Energia renovável pode tirar o mundo da crise climática, diz Guterres da ONU

Energia renovável pode tirar o mundo da crise climática, diz Guterres da ONU

Relatório descreve sinais ainda mais claros de que a atividade humana está causando danos em escala planetária

As concentrações de gases de efeito estufa, a elevação do nível do mar, o aquecimento e acidificação dos oceanos tiveram novos recordes em 2021, de acordo com o último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), publicado na última quarta-feira.

O relatório ‘Estado do Clima 2021’ indica que o clima extremo – causado pelas mudanças climáticas – custou vidas, insegurança alimentar e crise hídrica, levando a uma perda econômica de centenas de bilhões de dólares no último ano.

O relatório, que descreve sinais ainda mais claros de que a atividade humana está causando danos em escala planetária – a terra, ao oceano e a atmosfera – também confirma que os últimos sete anos foram os mais quentes já registrados, com a temperatura global em 2021 atingindo cerca de 1,1 °C acima dos níveis pré-industriais.

“É apenas uma questão de tempo até vermos outro ano mais quente já registrado. Nosso clima está mudando diante de nossos olhos. O calor emitido pelos gases de efeito estufa aquecerá o planeta por muitas gerações”, alertou o chefe da OMM, Petteri Taalas. “A elevação do nível do mar, aqueciemento dos oceanos e a acidificação continuarão por centenas de anos, a menos que sejam criadas formas de retirar o carbono da atmosfera”.

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Um plano para energias renováveis

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o tempo está se esgotando para evitar os piores impactos da crise climática, mas há uma ‘salvação’ bem na frente de nós.

“Devemos acabar com a poluição por combustíveis fósseis e acelerar a transição para energia renovável antes de destruir a nossa única casa”, enfatizou em uma mensagem de vídeo. Destacando que as tecnologias de energia renovável, como a eólica e a solar, estão prontamente disponíveis e, na maioria dos casos, mais baratas que o carvão e outros combustíveis fósseis, o chefe da ONU propôs cinco ações para impulsionar a transição energética, que ele chamou de “projeto de paz do século 21″.

1. Tratar as tecnologias de energia renovável como bens públicos globais essenciais
Isso significa remover os obstáculos do compartilhamento de conhecimento e transferência de tecnologia, incluindo as restrições de propriedade intelectual.
Guterres pediu uma nova coalizão global sobre armazenamento de baterias liderada por governos e reunindo empresas de tecnologia, fabricantes e financiadores para acelerar a inovação e a distribuição.

2. Garantir, ampliar e diversificar os componentes de fornecimento e matérias-primas para tecnologias de energia renovável
As cadeias de fornecimento de tecnologia de energia renovável e matérias-primas estão concentradas em alguns países, e é necessária mais coordenação internacional para superar esse obstáculo.

3. Construir estruturas e reformar as burocracias dos combustíveis fósseis
O chefe da ONU está pedindo aos governos que agilizem e otimizem as aprovações de projetos solares e eólicos, modernizem as redes e estabeleçam metas ambiciosas de energia renovável que forneçam segurança a investidores, desenvolvedores, consumidores e produtores.

4. Alterar os subsídios dos combustíveis fósseis
A cada ano, governos de todo o mundo gastam cerca de meio trilhão de dólares para reduzir artificialmente o preço dos combustíveis fósseis – mais do que o triplo dos subsídios concedidos às energias renováveis.

“Enquanto as pessoas sofrem com os altos preços na bomba, a indústria de petróleo e gás está faturando bilhões em um mercado distorcido. Esse escândalo tem que parar”, destacou Guterres.

5. Investimentos privados e públicos em energia renovável devem triplicar
O chefe da ONU está pedindo um ajuste nas estruturas de risco e mais flexibilidade para aumentar o financiamento renovável. “É hora de impulsionar a transição para as energias renováveis antes que seja tarde demais”, pediu o secretário-geral.

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Emergência climática

O plano do chefe da ONU está muito atrasado, uma vez que o clima extremo continua a impactar milhões de vidas nas últimas semanas, como visto na emergência da seca no Chifre da África, as inundações fatais na África do Sul e o calor extremo na Índia e Paquistão.
O relatório Situação do Clima Global da OMM complementa a última avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que incluiu apenas dados até 2019, e será usado como documento de negociação durante a próxima Conferência do Clima da ONU no Egito (COP 27) ainda este ano.

Aqui estão algumas de suas principais descobertas:
– Concentrações de gases de efeito estufa: Os níveis atingiram uma nova alta global em 2020 e continuaram a aumentar em 2021, com a concentração de dióxido de carbono atingindo 413,2 partes por milhão globalmente, um aumento de 149% em relação aos níveis pré-industriais.

– Aquecimento do oceano: Mais um recorde de alta. A profundidade superior de 2.000m da água do oceano continuou a aquecer em 2021 e espera-se que continue a aquecer no futuro – uma mudança que é irreversível e afeta profundamente os ecossistemas marinhos, assim como os recifes de coral.

– Acidificação do oceano: Em função do excesso de dióxido de carbono (CO2) que o oceano está absorvendo (cerca de 23% das emissões anuais), suas águas estão cada vez mais acidificadas. Isso tem consequências para os organismos e ecossistemas, e também ameaça a segurança alimentar e o turismo. A diminuição do nível de PH também significa que a capacidade do oceano de absorver CO2 da atmosfera também diminui.

– Elevação do nível do mar: O nível do mar aumentou um recorde de 4,5 mm por ano no período 2013-2021, principalmente devido à perda acelerada de massa de gelo das placas de gelo. Isso tem grandes implicações para as centenas de milhares de pessoas que vivem nos litorais, além de aumentar a vulnerabilidade aos ciclones tropicais.

– Criosfera: As geleiras do mundo que os cientistas usam como referência diminuíram 33,5 metros desde 1950, com 76% acontecendo desde 1980. Em 2021, as geleiras do Canadá e do noroeste dos EUA tiveram uma perda recorde de massa de gelo devido às ondas de calor e incêndios em junho e julho. A Groenlândia também experimentou um excepcional degelo em meados de agosto e a primeira chuva registrada em seu ponto mais alto.

– Ondas de calor: O calor quebrou recordes no oeste da América do Norte e no Mediterrâneo em 2021. Death Valley, Califórnia, atingiu 54,4 °C em 9 de julho, igualando um valor semelhante em 2020 como o mais alto registrado no mundo desde pelo menos a década de 1930, e Syracuse, na Sicília, atingiu 48,8 °C. Uma onda de calor na Colúmbia Britânica, no Canadá, causou mais de 500 mortes e provocou incêndios florestais devastadores.

– Inundações e Secas: As inundações causaram perdas econômicas de US$ 17,7 bilhões na província de Henan, na China, e 20 bilhões na Alemanha. Foi também um fator que levou a perda de vidas. As secas afetaram muitas partes do mundo, incluindo o Chifre da África, América do Sul, Canadá, oeste dos Estados Unidos, Irã, Afeganistão, Paquistão e Turquia. A seca no Chifre da África se intensificou até 2022. A África Oriental lida com a perspectiva muito real de que as chuvas vão falhar pela quarta temporada consecutiva, colocando a Etiópia, o Quênia e a Somália em uma seca de duração não experimentada nos últimos 40 anos.

– Segurança alimentar: Os efeitos combinados de conflitos, eventos climáticos extremos e choques econômicos, ainda mais exacerbados pela pandemia de COVID-19, minaram décadas de progresso para melhorar a segurança alimentar globalmente. O agravamento das crises humanitárias em 2021 também levou a um número crescente de países em risco de fome. Do número total de pessoas desnutridas em 2020, mais da metade vive na Ásia (418 milhões) e um terço na África (282 milhões).

– Deslocamento: Desastres naturais relacionados à água continuaram a contribuir para o deslocamento interno. Os países com os maiores números de deslocamentos registrados em outubro de 2021 foram China (mais de 1,4 milhão), Filipinas (mais de 386.000) e Vietnã (mais de 664.000).

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Comitê aposta na recuperação de nascentes e uso sustentável do solo

Comitê aposta na recuperação de nascentes e uso sustentável do solo

Expectativa é que reconhecimento da região como semiárida possa trazer também ganhos ambientais

Seca do Rio Paraíba no ano de 2013 – Foto César Ferreira

A criação de um fundo de desenvolvimento para atender a agropecuária de 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense, apontados como semiáridos, é vista também como uma possibilidade de investimentos na recuperação ambiental. A região pode ser beneficiada pelo, recém aprovado, Projeto de Lei 1440/2019, que prevê recursos a produtores a partir da mudança climática.

Especialistas ouvidos pelo Rota Verde em três reportagens anteriores são unânimes ao afirmar sobre a necessidade da implantação de práticas sustentáveis para minimizar os impactos provocados no campo pela degradação ambiental durante décadas.

A expectativa é que, a partir de recursos destinados, produtores rurais e pecuaristas possam ser motivados à recuperação de matas e nascentes, apostando por exemplo na agroecologia e na pecuária silvipastorial, um método que combina no mesmo espaço gado, árvores e pastos.

O Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana acompanha os estudos meteorológicos feitos pela Universidade do Estadual do Norte Fluminense (UENF) e reconhece a falta de chuva na região, além dos impactos disso e a necessidade que haja o uso sustentável do solo.

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Integrado por vozes do poder público, da sociedade civil organizada e usuários de água bruta dos rios Paraíba e Itabapoana, o Comitê já vem elaborando ações que melhore a produção de água na sua bacia hidrográfica.

“Nós estamos focados em recuperação de nascentes. De lá que vem a nossa água. Estamos em processo de priorização de áreas que possam ser recuperadas para o plantio de árvores. Mas não é aleatório. A velocidade do escoamento da água, superficial, que cai da chuva é muito grande. Então, florestas em área de encosta, topo de morro e nascentes, impedem esse escoamento rápido da água, deixando ela infiltrada no solo. É esse processo que estamos envolvendo o Comitê”, destaca João Siqueira, diretor do Comitê Baixo Paraíba do Sul.

Ainda segundo ele, no ciclo hidrológico, a água evapora no mar, forma nuvens e o vento empurra até as áreas montanhosas, por isso não chove suficiente na região.

“O nosso vento empurra a chuva até a montanha no Noroeste ou em Minas e lá chove. De lá, vem para nós. Com a falta de cobertura do solo, essa água não infiltra. Ela bate, escorre e ganha a calha do rio e dali volta para o mar rapidamente. O interessante é que esta água infiltre no solo, que é um grande reservatório, seja guardada um tempo ali, vá escoando lentamente pelas nascentes e aí sim venha ganhar a calha do rio. Então, esse processo é alterado pela falta de florestas”, comenta João Siqueira.

Modelo de reflorestamento já garantiu 5 mil hectares de Mata Atlântica

As ações do Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana em prol do meio ambiente da região independem do PL 1440/2019, já que os recursos disponíveis vêm do dinheiro arrecadado em níveis federal e estadual pelo uso da água dos rios por parte de empresas e instituições.

Exemplos dados por outros comitês de bacias, como o Guandu podem servir de modelo para a recuperação de florestas no Norte e Noroeste Fluminemse.

O Comitê, que pega parte da região metropolitana do Rio e centro sul do estado, vem mostrando na prática, desde 2009, como o incentivo à sustentabilidade já recuperou ou preservou mais de 5 mil hectares de Mata Atlântica com o programa Produtores de Água e Floresta (PAF).

O PAF é um dos primeiros projetos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) do Brasil. Além de preservar o meio ambiente, os produtores rurais que fazem parte do PAF já receberam mais de RS 2,7 milhões em retribuição.

Isso sem contar, o aumento da renda familiar a partir de uma produção amparada por orientações técnicas e sustentáveis. Atualmente, o programa ampliou a sua atuação com os Sistemas Agroflorestais (SAFs), aliando espécies florestais e cultivos agrícolas. A agroecologia vem se destacando com a produção de alimentos orgânicos, por exemplo.

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Produtores rurais falam em justiça ao avaliar a PL 1440/19

Produtores rurais falam em justiça ao avaliar a PL 1440/19

Eles comemoram a possibilidade de políticas públicas específicas para a atividade agropecuária da região, levando em consideração o fator clima

Seca da Lagoa do Campelo no ano de 2015 - Foto César Ferreira
Fotos César Ferreira

O produtor rural e ex-secretário de Agricultura de Campos, Eduardo Crespo, diz que o projeto de lei que muda a classificação climática para semiárida em 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense é um ato de justiça e importante para mostrar a dificuldade e a necessidade de políticas públicas específicas para a atividade agropecuária da região, levando em consideração o fator clima.

“O reconhecimento que a nossa região tem esse clima similar ao Nordeste é um ato de Justiça, porque isso é histórico. A gente pagou um preço muito caro, porque estamos passando um verão muito seco, por conta do veranico”, destaca Eduardo.

Com a PL 1440/19, ele espera ver investimentos públicos que garantam um pouco mais de segurança ao produtor rural.
“A proposta do Garantia Safra, por exemplo, oferece uma renda mínima àquele que se arriscou, que plantou, cultivou… para que, pelo menos, ele não saia da atividade, mediante a uma frustração climática que possa ocorrer”, pondera Eduardo.

Fora isso, segundo ele, a criação de um fundo oportuniza também investimentos em pesquisa e tecnologia no campo.
“A atividade agrícola, com base tecnológica, ela hoje é sustentável. Só que precisava reconhecer que a nossa região tem essa peculiaridade e ter investimentos sentido: irrigação, proteção de nascentes, produção de água, reflorestamento… Várias ações que se complementam e permitem mais competitividade em harmonia com o ambiente”, avalia Crespo.

A expectativa é que sejam destinados recursos para capacitar produtores e trabalhadores, além de investimentos nas universidades.
“Recursos para produzir pesquisas partindo da premissa básica que nós não somos só enchente, e nem só seca. Nós temos o nosso perfil próprio e esse reconhecimento fará com que a gente possa olhar para a frente e trazer tempos novos para a nossa atividade rural”, finalizou Eduardo Crespo.

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Seguro agrícola é visto como fundamental

O atual secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca de Campos, Almy Júnior, também apontou a PL como “um avanço consistente na direção do verdadeiro desenvolvimento agrícola das regiões Norte e Noroeste Fluminense e do Estado do Rio de Janeiro como um todo”.

“O PL é muito importante, porque o seguro agrícola é algo fundamental para que nossos agricultores tenham menos riscos na atividade, tenham um suporte para lidar com perdas e prejuízos em função do clima, do desequilíbrio climático que se apresenta cada vez mais intenso e, principalmente, se sintam seguros para ampliar e aperfeiçoar sua produção”, ressaltou Almy.

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Ambientalista aponta contribuição da agropecuária na degradação que levou ao semiárido

Ambientalista aponta contribuição da agropecuária na degradação que levou ao semiárido

“Semiaridez da região, portanto, não é natural. Ela foi produzida pela própria atividade que se valeu dos recursos naturais”

A mudança da classificação climática para semiárida em 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense, debatida na PL 1440/19, segue em discussão no meio político como uma compensação aos produtores rurais. Para o ambientalista e historiador Aristides Arthur Soffiati a agropecuária no Norte/Noroeste Fluminense contribuiu muito para esta alteração do clima na região.

“A regiões Norte e Noroeste Fluminense não são naturalmente semiáridas. Elas se situam no domínio da Mata Atlântica. Havia florestas densas, pujantes e úmidas nas margens do Paraíba do Sul e muitas lagoas em seu trecho final. O Norte Fluminense era a região mais úmida do Estado do Rio de Janeiro com suas incontáveis lagoas. No Noroeste Fluminense, dominavam extensas florestas”, destaca Soffiati.

Ele conta que ao longo de três séculos, as florestas foram senso suprimidas pelo corte ou simplesmente pelo fogo para abrir espaço à lavoura e a pastagens.
“Foi um processo lento e até elogiado por representar o avanço da civilização sobre a natureza selvagem. Também as lagoas foram drenadas para conquistar terras sob as águas e destiná-las à cana”, ressalta.

Ainda segundo o ambientalista, a agropecuária contribuiu para o lançamento de carbono na atmosfera e para o efeito-estufa com o desmatamento, embora ainda não se tenha mensurado esta colaboração.

“Este estudo deveria ser feito pelas Universidades para sabermos qual foi a contribuição da região para as mudanças climática. A semiaridez da região, portanto, não é natural. Ela foi produzida pela própria atividade que se valeu dos recursos naturais. Não se trata de condenar o passado, pois desmatar e drenar eram atividades vistas com bons olhos por toda a sociedade. Não se pensava também que as atividades econômicas fossem provocar mudanças na atmosfera”, comenta o historiador.

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Soffiati defende que fundo destinado à recuperação de florestas e lagoas

Com o PL 1440/19, a proposta é que seja criado um Fundo de Desenvolvimento, a ser constituído por recursos privados a partir de doações, contribuições, financiamentos e investimentos para o desenvolvimento da Agricultura, além do Fundo Garantia-Safra, de natureza financeira, para proteger agricultores familiares prejudicados pela estiagem.
Porém, para Soffiati seria justificável um fundo que pudesse atender provisoriamente os produtores rurais, ao lado da restauração e da revitalização de florestas e lagoas.

“Este projeto de lei é uma visão retrógrada. As lideranças políticas regionais são muito atrasadas. O mundo mudou. Vivemos uma crise ambiental sem precedentes. O mais correto seria criar um fundo destinado à recuperação de florestas e lagoas. Não se trata de ocupar as terras altas da região com matas, como no passado, mas reflorestar margens de rios, topos de morro, encostas íngremes e áreas de recarga (por onde a água da chuva se infiltra no lençol freático)”, salienta o ambientalista.

Como exemplo de ações que poderiam minimizar os impactos do clima na região, Soffiati a proteção e recuperação de lagoas, que poderiam ser usadas como reservatórios de águas de enchentes.
“Algumas lagoas da planície deveriam ser recriadas, como as lagoas de Dentro, da Ribeira, da Piabanha, pelo menos”, completa o ambientalista.

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Norte e Noroeste Fluminense com características de semiárido

Norte e Noroeste Fluminense com características de semiárido

Projeto de lei quer trazer benefícios a produtores rurais da região embasados na mudança da classificação climática

Visto por muitos como literalmente a salvação da lavoura, um projeto de lei que regulamenta a mudança da classificação climática para semiárida em 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense é encarada por ambientalistas e outros pesquisadores como um atestado de que a humanidade está mudando a natureza de forma perigosa para ela própria.

O Rota Verde buscou diferentes visões sobre o projeto de lei (PL 1440/2019), que foi aprovado por uma comissão especial da Câmara dos Deputados no início deste mês. Nesta reportagem, a primeira de uma série, o Rota traz detalhes da proposta que sugere benefícios a produtores rurais destas regiões a partir da mudança do clima ao longo de décadas.

O projeto, apresentando e defendido por políticos da região, foi construído com a participação do professor José Carlos Mendonça, meteorologista da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que mostrou em dados que a mesorregião caminhava a passo largos para se tornar semiárida, revelando o clima como complicador para diversos problemas aos agricultores, causando insegurança ao processo produtivo.

“Você não muda um clima por lei. O que está por trás disso é o embasamento. A gente vem acompanhando a questão climática, que de fato vem alterando. As secas prolongadas, as chuvas concentradas… É um fato comprovado nas nossas estações meteorológica que diminuiu a chuva, aumentou a temperatura, reduziu a umidade relativa, aumentou assustadoramente a evaporação. Estamos mais quente e mais seco”, pontua o meteorologista.

Ainda segundo ele, não é que hoje a região seja semiárida, mas o cenário climático caminha para isso. Um dos exemplos dado pelo meteorologista é o recente relatório publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O documento apontou que a média anual das emissões de gases de efeito estufa globais tem crescido, fazendo com que a contenção do aquecimento global esteja fora de alcance.

“Na média anual geral, nós somos subúmido seco, que é um degrau abaixo do semiárido. Só que isso já vem sendo dito desde 2004, desde os primeiros relatórios apontando este índice de aridez. De lá para 2022, são quase 20 anos. O que foi feito para reduzir este índice ascendente de aridez? Nada. Então se nada está sendo feito e a gente continua em direção ao semiárido, daqui a dez anos isso só vai crescendo”, avalia o professor.

Segundo o meteorologista, além das questões naturais possíveis, como as variações no ciclo solar, por exemplo, vêm das intervenções humanas os maiores aceleradores destas alterações climáticas.

De acordo com o estudo do IPCC, existem provas cada vez maiores de que as alterações climáticas vistas em todo o mundo são resultado de “mais de um século de energia e utilização insustentável da terra, estilos de vida e padrões de consumo e produção problemáticos”.
Os estudos mundiais mostram ainda que, desde 1800, as atividades humanas têm sido o principal impulsionador das mudanças climáticas, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás para geração de energia, atividades industriais e transportes.

A conversão do uso do solo, a própria agropecuária, o descarte de resíduos sólidos (lixo) e o desmatamento estão entre os agravantes ao efeito estufa e consequentes alterações climáticas.
“O INMET lançou recente as normais climatológicas dos últimos 30 anos. Em Campos eu fiz o relatório. A nossa chuva diminuiu. É dado oficial que a nossa média de chuva anual hoje caiu abaixo dos três dígitos 981,6 mm

A temperatura média do ar que era 23 graus, hoje já está em 24.6. A umidade relativa do ar que era 88,5, já está com 76. Não é só o total anual, mas como esta chuva é distribuída. O que adianta choveu fevereiro, aquela tromba d’água toda, parou de chover, ficou 45 dias sem uma gota d’agua”, ressalta Mendonça.

 

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Plantar de acordo com o perfil climático

Apesar de ser um projeto que sustenta que as características climáticas de Campos e municípios vizinhos são semelhantes às do Nordeste do Brasil, isso não inclui a região nos benefícios disponibilizados por meio Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

“Não é que hoje a Sudene reconhece o Norte e Noroeste Fluminense como semiárido. Ela não reconheceu ainda, apesar disso ser uma questão que está em discussão. Nós temos condições muito piores do que municípios do norte do Espírito Santo e de Minas Gerais que foram incluídos na última revisão do ano passado. Então, a gente está questionando isso”, afirma o meteorologista.
Ainda segundo ele, em cima desta discussão da alteração do regime climático, se propôs a criação de um fundo e o Zoneamento Agrícola de Risco Climatológico (Zarc).

“Então a proposta foi criar um novo fundo de investimento, fazer o zoneamento e ser financiado o que realmente for viável dentro das mudanças climáticas que estão acontecendo. Definindo o que eu posso plantar, quando e o que de fato não trará prejuízo. Culturas financiadas com recursos baratos para a realidade climática que a gente vive”, salienta.

Dados de 60, 70, 80 anos do Norte e Noroeste revelam, segundo o pesquisador, que a região tem três períodos característicos.
“Tem o verão chuvoso, período úmido em outubro, novembro dezembro, com aqueles veranicos de janeiro e fevereiro que são clássicos. Depois a gente entra no período subúmido seco e chega no semiárido em agosto, setembro, outubro”, explica.

Articulação política por criação de fundo desenvolvimento

Apresentado em março de 2019, pelo então deputado federal Wladimir Garotinho, atual prefeito de Campos dos Goytacazes, a proposta é considerada determinante para o desenvolvimento regional do Norte e Noroeste Fluminense.

O prefeito, quando deputado, construiu uma proposta para viabilizar esse amparo aos produtores, para facilitar acesso a créditos, proposta que avançou com a comissão especial, sob a presidência de Clarissa Garotinho, e que teve esse parecer favorável do deputado Felício Laterça.

“Sou autor do projeto original, que buscava reconhecer as características climáticas de Campos e municípios vizinhos como semelhantes às do Nordeste do Brasil, objetivando, com isso, garantir linhas de crédito para toda a cadeia produtiva agrícola, amenizar prejuízos sofridos por nossos produtores rurais e incentivando a expansão do agronegócio e a geração de emprego e renda. Parabenizo os deputados federais Clarissa Garotinho e Felício Laterça por darem sequência e ampliarem esse projeto, que será um verdadeiro divisor de águas para a agricultura no interior do estado”, destacou Wladimir.

O projeto já previa a criação de um fundo de desenvolvimento. No texto substitutivo, foi incluída a restrição de aportes públicos no fundo e criado o chamado Fundo Garantia-Safra. Como a comissão especial da Câmara dos Deputados é constituída, em sua maioria, por parlamentares do estado do Rio, a presidente Clarissa Garotinho acredita que o PL deverá ser encaminhado diretamente para o Senado, sem necessidade de aprovação pelo Plenário da Casa Legislativa.

O atual texto do PL 1440/19 classifica como área de semiárido os municípios de Aperibé, Bom Jesus do Itabapoana, Cambuci, Campos dos Goytacazes, Carapebus, Cardoso Moreira, Conceição do Macabu, Italva, Itaocara, Itaperuna, Laje do Muriaé, Macaé, Miracema, Natividade, Porciúncula, Quissamã, Santo Antônio de Pádua, São Fidélis, São Francisco de Itabapoana, São José de Ubá, São João da Barra e Varre-Sai.

 

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Relatório climático da ONU: estamos a caminho do desastre, alerta Guterres

Relatório climático da ONU: estamos a caminho do desastre, alerta Guterres

Para o secretário-geral da ONU, o mundo está em um caminho rápido que pode tornar o planeta inabitável

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou seu novo relatório na segunda-feira (04). O documento, que tem foco na mitigação das mudanças climáticas, indica que as emissões nocivas de carbono de 2010-2019 foram as mais altas na história da humanidade.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, esta é prova de que o mundo está em um “caminho rápido” para o desastre.

Em seus comentários sobre o lançamento do novo relatório do IPCC, o secretário-geral da ONU insistiu que, a menos que os governos de todos os lugares reavaliem suas políticas energéticas, o mundo será inabitável.

Seus comentários refletem a insistência do IPCC de que todos os países devem reduzir substancialmente o uso de combustíveis fósseis, ampliar o acesso à eletricidade, melhorar a eficiência energética e aumentar o uso de combustíveis alternativos, como o hidrogênio.

Legenda: Eventos extremos, como enchentes, devem se tornar mais comuns à medida que o planeta aquece Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil

História de terror – A menos que uma ação seja tomada em breve, algumas grandes cidades ficarão submersas, afirmou Guterres em uma mensagem de vídeo, que também prevê “ondas de calor sem precedentes, tempestades aterrorizantes, escassez generalizada de água e a extinção de um milhão de espécies de plantas e animais”.

O chefe da ONU acrescentou: “Isso não é ficção ou exagero. É o que a ciência nos diz que resultará de nossas atuais políticas energéticas. Estamos no caminho para o aquecimento global de mais que o dobro do limite de 1,5 grau Celsius que foi acordado em Paris em 2015″.

Questão urbana – Segundo os autores do relatório, uma parcela crescente das emissões pode ser atribuída a vilas e cidades. De forma igualmente preocupante, o relatório sinaliza que as reduções de emissões na última década “foram menores do que os aumentos de emissões, devido ao aumento dos níveis de atividade global na indústria, abastecimento de energia, transportes, agricultura e edifícios”.

De acordo com o novo, as emissões de gases de efeito estufa geradas pela atividade humana aumentaram desde 2010 “em todos os principais setores do mundo”. O documento é fruto do trabalho de centenas de cientistas independentes de todo mundo e foi aprovado por 195 países.

Sinais encorajadores – O painel de cientistas realça, no entanto, que é ainda é possível reduzir pela metade as emissões até 2030 e insta governos a intensificar as ações para reduzir as emissões.

Como exemplo dos avanços, os autores chamam atenção para a redução significativa no custo das fontes de energia renovável desde 2010, em até 85% para energia solar e eólica e baterias.

Apesar dos desafios, passos encorajadores vêm sendo dados. A redução significativa no custo das fontes de energia renovável desde 2010 é um exemplo.

Legenda: Apesar dos desafios, passos encorajadores vêm sendo dados. A redução significativa no custo das fontes de energia renovável desde 2010 é um exemplo Foto: © Abbie Trayler-Smith/UK Department for International Development

Incentivando a ação climática – De acordo com o presidente do IPCC, Hoesung Lee, o momento atual representa uma “encruzilhada”. “As decisões que tomamos agora podem garantir um futuro habitável”, disse Lee.

Ele se mostrou encorajado pela ação climática que está sendo tomada em muitos países. “Existem políticas, regulamentos e instrumentos de mercado que estão se mostrando eficazes. Se forem ampliados e aplicados de forma mais ampla e equitativa, podem apoiar reduções profundas de emissões e estimular a inovação”, afirmou.
Para limitar o aquecimento global a cerca de 1,5°C (2,7°F), o relatório do IPCC insiste que as emissões globais de gases de efeito estufa teriam que atingir o pico “antes de 2025, o mais tardar, e ser reduzidas em 43% até 2030”.

O metano também precisaria ser reduzido em cerca de um terço, de acordo com os autores do relatório. Ainda assim, mesmo que isso fosse alcançado, é “quase inevitável” que ultrapassemos temporariamente o limite de temperatura de 1,5 grau Celcius acima do período pré-industrial. No entanto, ainda seria possível retornar a um valor abaixo deste limite até o final do século.

Agora ou nunca – “É agora ou nunca, se quisermos limitar o aquecimento global a 1,5°C; sem reduções imediatas e profundas de emissões em todos os setores, será impossível”, disse Jim Skea, copresidente do Grupo de Trabalho III do IPCC, responsável pelo último relatório.

De acordo com o relatório, que reúne as melhores evidências científicas disponíveis, as temperaturas globais se estabilizarão quando as emissões de dióxido de carbono atingirem zero líquido. Para 1,5°C, isso significa atingir emissões líquidas zero de dióxido de carbono globalmente no início da década de 2050; para 2°C, é no início da década de 2070.

“Esta avaliação mostra que limitar o aquecimento a cerca de 2°C ainda exige que as emissões globais de gases de efeito estufa atinjam o pico antes de 2025, o mais tardar, e sejam reduzidas em um quarto até 2030”, ressalta Skea.

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Base da política – As avaliações do IPCC são muito importantes porque fornecem aos governos informações científicas que podem ser usadas para desenvolver políticas climáticas. Eles também desempenham um papel fundamental nas negociações internacionais para combater as mudanças climáticas.

Entre as soluções sustentáveis e de redução de emissões disponíveis para os governos, o relatório do IPCC enfatizou que repensar como as cidades e outras áreas urbanas funcionarão no futuro pode ajudar significativamente a mitigar os piores efeitos das mudanças climáticas.

“Essas (reduções) podem ser alcançadas por meio de menor consumo de energia (como a criação de cidades compactas e caminháveis), eletrificação do transporte em combinação com fontes de energia de baixa emissão e maior absorção e armazenamento de carbono usando a natureza”, sugeriu o relatório, que apresenta opções para cidades estabelecidas, de rápido crescimento e novas.
“As mudanças climáticas são o resultado de mais de um século padrões insustentáveis de energia, uso da terra, estilos de vida, consumo e produção”, resumiu Skea. “Este relatório mostra como agir agora pode nos levar a um mundo mais justo e sustentável.”

Sobre o IPCC – O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é o órgão da ONU para avaliar a ciência relacionada às mudanças climáticas. Foi estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) em 1988 para fornecer aos líderes políticos avaliações científicas periódicas sobre as mudanças climáticas, suas implicações e riscos, bem como propor estratégias de adaptação e mitigação. No mesmo ano, a Assembleia Geral da ONU endossou a ação da OMM e do PNUMA em estabelecer conjuntamente o IPCC, que atualmente tem 195 Estados-membros.

Milhares de pessoas de todo o mundo contribuem para o trabalho do IPCC. Para os relatórios de avaliação, os especialistas oferecem seu tempo como autores do IPCC para avaliar os milhares de artigos científicos publicados a cada ano para fornecer um resumo abrangente do que se sabe sobre os impulsionadores das mudanças climáticas, seus impactos e riscos futuros e como a adaptação e a mitigação podem reduzir esses riscos.

Fonte: ONU Brasil

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O aumento da frequência de derretimento extremo de gelo na Groenlândia aumenta o risco de inundação global

O aumento da frequência de derretimento extremo de gelo na Groenlândia aumenta o risco de inundação global

O aquecimento global fez com que eventos extremos de degelo na Groenlândia se tornassem mais frequentes e intensos nos últimos 40 anos, de acordo com novas pesquisas, aumentando o nível do mar e o risco de inundações em todo o mundo.

O aquecimento global fez com que eventos extremos de degelo na Groenlândia se tornassem mais frequentes e intensos nos últimos 40 anos, de acordo com novas pesquisas, aumentando o nível do mar e o risco de inundações em todo o mundo.

Somente na última década, 3,5 trilhões de toneladas de gelo derreteram da superfície da ilha e fluíram morro abaixo para o oceano. Isso é gelo derretido suficiente para cobrir todo o Reino Unido com cerca de 15 metros de água do degelo, ou cobrir toda a cidade de Nova York com cerca de 4.500 metros.

O novo estudo, liderado pela Universidade de Leeds, é o primeiro a usar dados de satélite para detectar esse fenômeno – conhecido como escoamento da camada de gelo – do espaço.
As descobertas, publicadas na Nature Communications, revelam que o escoamento da água de degelo na Groenlândia aumentou 21% nas últimas quatro décadas e se tornou 60% mais irregular de um verão para o outro.

O autor principal, Dr. Thomas Slater, pesquisador do Centro de Observação e Modelagem Polar da Universidade de Leeds, disse: “Como vimos em outras partes do mundo, a Groenlândia também é vulnerável a um aumento de eventos climáticos extremos.

“À medida que nosso clima esquenta, é razoável esperar que os casos de derretimento extremo na Groenlândia aconteçam com mais frequência – observações como essas são um passo importante para nos ajudar a melhorar os modelos climáticos e prever melhor o que acontecerá neste século.”

Crédito: © smallredgirl / stock.adobe.com

O estudo, financiado pela Agência Espacial Europeia (ESA) como parte do seu projeto Polar + Surface Mass Balance Feasibility, usou medições da missão do satélite CryoSat-2 da ESA. A pesquisa mostra que, na última década (2011 a 2020), o aumento do escoamento da água de degelo da Groenlândia elevou o nível do mar global em um centímetro. Um terço desse total foi produzido em apenas dois verões quentes (2012 e 2019), quando as condições climáticas extremas levaram a níveis recordes de derretimento de gelo nunca vistos nos últimos 40 anos.

O aumento do nível do mar causado pelo derretimento do gelo aumenta o risco de inundações para as comunidades costeiras em todo o mundo e perturba os ecossistemas marinhos do Oceano Ártico, dos quais as comunidades indígenas dependem para se alimentar. Ele também pode alterar os padrões de circulação oceânica e atmosférica que afetam as condições climáticas em todo o planeta.
Durante a última década, o escoamento da Groenlândia foi em média 357 bilhões de toneladas por ano, atingindo um máximo de 527 bilhões de toneladas de gelo derretido em 2012, quando mudanças nos padrões atmosféricos fizeram com que o ar incomumente quente ocupasse grande parte do manto de gelo. Isso foi mais do que o dobro do escoamento mínimo de 247 bilhões de toneladas ocorrido em 2017.

As mudanças estão relacionadas a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, que se tornaram mais frequentes e agora são a principal causa da perda de gelo da Groenlândia por causa do escoamento que produzem.

O Dr. Slater disse: “Há, no entanto, razões para ser otimista. Sabemos que definir e cumprir metas significativas para reduzir as emissões poderia reduzir as perdas de gelo na Groenlândia por um fator de três, e ainda há tempo para conseguir isso.”

Essas primeiras observações do escoamento da Groenlândia do espaço também podem ser usadas para verificar como os modelos climáticos simulam o derretimento da camada de gelo que, por sua vez, permitirá melhores previsões de quanto a Groenlândia aumentará o nível do mar global no futuro à medida que eventos climáticos extremos se tornem mais comuns.

O co-autor do estudo, Dr. Amber Leeson, professor sênior em Ciência de Dados Ambientais na Universidade de Lancaster, disse:

“As estimativas do modelo sugerem que o manto de gelo da Groenlândia contribuirá com cerca de 3 a 23 cm para o aumento do nível do mar global em 2100. “Essa previsão tem uma ampla gama, em parte por causa das incertezas associadas à simulação de processos complexos de derretimento de gelo, incluindo aqueles associados a condições meteorológicas extremas. Essas novas estimativas espaciais de escoamento nos ajudarão a entender melhor esses processos complexos de derretimento de gelo, melhorar nossa capacidade de modelá-los e, assim, permitir-nos refinar nossas estimativas de aumento futuro do nível do mar. “

Finalmente, o estudo mostra que os satélites são capazes de fornecer estimativas instantâneas do derretimento do gelo no verão, o que apoia os esforços para expandir a capacidade hidrelétrica da Groenlândia e a ambição da Europa de lançar a missão CRISTAL para suceder ao CryoSat-2.

O gerente da missão CryoSat da ESA, Tommaso Parrinello, disse:
“Desde que foi lançado há mais de 11 anos, o CryoSat rendeu uma riqueza de informações sobre nossas regiões polares em rápida mudança. Este satélite notável continua sendo a chave para a pesquisa científica e os fatos indiscutíveis, como essas descobertas sobre o escoamento da água de degelo, que são tão importantes para tomada de decisões sobre a saúde do nosso planeta.

“Olhando mais para o futuro, a missão de expansão do Copernicus Sentinel CRISTAL garantirá que o gelo vulnerável da Terra seja monitorado nas próximas décadas. Nesse ínterim, é imperativo que o CryoSat permaneça em órbita o máximo possível para reduzir a lacuna antes dessas novas missões Copernicus que estão em operação. “

Fonte da história:
Materiais fornecidos pela University of Leeds. Nota: o conteúdo pode ser editado quanto ao estilo e comprimento.

O Oceano Ártico começou a ficar mais quente décadas antes do que pensávamos

O Oceano Ártico começou a ficar mais quente décadas antes do que pensávamos

Um grupo internacional de pesquisadores reconstruiu a história recente do aquecimento do oceano na porta de entrada para o Oceano Ártico, em uma região chamada Estreito de Fram, entre a Groenlândia e Svalbard.

Usando as assinaturas químicas encontradas em microrganismos marinhos, os pesquisadores descobriram que o Oceano Ártico começou a aquecer rapidamente no início do século passado, à medida que águas mais quentes e salgadas fluíram do Atlântico – um fenômeno chamado Atlantificação – e que essa mudança provavelmente precedeu o aquecimento documentado por medidas instrumentais modernas. Desde 1900, a temperatura do oceano aumentou cerca de 2 graus Celsius, enquanto o gelo marinho recuou e a salinidade aumentou.

Os resultados, relatados na revista Science Advances, fornecem a primeira perspectiva histórica sobre a atlantificação do oceano Ártico e revelam uma conexão com o Atlântico Norte muito mais forte do que se pensava. A conexão é capaz de moldar a variabilidade climática do Ártico, o que pode ter implicações importantes para o recuo do gelo marinho e aumento do nível do mar global à medida que as camadas de gelo polares continuam a derreter.

Todos os oceanos do mundo estão esquentando devido às mudanças climáticas, mas o Oceano Ártico, o menor e mais raso dos oceanos do mundo, está esquentando mais rápido de todos.
“A taxa de aquecimento no Ártico é mais do que o dobro da média global, devido aos mecanismos de feedback”, disse o co-autor Dr. Francesco Muschitiello, do Departamento de Geografia de Cambridge. “Com base em medições de satélite, sabemos que o oceano Ártico tem se aquecido continuamente, em particular nos últimos 20 anos, mas queríamos colocar o aquecimento recente em um contexto mais longo.”

A atlantificação é uma das causas do aquecimento no Ártico, porém os registros instrumentais capazes de monitorar esse processo, como os satélites, datam de apenas cerca de 40 anos.
À medida que o oceano Ártico fica mais quente, o gelo da região polar derrete, o que, por sua vez, afeta os níveis globais do mar. Conforme o gelo derrete, ele expõe mais a superfície do oceano ao sol, liberando calor e elevando a temperatura do ar. À medida que o Ártico continua a aquecer, derrete o permafrost, que armazena grandes quantidades de metano, um gás de efeito estufa muito mais prejudicial do que o dióxido de carbono.

Os pesquisadores usaram dados geoquímicos e ecológicos de sedimentos oceânicos para reconstruir a mudança nas propriedades da coluna de água nos últimos 800 anos. Eles dataram os sedimentos com precisão usando uma combinação de métodos e buscaram sinais diagnósticos de atlantificação, como mudança de temperatura e salinidade.

“Quando olhamos para toda a escala de tempo de 800 anos, nossos registros de temperatura e salinidade parecem bastante constantes”, disse o co-autor Dr. Tesi Tommaso do Instituto de Ciências Polares do Conselho Nacional de Pesquisa em Bolonha. “Mas, de repente, no início da 20 ª século, você recebe essa mudança marcada na temperatura e salinidade – ele realmente se destaca.”


“A razão para esta rápida atlantificação no portal do Oceano Ártico é intrigante”, disse Muschitiello. “Comparamos nossos resultados com a circulação do oceano em latitudes mais baixas e descobrimos que há uma forte correlação com a desaceleração da formação de água densa no Mar de Labrador. Em um cenário de aquecimento futuro, a circulação profunda nesta região subpolar deverá diminuir ainda mais porque do degelo da camada de gelo da Groenlândia. Nossos resultados sugerem que podemos esperar mais Atlântida do Ártico no futuro devido às mudanças climáticas. “

Os pesquisadores afirmam que seus resultados também expõem uma possível falha nos modelos climáticos, por não reproduzirem essa atlantificação inicial do início do século passado.

“As simulações climáticas geralmente não reproduzem esse tipo de aquecimento no Oceano Ártico, o que significa que há um entendimento incompleto dos mecanismos que impulsionam a Atlântida”, disse Tommaso. “Contamos com essas simulações para projetar mudanças climáticas futuras, mas a falta de quaisquer sinais de um aquecimento precoce no Oceano Ártico é uma peça que faltava no quebra-cabeça.”

Fonte: University of Cambridge.