Seca sem fim

Rio Paraíba do Sul, Campos dos Goytacazes

Seca sem fim

Mais da metade do ano o rio Paraíba do Sul fica seco

“São pelo menos dez meses de seca em Campos, o que atinge o abastecimento de vários canais e lagos, sem falar que a vida no rio que fica menor”.

Do horizonte do Paraíba suspiramos quando o sol nasce e vai embora, o reflexo no rio do céu na planície é sem dúvida um dos cartões postais de Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro. Só que um olhar mais atento, dá para perceber que esse mesmo rio também reflete a falta de ações públicas e de toda comunidade, para a preservação da biodiversidade no local. Durante todo o ano, por dez meses o Paraíba fica seco, isso vem se agravando nos últimos 10 anos, quando o volume residual fica cada vez mais baixo junto com o nível.

Rio Paraíba do Sul, Campos dos Goytacazes

De acordo com o Presidente do Comitê da Bacia do Baixo Paraíba do Sul, João Siqueira, a situação do rio Paraíba do Sul vem se agravando, muitas reuniões e estudos tentam buscar soluções para a preservação da área. Ele conta que uma das alternativas seria transformar a Lagoa Feia em um grande reservatório, mas também encontrar outro mecanismo de reserva nos rios Pomba e Muriaé, já que eles são afluentes do Paraíba. Outra questão técnica que se tornou urgente seria abdução ou bombeamento de canais na Baixada Campista. Para tudo isso é preciso estudo, tempo e o mais complexo, recursos financeiros.

 

“O período seco do rio é rotineiro, uma condição climática, os afluentes mineiros vindo de terras íngremes, como o Preto Paraíbuna e o Pomba, em Muriaé, que nascem da serra de São Geraldo, mantém o rio vivo hoje. Poderia ser melhor, mas aquela região é muito íngreme, quando chove que não é frequente, acaba que a água vem rapidamente e numa velocidade grande, chega rápido no mar. O rio leva de dez a oito meses com cotas muito baixas, isso significa a maior parte do ano. Levamos cinco anos de seca histórica, que foi de 2014 a 2019, com cotas e vazões mínimas registradas em 85 anos. A mínima chegou a 4 metros e 32 centímetros, a preocupação é que esse ano a seca vem se prolongando mais”, conta João.

 

Sem água uma série de problemas começam no entorno do Paraíba do Sul, as lagoas, por exemplo, ficam mais baixas e podem até secar, como aconteceu em 2015 com a Lagoa do Campelo, o rio perde a força de alimentar todo o entorno já que a vazão fica muito baixa. Sem água, o rio também não abastece os inúmeros canais que seguem até a Baixada Campista, para auxiliar na agricultura e no dia a dia das comunidades. O lençol freático também já está mais baixo, na foz essa redução do nível de água doce, fez com que o mar avançasse oito quilômetros para o rio causando salinização, além disso, no ano passado a barra fechou, mudando a foz do Paraíba.

 

“São inúmeros fatores, tem também a transposição para o Rio de Janeiro que tira a maior parte da vazão, no estado de São Paulo tem reservatórios que são regularizados, eles guardam sempre a chuva do verão e soltam ao longo da estiagem, pra manter uma vazão residual. Não temos isso aqui. No final das contas, 2/3 da água do Paraíba, vai para o Rio de Janeiro, sobra uma vazão de 70 m³. Quase a metade da vazão do rio na foz, é a metade do rio”, lamenta o Presidente do Comitê.

A Universidade Estadual do Norte Fluminense, Uenf, também acompanha de perto o rio Paraíba do Sul, em especial o Laboratório de Ciências Ambientais que vem realizando inúmeras pesquisas, além disso, sempre é feita uma avaliação quinzenal do manancial, ciclos de cheias e de estiagem prolongadas. De acordo com a professora e pesquisadora as Uenf, Marina Suzuki, as cheias como a dos anos de 1996 e 2012, que inundaram várias áreas urbanas, além daquelas que normalmente ocupam as margens, e que agrava a situação do Paraíba ano após ano.

 

“Observamos também valores de vazões muito baixas em 2001-2002, 2007 e recentemente a partir de 2013, sem que houvesse de fato uma recuperação da vazão normal de período chuvoso até o momento. Desde 2013, mesmo no período chuvoso, os valores estão cerca de 50% menores do que aqueles observados nos anos anteriores. Esta manutenção nos baixos valores de vazão preocupa, pois sugere que no período de seca podem ocorrer problemas sérios no abastecimento público no município de Campos, visto que o rio é a principal fonte de água. A manutenção das baixas vazões também acarreta prejuízos na biodiversidade do rio, vez que o processo de piracema é dependente do incremento no volume de água na calha fluvial. Sem piracema, não acontece a desova dos peixes que necessitam migrar para as cabeceiras dos rios e existe, a diminuição do estoque pesqueiro. E além da não ocorrência da piracema, o pequeno volume no rio diminui as áreas de esconderijos do pescado, que é mais facilmente explorado”, afirma Marina Suzuki, professora da Uenf.

Quando se fala em rios, é importante lembrar que é um contínuo, ou seja, águas que se formam em nascentes e vem sendo transportados pela calha fluvial. O que acontece na nascente pode influenciar até a foz, dependendo da extensão do rio. No caso do rio Paraíba do sul, assim como os rios de média e grande extensão no Brasil, é fragmentado, especialmente se levarmos em conta a existência de inúmeros reservatórios. “Os reservatórios são como “pinças”, que diminuem o fluxo d’água, o que em ciência dizemos, transforma um sistema lótico em um sistema lêntico. Dependendo do tamanho do reservatório e do sistema de vertedouro, o tempo de residência da água pode ficar alongada, e com isto, o sistema dinâmico torne-se vagaroso, temos um processo de sedimentação acelerado. Num sistema lótico, a depender da velocidade da água, a capacidade de transporte de materiais é grande.

Quando o sistema torna-se lêntico, os materiais tendem a sedimentar no fundo, arrastando consigo muito material também dissolvido. Boa parte, por exemplo, de metais, pode ser arrastado e imobilizado no sedimento de fundo, tornando-se novamente disponível num evento de revolvimento de fundo e o material é arrastado para a juzante. Assim, apesar de podermos observar um incremento na disponibilidade de materiais, por exemplo, orgânicos provenientes de esgoto doméstico concentrados na área urbana, este material é arrastado para áreas rurais à jusante, sendo diluído em função da capacidade do rio. De fato, áreas rurais apresentam um aporte difuso em relação áreas urbanas, que apresentam fontes pontuais, mas uma área influencia outra quando se trata de um rio”, comenta a professora e pesquisadora Marina.

Sal na água do rio

A salinização no rio já vem sendo uma péssima realidade para os moradores de São João da Barra, recentemente a empresa que capta a água para o abastecimento da cidade, ficou 15 dias sem conseguir fazer o trabalho, isso porque o nível ficou baixo demais. O mar está com mais força e empurra o rio, leva sal e areia, acaba mudando tudo em volta.

“O mar avançou muito de uns cinco anos pra cá, o rio não consegue fornecer água doce para o abastecimento da população, a água é salgada na maior parte do tempo. Isso muda o mangue, a biologia do lugar, os peixes, as pastagens e tudo mais. Muitas árvores do mangue morrem, porque o estuário precisa mesclar água salgada e doce para a sobrevivência de várias espécies”, conta João.

Ferida de Cataguazes

Como não deixar de registrar o acidente com as barragens no município de Cataguazes há 17 anos, em Minas Gerais, que matou milhares de peixes, deixando uma mancha negra de destruição e tristeza até a foz do Paraíba do Sul. “Os acidentes que tem acontecido no rio Paraíba do Sul, afetou a beira do rio, em alguns pontos houve recuperação, mas na época os peixes morreram todos, hoje grande parte chegaram pelos afluentes e lagoas, eles conseguiram se proteger da mancha que passou pelo rio. O robalo, por exemplo, voltou e isso é uma vitória”, comenta o Presidente do Comitê da Bacia.

Os prejuízos ecológicos causados pelos derramamentos de produtos como a lixívia foram impactantes. “A situação de Cataguazes em 2003 e 2004 no rio Pomba, no ano de 2004 foi autorizado o esvaziamento de represa que poderia também estourar, em fevereiro-março; do endosulfan da empresa Servatis em 2008, de efluentes de bauxita em 2009, causando intensa mortandade de peixes nas áreas de influência. Todos estes fatores, além da poluição causada pelo despejo diário de efluentes domésticos e industriais não tratados, castigam o rio Paraíba do Sul nos 1000 km de extensão. O resultando leva á diminuição da biodiversidade, tanto florística quanto da fauna. Vide o festival do Pitu que já não mais ocorre na região de Itaocara e São Fidélis, isso afetou em cheio a vida dos pescadores, a redução dos números de profissionais é uma realidade”, conta a pesquisadora.

Paraíba com esgoto

Mais uma vez a falta de saneamento básico é um problema do Paraíba, assim como, de vários rios brasileiros. Algumas empresas que administram que oferecem o serviço, não apresentam sistema de tratamento, nem de efluentes domésticos e poucas empresas de fato tratam os efluentes indústrias, que são largados in natura nos rios. “E um problema grave é a retirada da vegetação marginal. A mata ciliar, protegem os rios da descarga de materiais das terras mais altas. Sem as matas ciliares, o escoamento superficial, quando das chuvas, carregam grande quantidade de material para a calha fluvial. E sem as raízes da vegetação para proteger, os barrancos são mais facilmente erodidos quando o volume d’água aumenta no rio. E grande parte deste material é responsável pelo processo de assoreamento dos rios”, explica Marina.

Funciona como uma balança: quanto maior o percentual de recolhimento e tratamento, tanto melhor para os sistemas hídricos, que normalmente são os pontos finais de despejo. Com um olhar mais atento é possível entender os níveis de tratamento. “Ademais ao recolhimento e tratamento, deve-se cobrar o tratamento terciário do efluente. O tratamento secundário resulta em retirada de materiais grossos e degradação da matéria orgânica. O problema é que com a degradação da matéria orgânica, os nutrientes que estavam contidos na matéria orgânica são liberados na forma inorgânica, em mais reduzida (e por isso a água parece limpa). Esta forma inorgânica é prontamente assimilável e utilizável pelos produtores primários (algas e plantas macroscópicas aquáticas), que prontamente respondem aumentando sua biomassa. Ou seja, o tratamento regular do esgoto libera materiais que prontamente incrementam a biomassa vegetal. A princípio parece bom, mas o problema é que a quantidade nunca diminui, a tendência é aumentar com o aumento populacional e das demandas da agropecuária e indústrias, e com isto, aumenta o estoque de biomassa vegetal. Como consequência, o rio deve mostrar capacidade de degradação do material orgânico interno, o que tem um certo limite, e passado este limite, o acúmulo cada vez maior de material orgânico se observa, com degradação ambiental, a seleção de organismos capazes de sobreviver à estas condições. Aí aparecem as florações de cianobactérias, potencialmente tóxicas, como aconteceu em 2002 em Campos e causou o desabastecimento de água potável por três dias”, destaca Marina.

Soluções

Os peixes voltaram a procriar, mas outros fatores como o aumento na poluição ambiental, que é entre outros problemas efluentes domésticos e industriais e desbarrancamento, sem falar que a estiagem prolongada vem castigando a fauna do rio. “Projetos de repovoamento como os que ocorrem pela ação do Piabanha são extremamente importantes, mas há que se dar tempo para que estes alevinos cresçam e possam se reproduzir. Então, pescar peixes pequenos, que ainda não chegaram a fase reprodutiva é resolver um problema imediato, mas dar tiro no pé”, afirma Marina.