

Elevação do nível do mar: A expansão térmica da água contribui para a intrusão de água salgada em regiões costeiras, erosão e inundações em áreas baixas.
Tempestades mais intensas: O calor acumulado nos oceanos alimenta furacões e ciclones, aumentando sua força e frequência. “Águas mais quentes colocam mais umidade na atmosfera, intensificando as chuvas”, destacou Trenberth.
Impacto ecológico: A vida marinha enfrenta desafios como perda de habitat e mudanças nos ecossistemas devido às temperaturas elevadas.

O futuro do aquecimento oceânico

Mesmo se o mundo atingir as metas do Acordo de Paris, limitando o aquecimento global a 1,5°C, os oceanos continuarão aquecendo. “O aquecimento dos oceanos é uma resposta atrasada”, explicou Cheng, ressaltando que a mitigação e adaptação às mudanças climáticas precisam ser contínuas.

A equipe de pesquisa planeja manter o monitoramento do aquecimento oceânico nos próximos anos. Conforme apontado por Trenberth, a continuidade desse trabalho é essencial para entender os impactos globais. No entanto, ele também alertou sobre as tensões internacionais que dificultam a colaboração científica. “É crucial que cientistas compartilhem informações para termos uma visão completa do que está acontecendo”, afirmou.

Um chamado à ação

O recorde de aquecimento oceânico em 2024 é mais do que uma estatística — é um alerta sobre a urgência de agir contra as mudanças climáticas. À medida que os oceanos absorvem o excesso de calor, eles sinalizam os desafios que o planeta enfrenta e a necessidade de colaboração global para mitigar seus efeitos.

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