Compartilhar no facebook
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Lagoas de restinga no Norte Fluminense

Capitaneados pelo rio Paraíba do Sul, os rios Preto, Imbé e Macabu formaram a Planície dos Goytacazes, transportando sedimentos das partes altas para dentro de uma enseada rasa formada pelo avanço do mar até 5.100 anos antes do presente. Esta planície foi arrematada por um grande restinga, que se estende entre a foz rio Guaxindiba e e a foz do antigo rio Iguaçu. Já existia uma restinga com cerca de 123 mil anos quando a Planície dos Goytacazes se formou com terrenos argilosos e arenosos. A datação dessa vasta planície entre os rios Guaxindiba e Macaé foi datada primeiro por Alberto Ribeiro Lamego (O homem e o brejo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lidador, 1974 e Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº 154 da Divisão de Geologia e Mineralogia. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1955).

Lagoas compridas e lagoas arredondadas na restinga de Jurubatiba
Lagoas compridas e lagoas arredondadas na restinga de Jurubatiba

A restinga de idade mais antiga e a de idade mais nova uniram-se por um estreito e alto cordão de 28 quilômetros de extensão. Sobre esse cordão, ergueram-se Xexé, Farol de São Tomé e Barra do Furado. Em ambas, formaram-se lagoas. Na restinga mais antiga, entre Barra do Furado e a margem esquerda do rio Macaé, as lagoas têm dois formatos. As mais antigas são velhos rios perpendiculares à costa. As lagoas mais novas estendem-se junto à costa e têm formato arrendado.

A lagoa de Carapebus é a maior entre todas as lagoas desta restinga, que foi batizada de Jurubatiba. Em suas terras se estende o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, criado para proteger grande parte dessas lagoas e a vegetação de restinga.

 

Aspecto da lagoa de Carapebus
Aspecto da lagoa de Carapebus

A restinga mais nova tem idade estimada em cerca de 2.500 anos e é a maior do Estado do Rio de Janeiro. Como explica Alberto Ribeiro Lamego (Restingas da costa do Brasil. Rio de Janeiro, Ministério da Agricultura, Departamento Nacional de Produção Mineral. Divisão de Geologia e Mineralogia, Bol. 96, 1940), uma restinga se forma com o transporte de areia pelo mar quando encontra um obstáculo, geralmente pedregoso, que retém a areia e a acumula em forma de depósito. Entre os rios Macaé e Itapemirim (ES), não há sequer uma formação pedregosa natural para reter areia. No mesmo trabalho, Lamego adverte que o jato de um rio no mar pode funcionar como espigão retentor. É o caso do rio Paraíba do Sul, que, no passado, tinha muito mais volume e mais força ao entrar no mar. Ele intercepta uma corrente marinha no sentido norte-sul, retendo areia do lado norte e erodindo a parte sul. Até hoje, esse fenômeno pode ser nitidamente presenciado: na margem esquerda do Paraíba do Sul, em sua foz, a areia se acumula, enquanto que, na margem direita, a erosão é acentuada, como se verifica em Atafona. Hoje, o fenômeno da erosão se acentuou por ação humana.

Vale notar que, nessa restinga, que batizamos de Restinga de Paraíba do Sul, encontram-se dois tipos de lagoa. Na margem esquerda, elas são paralelas à costa, como a grande lagoa do Campelo, a maior de toda a restinga, e as lagoas do Comércio, do Meio e da Praia.

Lagoa do Campelo em mapa de 1954 desenhado por Alberto Ribeiro Lamego
Lagoa do Campelo em mapa de 1954 desenhado por Alberto Ribeiro Lamego

Na margem direita do rio Paraíba do Sul, as lagoas ou são perpendiculares à costa ou paralelas a ela. As perpendiculares geralmente estão associadas ao rio Paraíba do Sul de forma direta, como as lagoas de Gruçaí, Iquipari e Açu. No passado, elas funcionavam como braços auxiliares da foz do grande rio. Em tempos de cheia, as águas do rio extravasava pela margem direita através de um dreno natural que foi batizado de rio Água Preta ou Doce. A partir de 1940, ele foi aproveitado pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento para a abertura do canal do Quitingute.

Com a abertura desse canal, definiram-se as lagoas de Gruçaí e de Iquipari. O rio Iguaçu deu origem à lagoa do Açu quando foi aberta a vala do Furado, em 1688.

Lagoa de Gruçaí
Lagoa de Gruçaí
Lagoa de Iquipari
Lagoa de Iquipari

Ao longo do rio Água Preta, formavam-se as lagoas do Taí Grande, Taí Pequeno, Quitingute, do Mulaco e um infinidade de outras. Quase todas foram drenadas total ou parcialmente. De todas, destaca-se a lagoa Salgada. É a mais hipersalina lagoa do Estado do Rio de Janeiro. Nela, verificam-se processos de fossilização recente de microrganismos, dando origem a blocos que parecem pedras. São estromatólitos. A maior parte da lagoa do Açu e Salgada são hoje protegidas pelo Parque Estadual da Lagoa do Açu.

Linha de drenagem (assinalada em azul) formada pelo antigo rio Água Preta
Linha de drenagem (assinalada em azul) formada pelo antigo rio Água Preta
Aspecto da lagoa Salgada
Aspecto da lagoa Salgada