Viagem no tempo e no espaço a São Fidélis

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Viagem no tempo e no espaço a São Fidélis

Embarco na expedição do naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied, príncipe de um Estado alemão antes da unificação do país. Maximiliano saiu do Rio de Janeiro numa caravana formada por escravos, caçadores, batedores e Sellow e Freyreiss, dois colegas seus também alemães e naturalistas, que já conheciam o Brasil. A expedição começou no Rio de Janeiro e acabou em Salvador, prolongando-se de 1815 a 1817. Ela seguiu a costa brasileira com algumas entradas para o interior.

Na altura de Barra do Furado, o príncipe e sua comitiva tomaram a estrada em direção a Campos dos Goytacazes e daí até São Fidélis. Não havia propriamente uma estrada, mas apenas uma trilha que permitia percorrer de Nova Friburgo a São João da Barra. Em 1837, o Major Henrique Luis de Bellegarde e Niemeyer deu notícia dela em seu relatório sobre a 4ª seção. Ela serviu de base para a construção da RJ-158. (Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro Apresentado à Respectiva Diretoria em Agosto de 1837. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I.F. da Costa, 1837).

Como historiador ambiental, eu estava em espírito como Maximiliano. Cruzei os rios outrora volumosos, como os Rios do Colégio e Pedra d’Água. Ainda hoje, me emociono com as anotações que ele deixou no seu diário de viagem, como estas abaixo:

“Após atravessarmos agradável região cheia de aspectos variados, atingimos a fazenda do Colégio, já ao anoitecer; seguimos, porém, antes que ficasse completamente escuro, até o pequeno rio do Colégio, que éramos obrigados a transpor. Os cavalos e burros tiveram que deslizar por forte rampa, que a chuva tornara de todo escorregadia, e alguns rolaram por ela abaixo. Contudo, passamos sem novidade a profunda e rápida corrente, embora ficássemos completamente encharcados. Logo penetramos numa densa floresta, à margem do rio, que prosseguiu, durante légua e meia, até S. Fidélis. Era, então, noite fechada e a trilha, muito estreita, passando, muitas vezes, sobre a própria barranca íngreme do rio, era inóspita e obstruída pela galharia seca e as árvores tombadas. O soldado, que conhecia bem o caminho, cavalgava adiante, e constantemente apeava, com o nosso pessoal, para remover os obstáculos, o que nos obrigou, muitas vezes, a afastar os cavalos a boa distância. Chegamos, por fim, a uma brusca e profunda ribanceira, atravessada por estreita ponte constituída por três troncos de árvores. Puseram nela uma série de travessas, para garantir marcha mais firme aos animais; apesar disso, escorregaram em várias ocasiões; e alguns quase caíram. Com um pouco de paciência, conseguimos, felizmente, superar mais essa dificuldade. Nas sombras da floresta, esvoaçavam inúmeros insetos luminosos, gritavam curiangos, grandes cigarras se ouviam a extraordinária distância, e a estranha toada de um exército de rãs ressoava nas trevas noturnas da brenha solitária. Alcançamos, afinal, um campo à beira do rio, e achamo-nos de repente no meio das malocas dos índios Coroados de S. Fidélis.” (Viagem ao Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia, Edusp, 1989).

Em São Fidélis, que à época não passava de uma aldeia cercada por densas matas, uma redução indígena, como se chamava, fundada pelos missionários capuchinos Angelo de Lucca e Vitorio de Cambiasca para proteger os índios dos brancos, acompanhei o interesse do Príncipe em seus desenhos. Ele não desenhava bem. Seus registros iconográficos foram refeitos na Europa por um artista desconhecido. Ele desenhou a Igreja Matriz em meio às florestas e uma casa de campo, reproduzida abaixo.

Sede de fazenda à margem do Paraíba do Sul em São Fidélis registrada por Maximiliano de Wied-Neuwied em 1815.
Sede de fazenda à margem do Paraíba do Sul em São Fidélis registrada por Maximiliano de Wied-Neuwied em 1815.

Ele visitou as aldeias dos puris, coroados e coropós, já aculturados. Naquele tempo, não havia nenhuma ponte para cruzar o rio. Era preciso fazê-lo de canoa. Na margem esquerda do Paraíba do Sul, ainda não havia o bairro de Ipuca. Toda a área era coberta por florestas. A comitiva de Maximiliano fez contato com índios puris semiaculturados. Na ocasião, Freyreiss comprou um adolescente puri. Não gostei disso, mas não falei nada. Afinal, era costume da época. Os índios o venderam sem nenhum remorso, e o adolescente partiu com o naturalista demonstrando total indiferença com seu povo.

Na margem esquerda do rio, Maximiliano anotou a presença de “Sombrias, densas, altas florestas que se alternam com verdejantes colinas, que se abeiram do rio e nas quais existem numerosas fazendas. Em alguns lugares, essas matas imensas e românticas vão longe, acompanhando o rio, e se estendem, sem interrupção, pelo interior adentro. Do cume sobranceiro das montanhas, divisam-se, embaixo, vales umbrosos interceptando o ermo agreste, completamente cobertos pelos altaneiros gigantes da floresta, e cujo silêncio só de raro em raro é quebrado pelas passadas do Puri saqueador e solitário. Penetramos, em seguida, numa sombria e majestosa floresta, onde voejavam lindíssimas borboletas.”

Depois, o grupo voltou de novo à margem direita, despediu-se dos seus anfitriões e retornou à margem esquerda, partindo para Campos. Mesmo sabendo de São José de Lionissa da Aldeia da Pedra, atual Itaocara, o príncipe não quis ir até lá. Mais tarde, em meados do século XIX, fui até lá encontrar-me com Burmeister, outro naturalista alemão. Relato este encontro em outro artigo.

Refletindo sobre o que Maximiliano escreveu sobre a paisagem divisada em São Fidélis em outubro de 1815, quando o “rio estava na extrema vazante”, à espera da “estação chuvosa” em “dezembro e janeiro”, quando o rio “transborda e inunda grande extensão da margens”, pensei como a paisagem mudou para pior. Em meados do século XIX, voltei a São Fidélis na companhia do revolucionário francês Charles Ribeyrolles e seu amigo o desenhista e pintor Victor Frond.

São Fidélis já estava muito mudada. O desmatamento já era considerável e a urbanização já havia crescido bastante. Ribeyrolles formulou um plano para o desenvolvimento da região no qual um dos pilares era a navegação do Paraíba do Sul da foz ao último desnível do rio (salto) em São Fidélis. Naquela ocasião, Frond fez alguns desenhos da vila a partir de Ipuca, que já contava com algumas casas.

São Fidélis vista por Victor Frond de Ipuca em meados do século XIX
São Fidélis vista por Victor Frond de Ipuca em meados do século XIX

Conheci São Fidélis em 1966. Posso dizer que morei em São Fidélis entre 1967 e 1970. Voltei a São Fidélis muita e muitas vezes desde então. Cada vez que retono à cidade, sinto-me mais melancólico. O município não tem mais o encanto do tempo de Maximiliano, de Ribeyrolles e do meu tempo. Os Rios do Colégio e Pedra d’Água estão sem mata ciliar, sua água cada vez mais barrenta e seu leito mais assoreado.

Os famosos valões do Norte-Noroeste fluminense estão desmatados e poluídos. São Fidélis padece de uma estiagem atroz, tanto quanto os demais município da região. Seu prefeito, inclusive, já decretou situação de emergência. São Francisco de Itabapoana, que também fascinou Maximiliano, segue o mesmo caminho.

Rio do Colégio em foto do autor
Rio do Colégio em foto do autor
Rio Pedra d'Água em foto do autor
Rio Pedra d'Água em foto do autor

Na longa estiagem vivida pela Região Sudeste, os rios, incluindo o Paraíba do Sul, enfrentam uma longa seca de 10 meses. Tudo indica que os efeitos das mudanças climáticas já se fazem sentir. Por outro lado, a Amazônia já não cumpre devidamente seu papel de abastecedor do Sudeste. E a Bacia do Paraíba foi toda desmatada, erodida e assoreada.

Visão do Rio Paraíba do Sul nas imediações de São Fidélis em foto do autor
Visão do Rio Paraíba do Sul nas imediações de São Fidélis em foto do autor
Pequeno valão em Ipuca poluído e completamente desmatado.
Pequeno valão em Ipuca poluído e completamente desmatado.

Movimento do Consórcio do Caparaó criou a identidade da região

Movimento do Consórcio do Caparaó criou a identidade da região

Na época que a movimentação surgiu para transformar uma área linda em turismo e preservação, quase não existiam estradas, telefone, consciência ambiental e poucos moradores entendiam a importância do Parque Nacional do Caparaó, no Sul do Espírito Santo. Já se passaram 26 anos, depois que pessoas resolveram lutar pelo Caparaó Capixaba, muita coisa aconteceu, entre as vitórias está a abertura da Portaria Capixaba, em Pedra Menina, Dores do Rio Preto, no ano de 1997. Mas a principal premiação é ver na comunidade a sensação de pertencimento, o amor que transforma e cuida, sem falar que muita gente chegou para fazer história nessas terras. Desafios? Ainda são muitos, mas o crescimento do lugar já pode ser visto na última década.

Ninguém melhor do que Dalva Ringuier, que foi Diretora do Consórcio do Caparaó por anos, e também que foi protagonista nesta história, para relembrar e valorizar cada passo feito nesta estrada. Hoje, ela não está mais no Consórcio do Caparaó, seguiu outros rumos, mas mora no limite de dois municípios, Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço e bem aos pés, do Parque Nacional do Caparaó. Os processos vêm se aperfeiçoando, pessoas novas chegando e também deixando marcas.

“Tudo começou com um processo histórico chamado Fórum Caparaó, em 1995, planejamos um Modelo de Desenvolvimento que a região tivesse. Não tinha turismo, internet, estrada e ninguém tinha ouvido falar dessas questões climáticas, de como o Parque Nacional influenciava a vida das pessoas. Trabalhamos no Fórum no Dia Mundial do Meio Ambiente, reunindo sete municípios na rede Gazeta, em Vitória. Todos os municípios assinaram um protocolo de intenção. Várias outras entidades vieram para fortalecer, na medida que fomos avançando, foram surgindo propostas e desafios. Fomos então a Brasília, no dia 22 de setembro de 1998”, destaca Dalva.

Cama e Café

Uma completa mudança na região, mas se não tinha estrada, celular e circuitos, onde as pessoas iriam se hospedar? Foi então que surgiu o Cama e Café, donos de propriedades abriram as portas para receber visitantes, eles dormiam, tomavam café e ainda desfrutavam do que o Caparaó tem de melhor: a hospitalidade. Essa forma acolhedora de receber os visitantes, como amigos que sempre querem o melhor. Esse projeto quase não existe mais na região, mas virou modelo e seguiu para muitos lugares, um exemplo aconteceu no bairro de Santa Tereza, na capital do Rio de Janeiro.

“Fizemos muitas ações durante esses anos, projetos de turismo na região, ouve o despertar dos locais, pessoas novas chegaram e novas ações também foram feitas. Hoje, o Café é reconhecido internacionalmente. Tudo valeu a pena, mesmo as coisas que deixam um pouco de angústia. Tem dois anos que sai da Diretoria do Consórcio do Caparaó. Sou muito feliz por morar no pé do Parque Nacional do Caparaó e em dois municípios”, lembra Dalva.

Bilhetes no leite

Se hoje temos o whastaap e todas as redes sociais para a comunicação, naquela época da implementação das ideias, mal existia o telefone fixo na região. Os idealizadores inventaram um sistema chamado carinhosamente por eles de: interleite. Foram os bilhetes que eram mandados no carro do leite. “Só para lembrar o Fórum era Itinerante, ele circulou durante três anos em todos os municípios da região, chegando aos 11. Não tínhamos comunicação nenhuma na época, então, os bilhetes através do carro do leite deram certo, tanto que conseguíamos reunir até 600 pessoas, o que hoje mesmo com toda tecnologia é quase impossível.

Foi assim que o Consórcio começou a ter mais voz, a região que não tinha identidade, apenas conhecida como Sul do Espírito Santo, se tornou o Caparaó Capixaba. Apoio importante dado pela Assembléia Legislativa da época. Foi feito os Planos de Desenvolvimento de cada município, tudo foi pensado, do saneamento até os cursos de educação ambiental que aconteciam todos os anos. Sem falar que na cultura o Consórcio também deixou suas marcas, o “Mova Caparaó” exibiu 90 documentários de contos e casos verídicos do Caparaó.

Novos desafios

Muitas coisas que estão acontecendo preocupam quem começou todo esse movimento na região, mais do que nunca é preciso que as autoridades de cada um dos 11 municípios que fazem parte do Caparaó Capixaba cobrem os licenciamentos devidos, para que a área tenha ordenamento de fato. “As pessoas estão comprando terrenos, sem ordenamento do solo, fazendo construções irregulares. Não está sendo feito um controle das construções em áreas de APP e também em áreas de risco. A questão do lixo é um grande desafio, a população precisa ter conhecimento suficiente para saber descartar corretamente o lixo seco e o úmido. Resíduos sólidos e também fazer o planejamento urbano, o lixo está indo todo misturado. O lixo é nosso e não é da Prefeitura”, reclama Dalva.

Ainda de acordo com Dalva, as pessoas que vivem na zona rural não têm tratamento de água, até porque recebem do que vem na fonte, das nascentes. Mas o esgoto e o lixo são grandes desafios, está saindo um projeto do Banco Mundial chamado “Águas e Paisagem”, que vai contemplar os municípios de Dores do Rio Preto, Divino de São Lourenço, Iúna, Irupi e Ibatiba. Tudo praticamente pronto para começar a funcionar. Esse projeto pode marcar época e transformar a vida das comunidades.

Saiba mais:


A microrregião Caparaó, no lado do Espírito Santo, é composta de 11 (onze) municípios que são: Alegre, Divino de São Lourenço, Dores do Rio Preto, Guaçuí, Ibatiba, Ibitirama, Irupi, Iúna, Muniz Freire, São José do Calçado e Jerônimo Monteiro.

Perfazendo uma área de 3.426 Km2, representando cerca de 8% do território do Estado Santo, possuindo uma população em torno de 171.189 hab (IBGE, 2007), do total da população 45% encontram-se no meio urbano e 55% no meio rural. Esta região abriga O PARNA CAPARAÓ com uma área de 31.000 ha.

Maior “caixa d´água” do Espírito Santo, o Caparaó abriga as bacias hidrográficas dos rios Itapemirim, Itabapoana e Santa Maria do Rio Doce, afluente do Rio Doce, além da maior unidade de conservação do estado, onde a Mata Atlântica pulsa exuberante, com toda a sua biodiversidade e belezas naturais.


Fonte: Consórcio do Caparaó
Fotos: arquivo pessoal, foto facebook Consórcio Caparaó.

Lagoas de planície aluvial do norte fluminense

planície dos Goytacazes
Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Lagoas de planície aluvial do norte fluminense

É preciso atenção para conhecer a planície dos Goytacazes. É mais adequado denomina-la planície dos Goytacazes que planície de Campos, já que o território total ou parcial dos municípios de São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, Quissamã, Carapebus e Macaé formou-se sobre ela. Mais uma vez, num intuito educacional, pede-se ao leitor para perceber o que tem sob seus pés e diante dos seus olhos. A planície dos Goytacazes foi formada com sedimentos transportados da zona serrana e dos tabuleiros principalmente pelo rio Paraíba do Sul, mas não apenas. É a parte fluvial dela. A outra é formada por areia depositada pelo mar. Trata-se de uma obra colossal construída pelo rio Paraíba do Sul e mar companhia limitada. Toda obra humana sobre esse planície é insignificante diante do que a natureza construiu. Por isso, os habitantes da planície deveriam ter por ela um grande respeito, e não destruí-la pouco a pouco, a exemplo do que acontece há quase cinco séculos.

Quando o mar começou a descer, a partir de 5.100 anos antes do presente, os rios Paraíba do Sul, Imbé, Urubu e Preto principalmente foram avançando sobre a laguna formada por águas oceânicas. O grande aterro construído por esses rios não foi nivelado. Ele apresentou uma declividade de 10 metros ou mais para zero. Quem corre o cursor do Google Earth sobre Campos, encontrará um altitude média de 10 metros. Sobre as praias da região, o nível será 0.

A maior planície do atual estado do Rio de Janeiro é um grande plano inclinado com depressões em que se formaram lagoas em número tão elevado que, na estação chuvosa, elas transbordavam e constituíam um grande pantanal. Só na estação seca era possível perceber o perímetro dessas lagoas. Os divisores de água são muito baixos na planície, de forma tal que só com muita atenção devem ser considerados. Na verdade, não se pode considerar como divisor de águas elevações mínimas.

Outro aspecto a ser observado é que o rio Paraíba do Sul corre em plano ligeiramente mais baixo que sua margem esquerda e ligeiramente mais alto que sua margem direita. Assim, as águas que transbordam pela margem esquerda costumam ficar retidas em lagoas, retornando o excedente para o rio quando seu nível desce. Pela margem direita, as águas transbordadas não voltam mais quando da estiagem. Daí a existência de um maior número de drenos naturais e de lagoas na margem direita. As águas transbordadas derivavam por esses drenos (defluentes) e acumulavam-se em lagoas. O excedente rumava para o rio Iguaçu, que nascia na lagoa Feia, formava um intrincado sistema de ramificações e chegava ao mar. Hoje, ele se transformou na lagoa do Açu, em parte na planície aluvial, em parte na restinga. As águas do Paraíba do Sul também correm pelo lençol subterrâneo.

planície dos Goytacazes
Desnível do Paraíba do Sul para a lagoa Feia segundo Saturnino de Brito

Entre o rio Paraíba do Sul e a lagoa Feia, existia um incontável número de lagoas. Várias se destacavam. De oeste para leste e do norte para o sul, podemos arrolar as lagoas de Cacumanga, do Saco, Caraca, Piabanha, Frecheira, Cachorangongo, Barata, Frecheiras, Camará, Concha, Capim, Carioca, Vermelha, Colhereiras, Sussunga, Vermelha, Aboboreira, Assuxinho, Goiaba, Junjuca, Rasa, Pinão, Sabão, Coqueiros, Capado, Tucum, Colomins, do Jorge, Capões, Bananeiras, Peru, Mergulhão, Cambaíba, as lagoas gêmeas de Saquarema, Jacarés, Seca, Capim, Baixão, do Salgado, Ciprião, Mulaco, Feia, Luciano, Dentro, Ribeira e muitas outras cujos nomes foram esquecidos.

planície dos Goytacazes
Lagoas de planície aluvial segundo Alberto Ribeiro Lamego (Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955)

Entre todas, destacava-se a grande lagoa Feia, que foi descrita pela primeira vez em 1632 no famoso “Roteiro dos Sete Capitães”: “Era um grandíssimo lago ou lagoa d’água doce, a qual estava tão agitada com o vento sudoeste, tão crespas suas águas e tão turvas que metiam horror: aonde lhe demos o apelido de Lagoa-feia. Neste mesmo lugar vimos as suas embarcações de pesca; três traves de paus aguçados nas cabeças para cortar as águas e atados com umas travessas nas mesmas cabeças, era formada a dita embarcação; a forma de jangada porém muito bem organizada” (GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012).

 

planície dos Goytacazes
Carta do Distrito dos Campos Goytacazes, desenhada por Couto Reis em 1785

Daí em diante, todos escreveram sobre a lagoa Feia. O padre Simão de Vasconcellos, em 1658, considerava-a uma espécie de joia encravada numa terra ocupada pelo povo mais selvagem do mundo – os índios Goitacazes (“Vida do P. Joam d’Almeida da Companhia de Iesu, na Provincia, composta pello padre Simão de Vasconcellos da mesma Companhia, provincial na dita provincia do Brazil. Dedicada ao Senhor Salvador Correa de Sá, & Benavides dos Conselhos de Guerra, & Ultramarino de Sua Magestade. Lisboa, 1658). André Martins da Palma, em 1657, viu nela um grande potencial econômico (Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos Campos dos Goytacazes em 1657. Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, t. 47, parte 1,1884). O primeiro cartógrafo a registrá-la em detalhes, assim como todo o maravilhoso caos de canais naturais e lagoas no seu entorno, foi Manoel Martins do Couto Reis, em 1785 (Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis 1785. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011). O primeiro mapa utilizando o sistema métrico decimal para a planície foi desenhado pelo engenheiro Marcelino Ramos da Silva, em 1896. Ele atribuía à lagoa uma superfície de 370 km². Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, na década de 1920, estimou que sua área contava com 335 km² (“Defesa contra Inundações: Melhoramentos do Rio Paraíba e da Lagoa Feia”). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944). Em 2000, ela estava reduzida a 170 km². Essa redução se deve a dois processos concomitantes: a drenagem das lagoas que se associavam a ela e a invasão do seu leito por proprietários de suas margens através de diques.

planície dos Goytacazes
Mapa da planície dos Goytacazes elaborado por Marcelino Ramos da Silva em 1896

Em 2008/2009, a grande enchente do sistema Ururaí provocou a expansão do seu espelho d’água. A justiça federal autorizou, então, a detonação de cinco diques em seu interior. Apenas quatro foram detonados. A lagoa recuperou cerca de 30 km². Treze anos depois, parece que as invasões voltam aos poucos.

A grande Região dos Lagos

A grande Região dos Lagos
Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A grande Região dos Lagos

Examinando a costa fluminense, notamos que, da divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro à baía da Guanabara, a zona serrana confina com o mar. A poucos quilômetros da linha de costa são alcançadas grandes altitudes. A proximidade entre a Serra do Mar e as praias não permitiu o desenvolvimento de grandes rios. Eles nascem na vertente atlântica da montanha, descem sua encosta, formam pequenas planícies e desembocam no mar. Na direção da baía da Guanabara, notamos a formação de restingas maiores que afastarão o mar da serra. Constituiu-se, nas imediações da Guanabara, a baixada de Sepetiba, com a típica restinga da Marambaia e algumas lagoas na Tijuca. Este é o primeiro setor da costa fluminense para fins de nossas análises, embora oceanógrafos, geólogos e geógrafos reconheçam mais detalhes.

A grande Região dos Lagos
Rio Peraquê-Açu, às margens do qual ergue-se a histórica cidade de Parati. Ele pode ser tomado como limite meridional da zona costeira fluminense

Da baía da Guanabara ao rio Macaé, partem ramificações da Serra do Mar no sentido perpendicular ao oceano que favoreceram a formação de restingas. Estruturas pedregosas dentro do mar, como ilhas costeiras, constituem espigões para a retenção de areia e a formação de restingas. Assim, a linha de costa vai se definindo. Em toda o litoral que se estende da baía de Guanabara ao rio Macaé, formaram-se lagoas paralelas à praia, como os complexos lagunares de Maricá e de Saquarema e a grande lagoa de Araruama. Alberto Ribeiro Lamego publicou em 1940 um trabalho sobre a formação de restingas que continua válido nos dias de hoje. Trata-se de “Restingas da Costa do Brasil” (Rio de Janeiro, Ministério da Agricultura, Departamento Nacional de Produção Mineral. Divisão de Geologia e Mineralogia, Bol. 96).

Maquete da Baía da Guanabara mostrando sua entrada estreita. Ela é tomada como divisor de dois setores do litoral fluminense

Formaram-se também lagoas perpendiculares à linha costeira. São antigos cursos d’água barrados pela força do mar em caráter permanente ou periódico. A ação humana também contribuiu para que córregos se transformassem em lagoas alongadas. O desmatamento e os barramentos reduziram o fluxo hídrico, permitindo que o mar tapasse as desembocaduras desses pequenos rios. Formaram-se, assim, lagoas alongadas, como as de Iriri, Itapebussus e Imboacica. Em razão de uma certa unidade fisionômica na costa entre a baía da Guanabara e o rio Macaé, entendemos a Região dos Lagos não apenas como o trecho costeiro entre a Guanabara e o rio Una, mas, de forma ampliada, entre a Guanabara e o rio Macaé. Este é o segundo segmento da costa fluminense para os fins deste artigo.

Foz do rio Macaé

Entre o rio Macaé e o rio Itapemirim, o segundo já no Espírito Santo, a zona costeira muda completamente de aspecto. Em 1848, José Saturnino da Costa Pereira escrevia que, nesse trecho, uma grande área baixa afasta o mar da serra (“Apontamentos para a formação de um roteiro das costas do Brasil com algumas reflexões sobre o interior das Províncias do litoral e suas produções”. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1848). Por outro lado, o geólogo canadense Charles Frederick Harrt entendeu, em 1870, que a serra se afastava do mar (“Geologia e Geografia física do Brasil”. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941). Estudos efetuados a partir de Alberto Ribeiro Lamego mostram que o rio Paraíba do Sul desempenhou papel fundamental na formação de uma grande planície que afastou a linha costeira da zona serrana (“O homem e o brejo”, 2ª ed. Rio de Janeiro: Lidador, 1974 e “Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé”. Boletim nº 154 da Divisão de Geologia e Mineralogia. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1955).

A tese atual sobre a formação dessa grande baixada foi formulada por Louis Martin, Kenitiro Suguio, José M.L. Dominguez e Jean-Marie Flexor (“Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo”. Belo Horizonte: CPRM. 1997). Há discordâncias acentuadas entre as duas teses, mas ambas concordam quanto ao papel desempenhado pelo rio Paraíba do Sul. Seu jato potente não apenas transportou sedimentos da zona serrana e dos tabuleiros para formar uma grande planície aluvial mas também funcionou como espigão hídrico para reter areia do mar e construir a maior restinga do Rio de Janeiro. Este é o terceiro segmento da costa fluminense, segundo o critério aqui adotado.

Os três setores da costa fluminense para fins do presente artigo

A partir do rio Itapemirim, afloramentos pedregosos voltam a aparecer nas praias e nas ilhas. Restingas formaram-se ao norte do rio pela retenção de estruturas pedregosas. Uma grande planície fluviomarinha só será encontrada novamente na bacia do rio Doce.

Foz do rio Itapemirim: o espigão da margem direita liga a foz a um ilhéu de pedra

Da divisa de São Paulo e Rio de Janeiro a Arraial do Cabo, o litoral descreve uma linha com orientação oeste-leste, cortada pelas reentrâncias das Baias da Ilha Grande, Sepetiba e Guanabara. Entre Arraial do Cabo e a Ponta da Sapata, a costa faz uma curva no sentido sudoeste-nordeste. Todo este litoral está exposto a fortes ondas e correntes marinhas. Da Ponta da Sapata à margem direita do Rio Macaé, forma-se uma grande e suave enseada onde a energia oceânica se abranda. Da margem esquerda do Rio Macaé ao Cabo de São Tomé, a costa descreve uma discreta linha inclinada no sentido sudoeste-nordeste. A partir do cabo de São Tomé, registra-se uma forte inflexão ns sentido setentrional.

Quanto à Região dos Lagos no sentido ampliado que aqui propomos, podem-se reconhecer quatro segmentos da grande enseada que se forma entre a Ponta da Sapata e o rio Macaé. Um estudo formulado sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente divide esse estirão costeiro em quatro segmentos que tomam como pontos de referência a Ponta da Sapata, o rio Una, o rio São João e o rio Macaé. Todos eles apresentam importância ecológica (“Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade das zonas costeira e marinha”. Brasília: MMA, 2002). Para fins da nossa análise, contudo, fiquemos com a divisão da costa fluminense e com a grande Região dos Lagos aqui propostas.

Grande Região dos Lagos: da baía da Guanabara ao rio Macaé

As lagoas de tabuleiros do norte fluminense

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

As lagoas de tabuleiros do norte fluminense

Descendo a serra do noroeste-norte fluminense e antes de chegar à planície, passa-se por uma zona ondulada cor de barro. Ela não contém pedras. Apenas concreções ferruginosas. Nas partes altas das ondulações (colinas), havia, no passado, pujantes florestas. Nas partes baixas, era comum formarem-se lagoas isoladas ou ligadas a algum rio. Há dez mil anos, os tabuleiros estendiam-se entre os rios Itapemirim e Macaé. Entre 7 mil e 5 mil anos passados, o mar avançou sobre a parte mais baixa dessa grande unidade de tabuleiros, provavelmente subindo o vale do Paraíba do Sul, e dividiu as Barreiras em duas partes. Uma se estende agora do rio Itapemirim à margem esquerda do rio Paraíba do Sul. A outra fica entre Quissamã e Macaé.

Lagoas de tabuleiros (ocre) em mapa de 1954 traçado por Alberto Ribeiro Lamego
Lagoas de tabuleiros (ocre) em mapa de 1954 traçado por Alberto Ribeiro Lamego

Convém que o possível leitor desse artigo comece a observar os terrenos onde pisa. Note as diferenças entre as margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul. Busque um terreno livre de cobertura urbana na margem direita e veja como ele é argiloso e plano. Na margem esquerda, não é difícil perceber as ondulações do terreno, sobretudo na estrada que liga Campos a São Francisco de Itabapoana. Depois, fique atento às diferenças de terreno na estrada para São Fidélis, onde começam a aparecer elevações pedregosas. Já estamos no domínio serrano. As escolas deviam estar empenhadas em ministrar esses ensinamentos.

Lagoas de tabuleiros do sul do Espírito Santo. Desenho de Leidiana A. Alves
Lagoas de tabuleiros do sul do Espírito Santo. Desenho de Leidiana A. Alves

Entre os rios Itapemirim e Guaxindiba, corriam riachos que desembocavam no mar. A colonização europeia devastou as florestas nesse trecho da costa, o que levou os córregos, entre outros motivos, a perderem força e serem barrados pelo mar. Hoje, alguns ainda têm um regime periódico. No outono-inverno, o mar obstrui suas desembocaduras. Na primavera-verão, as chuvas forçam a abertura das barras. Isto quando não ocorre abertura manual ou mecânica. Nesse estirão costeiro, a lagoa mais conhecidas é a do Siri. As de Caculucage e do Criador são as maiores. Já no estado do Rio de Janeiro, a maior lagoa nesse trecho da costa é a de Tatagiba, barrada pela atividade de mineração.

Lagoa de Caculucage, no sul do Espírito Santo
Lagoa de Caculucage, no sul do Espírito Santo

A partir do Guaxindiba, os pequenos rios que desciam das partes altas e desembocavam no mar foram barrados por uma grande restinga formada pelo Paraíba do Sul, restinga essa que afastou o mar das Barreiras. A lagoa do Campelo e o Brejo de Cacimbas, encerrados nessa restinga, passaram a receber as águas dos córregos de tabuleiro. A lagoa de Macabu, em São Francisco de Itabapoana, fluía para o brejo de Cacimbas. Esse brejo foi aproveitado para a abertura de um canal de navegação de mesmo nome no século XIX. Várias outras lagoas, tendo a grande lagoa da Saudade ao centro, fluem ainda para a lagoa do Campelo, que tem ligação com o Paraíba do Sul. A geógrafa Leidiana Alves demonstrou, de forma convincente, a ligação dessas lagoas de tabuleiros com a lagoa do Campelo em “Análise geossistêmica da variação temporo-espacial dos espelhos d’água das lagoas do sistema Campelo entre os anos de 2006 e 2015” (Campos dos Goytacazes: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense, 2016).

Visão aérea da lagoa das Pedras
Visão aérea da lagoa das Pedras

De todas as lagoas de tabuleiros, a mais urbanizada e conhecida da região é a lagoa do Vigário, em Guarus. Ela se comunicava com o rio Paraíba do Sul. Ela também se ligava a outras lagoas hoje pouco conhecidas, principalmente com a abertura do canal do Nogueira, no século XIX, que pretendia permitir a navegação entre o rio Paraíba do Sul e a lagoa do Campelo. Eram as lagoas Maria do Pilar, Olaria, Taquaruçu e Fogo. Quase todas foram soterradas pela cidade.

Vista aérea da lagoa do Vigário. Pressão urbana
Vista aérea da lagoa do Vigário. Pressão urbana

Seguindo em direção ao rio Muriaé, a bela lagoa do Cantagalo foi fragmentada em três. A lagoa das Pedras ainda conserva atributos que justificam a sua proteção. Já no vale do Muriaé, várias lagoas de tabuleiros se ligam a esse rio. A mais bela lagoa de tabuleiros de toda unidade aí se encontra. É a lagoa Limpa. Mais adiante, estão as lagoas do Lameiro e da Boa Vista, muito mutiladas pela agroindústria sucroalcooleira.

Uma grande lagoa à margem esquerda do rio Muriaé, já entre os tabuleiros e a região serrana, é a lagoa da Onça. Semelhante à lagoa de Cima em sua configuração, ela era formada pelo rio da Onça, que desce da serra de mesmo nome e alagava uma vasta depressão, formando a antiga lagoa da Onça. Na ponta sul desta, um extravasor, ainda com o nome de Onça, ligava a lagoa ao rio Muriaé. No caso da lagoa de Cima, seu principal alimentador é o rio Imbé e seu extravasor é o rio Ururaí. Houve um autor no passado que entendeu a lagoa de Cima como o rio Imbé grávido e o Ururaí como continuação do Imbé.

Lagoa Limpa
Lagoa Limpa

No século XIX, o trecho do rio da Onça entre o Muriaé e a lagoa foi aproveitado como canal de navegação para o transporte de lenha e madeira, pois as florestas eram abundantes. Pequenos rebocadores subiam o canal, atravessavam a lagoa e entravam no trecho superior do rio da Onça, onde foi instalado um ancoradouro batizado de porto da Madeira. No século XX, a lagoa foi drenada e ocupada com a cana-de-açúcar.

Lagoa da Onça na enchente de 2012
Lagoa da Onça na enchente de 2012

Lagoas serranas do Norte Fluminense

Lagoas serranas do Norte Fluminense
Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Lagoas serranas do Norte Fluminense

São poucas e muito mal conhecidas as lagoas da zona serrana da Ecorregião de São Tomé, entendida esta a partir da costa que se estende do rio Itapemirim (ES) a Macaé (RJ). Tomando este trecho costeiro, traça-se um quadrilátero. Ele abrangerá três restingas, uma grande planície aluvial, duas unidades de tabuleiros e a parte montanhosa com feições distintas. No conjunto da ecorregião, a zona serrana ocupa a maior área, como pode se ver no mapa seguinte.
Geologia da Ecorregião de São Tomé
Geologia da Ecorregião de São Tomé

A parte em rosa e ocre claros representam a zona serrana baixa, de grande antiguidade pelo trabalho erosivo exercido nela pela natureza. A parte cinza representa a Serra do Mar (Imbé) e a porção em que se encontra a lagoa de Cima é formada por colinas e maciços costeiros, também muito trabalhados ao longo do tempo.

Mônica Miranda Falcão e Verônica da Matta, pesquisadoras da extinta Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA), efetuaram, em 1995, um levantamento das lagoas do estado do Rio de Janeiro. O total alcançou 105, sendo 67 situadas no recorte que recebeu sucessivamente os nomes de Distrito dos Campos Goitacazes, Comarca de Campos e Região Norte-Noroeste Fluminense (Relação das Lagoas do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Superintendência Estadual de Rios de Lagoas, 1995). Embora tenha sido um levantamento superficial, pois baseado apenas na Carta do Brasil 1:50.000, lançada em 1968, e sem confirmação no terreno, trata-se de um levantamento pioneiro que confirmou o norte fluminense como a verdadeira região dos lagos. Em 105 lagoas, 67 estão no interior da Ecorregião de São Tomé, observando-se que não foram consideradas todas as lagoas de tabuleiros e as lagoas drenadas. Um levantamento histórico, revelaria número maior de lagoas.

Se se tratasse de uma verdadeira lagoa, a Preta estaria na mais alta posição em relação às outras e seria muito isolada, pois localiza-se no âmbito do município de Miracema. Uma vistoria no terreno, contudo, indica que se trata de antiga represa de uma fazenda, contando com pequena superfície. Ela é formada pelo córrego Lagoa Preta. Barrado, ele se alarga numa depressão e volta a fluir na outra ponta. Mesmo assim, a área alagada artificialmente cria um sistema lagunar a ser protegido.

Antes de sair da zona serrana, o rio Muriaé alagava e ainda alaga depressões em suas margens, formando expressivas lagoas. Uma delas ainda existe em Cardoso Moreira, no âmbito de um assentamento rural. Outra de grande extensão é a lagoa de Imburi, também alimentada pelo rio Muriaé e drenada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Com o abandono das obras, a lagoa tende a retornar e a se recuperar.

Lagoas serranas às margens do rio Muriaé

A lagoa de Cima está embutida numa depressão da zona de colinas e maciços costeiros. Uma lagoa pode se formar numa depressão existente no terreno ou pode ser escavada por um rio. Os rios Imbé e Urubu encontraram uma depressão natural e formaram a lagoa de Cima. O córrego de Cacumanga, na planície aluvial, escavou uma depressão transformada em lagoa. O mesmo aconteceu com a lagoa Feia do Itabapoana.

O cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis anotou, em 1785, que a lagoa de Cima “… é a segunda em extensão, agradável a sua situação, e vistosas as suas margens por serem em outeiros, e em planos. Existe entre o Morro do Itaoca, e o Rio Paraíba, com a vantagem de uma fácil navegação.” (Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011). Manuel Aires de Casal, em 1817, registra-a: “…tem légua e meia de comprido, e mais dezesseiscentas braças na maior largura, compreendendo o saco da Pernambuca.” (Corografia brasílica. São Paulo: Edusp, 1976).

O relato antigo mais completo da lagoa foi escrito pelo sergipano Antonio Muniz de Souza, que a visitou em 1828 e não lhe poupou elogios: “Parece que a natureza formou este local para asilo da meditação, e do repouso (…) Em alguns pontos de suas praias encontram-se pedras, que abundam em ferro; argila ou ocre de um lindo amarelo. De suas margens, que totalizam cinco léguas de circunferência, pode-se avistar o ‘soberbo’ morro do Itaoca.” (Viagens e observações de um brasileiro, 3ª ed. Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2000). O major Henrique Luiz de Bellegarde Niemeyer, em 1837, limita-se a dizer “que tem 3.200 braças sobre 1.000, recebe as águas do Rio Imbé, e comunica-se com a Lagoa Feia pelo Ururaí (Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro apresentado à respectiva Diretoria em agosto de 1837. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I. F. da Costa, 1837).

O historiador José Alexandre Teixeira de Mello, valendo-se de palavras alheias, diz que ela tem “… cerca de 12 quilômetros de comprimento e metade de largura. Recebe as águas dos rios Imbé e Urubu e dela nasce o Ururaí, que vai terminar na Lagoa Feia. Limpa de vegetação estranha, de um aspecto verdadeiramente pitoresco e poético, só lhe faltam as vivendas confortáveis e acasteladas do europeu para não temer confronto com os afamados lagos da Suíça.” (Campos dos Goitacazes em 1881. Rio de Janeiro: Laemmert, 1886). Quanto à sua fama de lago suíço, firmou-se ela até os dias que correm, muito embora seu estado de degradação a tenha transformado numa pálida imagem do que foi outrora.

Alberto Ribeiro Lamego entendia que “Este grande lençol d’água nada mais é que o rio Imbé, imobilizado pelas argilas que o Paraíba e o antigo rio Preto depositaram à margem dos tabuleiros entre Itereré e o Itaoca (…) O Imbé descansa na lagoa de Cima e dela sai na outra extremidade com o nome de Ururaí.” (Ciclo Evolutivo das Lagunas Fluminenses. Bol. 118. Rio de Janeiro, Ministério da Agricultura, Departamento Nacional de Produção Mineral. Divisão de Geologia e Mineralogia, 1940).

Lagoa de Cima na estação da estiagem
Lagoa de Cima na estação da estiagem

Imediatamente abaixo da lagoa de Cima e associadas ao rio Ururaí, situam-se as duas lagoas do Pau Funcho. Ambas podem ser consideradas marginais ao rio Ururaí e sujeitas à inundação na época das cheias. Ainda hoje, quando chove bastante, as duas lagoas tentam recuperar seus antigos leitos.

O Departamento Nacional de Obras e Saneamento abriu, na década de 1930, dois canais de drenagem e praticamente eliminou as duas lagoas. O uso do solo pelos proprietários em torno de ambas foi insustentável do ponto de vista ecológico. Assim, a sua fertilidade foi decrescendo e a produtividade de cana foi decaindo.

A fazenda de Santa Rita do Pau Funcho, que ladeia a primeira lagoa, foi ocupada pelo MST. Se os antigos proprietários surrupiaram a fertilidade do solo em busca de ganhos fáceis e acabaram por esgotá-lo, entende-se que o Incra, o MST e o governo do Estado do Rio de Janeiro reproduziram os antigos padrões de uso do solo.

A lagoa do Pau Funcho dentro da fazenda transformada em assentamento rural deveria ter seu espelho d’água demarcado na cheia máxima, contando, a partir dele, cem metros nas margens, o que constituiria a faixa marginal de proteção básica, que deveria ser ocupada com a vegetação nativa suprimida. Mas, em vez de protegida, a primeira lagoa do Pau Funcho foi aterrada com o consentimento dos próprios assentados. Cabe agora salvar a outra. O melhor caminho é incluí-la na Área de Proteção Ambiental do Morro do Itaoca.

Segunda lagoa do Pau Funcho no primeiro plano da foto
Segunda lagoa do Pau Funcho no primeiro plano da foto

Na zona de colinas e maciços costeiros, existiam ainda lagoas que mereciam proteção. A mais conhecida era a lagoa dos Patos. A abertura e a expansão da BR-101, contudo a mutilou de forma irreversível.

Lagoa dos Patos cortada pela BR-101
Segunda lagoa do Pau Funcho no primeiro plano da foto

Lagoas

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Lagoas

Teríamos uma visão incompleta e incorreta se tratássemos apenas dos rios que cortam o território entre os rios Itapemirim e Macaé. Sempre considerando que traçamos uma região que abrange uma parte da Serra do Mar baixa e de altitude, duas unidades de tabuleiros, uma grande planície aluvial e três restingas, cumpre observar que, nela, formaram-se muitas lagoas, principalmente nas partes baixas e quase sempre associadas a rios. O número e a formação delas superam os da Região dos Lagos, levando-nos a concluir que a verdadeira região dos lagos localiza-se no norte fluminense e sul capixaba.

A zona serrana tem mais de 600 milhões de anos. É, portanto, o mais antigo terreno da região norte/noroeste fluminense e sul capixaba. Ela é drenada pelos principais rios que a cortam: Paraíba do Sul, Pomba, Muriaé, Dois Rios, Colégio, Imbé, Macaé, Guaxindiba, Itabapoana e Itapemirim. Na parte alta da serra, não existem lagoas, como na Suíça, por exemplo, mas na parte baixa, encontram-se a encantadora lagoa de Cima, a lagoa de Imburi e as lagoas gêmeas do Pau Funcho. Associada ao rio Macabu, existiam algumas lagoas no passado. A mais conhecida delas era a lagoa dos Patos, que foi mutilada pela BR-101. Na parte alta, apenas um espelho d´água mereceria atenção: a lagoa Preta, em Miracema. Examinada mais de perto, porém, ela parece resultado de uma represa. Os poços d’água formados por cachoeiras, como as dos pequenos rios que descem do Imbé, não podem ser consideradas verdadeiras lagoas.

Visão parcial das lagoas de Cima e do Pau Funcho

Com idade estimada em cinco milhões de anos, os tabuleiros são o segundo terreno mais antigo da Ecorregião de São Tomé, recorte que envolve o norte-noroeste fluminense e o sul capixaba. O nome homenageia o cabo de São Tomé e a capitania de São Tome. A principal porção deles se estende da margem esquerda do rio Paraíba do Sul à margem direita do rio Itapemirim, já no Espírito Santo. Existe uma porção menor em Quissamã. Tudo indica que ambas formavam uma só unidade que foi cortada pelo avanço do mar entre 7.000 e 5.100 anos antes do presente. Muitas lagoas se formaram na porção norte, principalmente oriundas de córregos barrados pela ponta setentrional da grande restinga formada pelo rio Paraíba do Sul. Na margem esquerda do rio Muriaé ainda existem lagoas representativas dos tabuleiros. A menos adulterada é a lagoa Limpa.

Visão da lagoa Limpa, margem esquerda do rio Muriaé

A planície aluvial formada pelo rio Paraíba do Sul, principalmente, é um terreno construído nos últimos 5 mil anos com sedimentos carreados da zona serrana e dos tabuleiros. Constituída sobre o mar, a planície apresenta uma ligeira declividade em direção à costa. Algo em torno de dez metros (altura de Campos) para zero (altura do nível do mar). Havia nela uma profusão de lagoas de água doce. A maior lagoa da planície e da região é a Feia. Atividades rurais e urbanas ameaçam as poucas lagoas que restaram na planície aluvial. A lagoa Feia integra um sistema hídrico constituído principalmente pelos rios Imbé e Urubu, lagoa de Cima, rios Ururaí e Preto e um sistema de defluentes naturais no sul dela que formavam outrora o rio Iguaçu.

Visão parcial da lagoa Feia

Além do mais, o sistema hídrico do Paraíba do Sul é ligeiramente mais alto que o sistema Ururaí. Assim, nas cheias do passado, os transbordamentos fluíam do Paraíba do Sul para o complexo Ururaí. A baixa declividade originava um grande número de lagoas na margem direita do Paraíba do Sul. Essas lagoas se ligavam dependendo do volume d’água transbordado ou eram alimentadas pelo grande rio por meio do lençol freático. A maior parte delas foi drenada para ampliar as atividades rurais.

Lagoas de tabuleiros, planície aluvial e restinga de acordo com Alberto Ribeiro Lamego, 1954

Nas franjas dos tabuleiros e da planície aluvial, formaram-se três restingas. A de Marobá é a menor e se encontra na margem esquerda do rio Itabapoana junto à sua foz. A segunda, formada pelo jato do Paraíba do Sul e pelas correntes marinhas, é a maior do Estado do Rio de Janeiro. Na margem direita do Paraíba do Sul, encontram-se as maiores lagoas de planície aluvial e de restinga. Uma delas, era um rio que se transformou na lagoa do Açu. Na antiga restinga que se estende da atual Barra do Furado ao rio Macaé, também formou-se um colar de lagoas arredondadas e de pequenas dimensões, assim como lagoas alongadas oriundas de antigos riachos barrados pela força do mar.

Visão aérea da lagoa do Açu

Rios entre Itapemirim e Macaé

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Rios entre Itapemirim e Macaé

É preciso reforçar: o vasto território em que se desenvolveram as regiões norte e noroeste fluminense, assim como o sul do Espírito Santo, apresenta características singulares que deviam ser ensinadas nas escolas, e não apenas serem conhecidas de estudiosos (o que também pouco acontece). A parte mais antiga remonta a mais de 600 milhões de anos. É a zona serrana conhecida com o nome de Imbé (Serra do Mar). Num determinado ponto, ela sofre um rebaixamento brusco, abrindo passagem para o rio Paraíba do Sul, e continua na margem esquerda deste em feição baixa. Aos poucos, ela vai novamente ganhando altitude. Com a divisão do Brasil em capitanias, províncias e estados, ainda no estado do Rio de Janeiro, mas principalmente no Espírito Santo, a serra volta a ganhar altitude.

À zona serrana, acopla-se um vasto terreno baixo constituído por tabuleiros, planícies aluviais e restingas. As idades de tais formações variam entre 5 milhões e 2.500 anos. Quase todos os rios que cortam esse território provêm da zona serrana, atravessam tabuleiros, formam planícies fluviomarinhas e desembocam no mar ou são afluentes desses rios que deságuam no oceano.

Rios na ecorregião de São Tomé: 1- Itapemirim, 2- Itabapoana, 3- Guaxindiba, 4- Paraíba do Sul, 5- Iguaçu, 6- Macaé. Mappa Geral da Viação Ferrea organizado por Gustavo Koenigswald – 1896

De norte para sul, acompanhemos os rios que desembocam no mar, pois eles permitem identificar as bacias hídricas que irrigam esse peculiar terreno hoje dividido entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. O primeiro rio é o Itapemirim, que limita a unidade norte de tabuleiros. Ele nasce na zona serrana, conta com vários afluentes e subafluentes, separando nitidamente uma zona pedregosa de uma zona argilosa. Ele constitui o limite do que denominamos ecorregião de São Tomé. Em direção ao sul, o segundo rio mais expressivo é o Itabapoana, também com nascente na zona serrana e atravessando vasta extensão de tabuleiros. Entre ele e o Itapemirim, existem vários córregos com nascente nos tabuleiros e

Rio Itapemirim em tempo de enchente


Sempre rumo ao sul, assinalamos o pequeno rio Guaxindiba, cuja nascente se localiza na zona serrana e foz no mar. Também entre o Itabapoana e o Guaxindiba, correm quase extintos pequenos cursos d’água com foz no mar. Continuando a caminhada em direção ao sul, encontraremos o rio Paraíba do Sul, o maior da região. Ele é o principal construtor da planície fluviomarinha do norte fluminense, conhecida por Planície Goitacá. Sua nascente se localiza na Serra do Mar, localmente conhecida como Serra da Bocaina, atravessa o planalto, corta tabuleiros e desemboca no mar por um delta instável formando originalmente por quatro braços: Gargaú, Atafona, Gruçaí e Iquipari. De forma auxiliar, usava a foz do rio Iguaçu. hoje bastante degradados.

Rio Paraíba do Sul na altura de Campos dos Goytacazes

O Iguaçu é hoje um rio desconhecido daqueles que habitam a região. Melhor dizendo, é mais desconhecido que os outros, pois nossa cultura ignora os rios. Só se pode compreender o rio Iguaçu no seu contexto. Ele é a parte final de um complexo formado pelos rios Imbé e Urubu. Pequenos rios descem da serra e são coletados pelo Imbé. Ele e o Urubu formam a lagoa de Cima que, por sua vez, escoa pelo rio Ururaí. No passado, o rio Preto desembocava no Paraíba do Sul. Nas cheias, parte de suas águas corriam para o Ururaí por um braço auxiliar. Agora, só esse braço está ativo. O Ururaí e o Macabu, por sua vez, desembocam na grande lagoa Feia e esta escoava por inúmeros braços que formavam o rio Iguaçu. Por fim, este chegava ao mar. Intervenções humanas transformaram o rio Iguaçu na lagoa do Açu.

Aspecto do rio Iguaçu em seu trecho final

Da barra da lagoa do Açu à Barra do Furado, encontramos um longo, alto e estreito cordão arenoso em que vai se erguer o Farol de São Tomé. Nada nesse trecho se assemelha a um rio, exceto o Lagamar, que, no passado, abria sua barra quando das cheias causadas pelas chuvas. Era uma espécie de foz auxiliar do rio Iguaçu. O canal da Flecha não existia originalmente. Ele foi aberto por ação humana para abreviar o curso do rio Iguaçu. A história da abertura da Barra do Furado e do canal da Flecha será contada no seu devido tempo.

Continuando nossa caminhada para o sul, entramos numa bela restinga repleta de lagoas circulares, ovais e alongadas. Estas últimas eram cursos d’água que foram fechados por força do mar ou falta de força dos rios. Os mais conhecidos são as lagoas Preta, do Paulista, Carapebus, Comprida e Jurubatiba. Chegamos ao fim do vasto terreno baixo no rio Macaé. Na margem esquerda dele, um pontal de areia indica o final da planície. Na margem direita, formações pedregosas indicam que estamos num terreno mais ligado à Região dos Lagos que à planície. Todos os rios mencionados – grandes, médios e pequenos – merecem mais análise. Haverá oportunidade para detalhar cada um deles.

Rio Macaé em seu trecho final

A formação da baixada dos Goytacazes

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A formação da baixada dos Goytacazes

Posicione-se na praia do Farol de São Tomé e faça uma viagem imaginária no tempo. Recue 2 milhões e quinhentos mil anos. Você estaria nadando no mar porque não existia nenhuma praia naquele tempo ali. Seria necessário nadar até Itereré, pois o continente era então mais recuado, com praias arenosas entre pedras. Esta é a tese de Alberto Ribeiro Lamego apresentada pela primeira vez em seu livro “O homem e o brejo”, de 1945, e aperfeiçoada em 1955, num artigo intitulado “Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé”.
Início do processo de construção natural da Planície dos Goytacazes, segundo Alberto Ribeiro Lamego

O continente cresceu com a formação dos tabuleiros dentro do mar e com a construção da planície fluviomarinha. O rio Paraíba do Sul, principalmente, foi transportando sedimentos da zona serrana e dos tabuleiros e os depositando num mar raso. Primeiro, o curso do Paraíba do Sul dirigiu-se para o sul e ramificou-se em vários braços, formando um delta do tipo pé de ganso, muito parecido com o do rio Mississipi. Os dedos do pé eram muito longos e a descarga da água do rio no mar mostrava-se difícil por causa das fortes correntes marinhas. Posteriormente, o rio se dividiu em dois grandes braços longe da costa, ainda de acordo com Lamego. Um deles continuava rumando para o ponto em que hoje se situa a praia do Farol. Outro, dirigiu-se para o ponto em que o Paraíba do Sul deságua no mar, dividindo-se em dois pequenos braços. Lamego entendeu a segunda ramificação como um delta do tipo do rio Ródano, na Europa, e a terceira, ainda existente, como um delta do tipo específico Paraíba do Sul.

Penúltima etapa da formação da planície dos Goytacazes, segundo Alberto Ribeiro Lamego

A tese de Lamego contribuiu muito para o entendimento da formação da planície, mas, como acontece com a ciência, acabou substituída por outra. Continue imaginando que você está na praia do Farol e faça uma nova viagem no tempo. Não é preciso recuar tanto. Volte apenas dez mil anos. O nível do mar era mais baixo e o continente avançava muito mais dentro dele. Para um banho de mar, seria necessário caminhar bem mais até chegar à praia. Então, as temperaturas começaram a subir e a derreter geleiras. O nível do mar chegou a se elevar cem metros em vários pontos do planeta.

Na vasta planície do atual norte fluminense, o mar avançou até a zona serrana, em Itereré, alcançando a lagoa de Cima. A baixada se transformou numa grande lagoa demarcada por ilhas. Supõe-se que o antigo continente invadido pelo avanço do mar fosse um terreno de tabuleiros ligado a uma grande restinga que se estendia da atual Barra do Furado (que então não existia) até o rio Macaé (que já existia). Os tabuleiros são formados por argila grossa com concreções ferruginosas. A topografia é caracterizada por ondulações suaves. Já uma restinga é formada por substrato arenoso.

Máximo avanço do mar (transgressão) no continente, segundo os quatro geólogos

Quatro geólogos formularam esta tese com base em métodos radioativos. Seus nomes são Louis Martin, Kenitiro Suguiu, José Maria Landim e Jean-Maria Flexor. Eles escreveram vários artigos sobre a nova tese juntos ou separados. Em 1997, os quatro publicaram um livro comparando a formação do delta do Paraíba do Sul à formação do delta do rio Doce. O título do livro é “Geologia do Quaternário costeiro do litoral do norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo”.

O avanço máximo do mar, segundo eles, foi alcançado em 5.100 anos antes do presente. A partir de então, ele começou a recuar. A grande lagoa formada pelo mar foi sendo aterrada pelo rio Paraíba do Sul, principalmente. Na altura de Campos (que ainda não existia, é claro), houve uma grande bifurcação do rio. Um braço dirigiu-se para o Açu ramificando-se em vários canais, como o delta pé de ganso identificado por Lamego. Mas só chegou timidamente ao mar pelo antigo rio Iguaçu, hoje lagoa do Açu. Esse braço morreu por conta própria em grande parte. Os colonos de origem europeia, a partir dos Sete Capitães, o denominaram de córrego ou canal do Cula, que serviu de base para a penetração para o interior através de uma estrada de terra batida originalmente. Depois, uma ferrovia. Por fim, a estrada asfaltada Campos-Farol.

O outro grande braço dirigiu-se à atual Atafona e chegou ao mar no ponto em que hoje se situa o pequeno delta do Paraíba do Sul. Como não existem pedras criadas pela própria natureza, o forte jato do Paraíba do Sul desembocando no mar funcionou como obstáculo para reter areia transportada pelas correntes do norte para o sul e formando a maior restinga do estado do Rio de Janeiro. A força do Paraíba do Sul, há 2 mil anos era muito maior que a de hoje. Ela enfrentava as correntes marinhas com maior competência que hoje. Mesmo assim, os processos erosivos registrados em Atafona já existiam, embora em grau menor.

Última etapa da formação da Planície dos Goytacazes segundo os quatro geólogos

A zona costeira de Itapemirim a Macaé

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A zona costeira de Itapemirim a Macaé

Nos guias turísticos, as praias da costa que se estendem do rio Itapemirim, no Espírito Santo, ao rio Macaé, no Rio de Janeiro, não são tão apreciadas quanto as praias que ficam acima do rio Itapemirim ou abaixo do rio Macaé. Elas não são tão procuradas quanto as praias de Guarapari e arredores ou as praias da Região dos Lagos.

As praias da costa que recortamos têm as suas águas barrentas e amareladas. Essa coloração é confundida com sujeira ou com feiura. Poluição até pode haver nelas, mas a coloração se deve à ausência de pedras. Que se percorra o litoral entre Itapemirim e Macaé em busca de pedras naturais na costa ou no mar. Elas não serão encontradas. Só aquelas lançadas por ação humana, como em Marataízes, Barra do Furado e Macaé. Agora, querem jogar pedras também em Atafona e Guaxindiba.

As pedras colocadas pela própria natureza servem para a fixação de organismos filtrantes que dão às águas coloração clara, muito embora elas possam estar poluídas. Não encontramos pedras naturais na costa que se estende do rio Itapemirim ao rio Macaé porque ela é muito nova. Do rio Itapemirim ao rio Guaxindiba, o mar subiu e desceu erodindo terrenos de tabuleiros e construindo falésias.

Falésia: formação costeira resultante do encontro do mar com os tabuleiros. Marataízes, sul do Espírito Santo

Do rio Guaxindiba ao rio Macaé, existem três restingas, terrenos arenosos mais extensos que uma praia. A primeira é pequena e fica na margem esquerda do rio Itabapoana. A segunda é cortada ao meio pelo rio Paraíba do Sul. Ela foi formada, em grande parte, por este rio nos últimos 2500 anos. Ela se liga por um estreito e elevado cordão arenoso, onde se ergueram Xexé e Farol de São Tomé, à restinga de Jurubatiba. Depois de Barra do Furado, ela se alarga. É a mais antiga restinga da região, com 120 mil anos. As duas restingas protegem uma planície aluvial, formada com sedimentos argilosos transportados da zona serrana depois da grande invasão do mar no continente, entre 7 e 5 mil anos. Trata-se da planície tão exaltada por Alberto Ribeiro Lamego. A planície que estimulou o desenvolvimento de Campos dos Goytacazes segundo ele.

Ao lado dessa planície, elevam-se duas unidades de tabuleiro: uma em Quissamã e outra na margem esquerda do rio Paraíba do Sul. A idade de ambas é estimada em 5 milhões de anos. Dois tabuleiros, uma planície aluvial e três restingas com idades diferentes, mas consideradas novas em termos geológicos, formam uma grande baixada adiante das montanhas, essas sim, muito antigas, com mais de 600 milhões de anos. Os rios Paraíba do Sul e Imbé foram os principais formadores desse grande aterro na frente da serra. O rio Imbé corre totalmente na zona serrana e desemboca na lagoa de Cima, também na zona serrana baixa. Dela, nasce o rio Ururaí, já na planície aluvial.

Em 1848, o estadista José Saturnino da Costa Pereira, num livro fundamental sobre a costa brasileira, escreveu que, do rio Macaé ao rio Benevente, um vasto terreno baixo afasta o mar da serra. Ele estendeu um pouco esse terreno baixo, pois ele não chega à foz do rio Benevente. De qualquer maneira, sua percepção foi mais aguçada que a do geólogo canadense Charles Frederick Hartt, para quem era a montanha que se afastava do mar.

Ao construir uma escada, um engenheiro começa pelo degrau mais baixo. Ele servirá de base para os degraus seguintes. Com a natureza, é diferente. O degrau mais antigo costuma ser o mais alto. Assim, as chamadas regiões norte-noroeste fluminense e sul-capixaba têm seu primeiro degrau na montanha. O segundo são os tabuleiros. O terceiro é a planície aluvial. O quarto são as três restingas, todas niveladas com a planície aluvial.

Restinga: braço principal do delta do Paraíba do Sul quase fechado. Atafona, em São João da Barra, fica na margem direita. Na marguem esquerda, fica o município de São Francisco de Itabapoana

Trata-se de uma configuração costeira bastante singular ao longo de todo o litoral brasileiro. Se tomarmos apenas os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, partindo do sul fluminense, notaremos que, de Parati ao rio Macaé, o mar encosta na zona serrana baixa. Em toda a extensão desse primeiro segmento da costa, existem pedras nas praias e dentro do mar, na forma de ilhas. Do rio Macaé ao rio Itapemirim, um grande aterro afasta o mar das pedras serranas. Só existe uma ilha nesse trecho: a das Andorinhas, que foi formada por um pedaço dos tabuleiros erodidos pelo mar. Nela, não há uma pedra sequer. Depois do rio Itapemirim, o mar volta a encostar na zona serrana baixa. Daí, a singularidade da região.

Mas nem sempre foi assim. Esse aterro é novo, baixo e muito dinâmico, tendo sido formado há pouco tempo em termos geológicos. Basta dizer que há cinco mil anos, o terreno em que se ergue Atafona e Campos não existia. E o mar alcançava a lagoa de Cima. Mas essa é outra história a ser contada em breve.

Os terrenos formadores da costa entre os rios Itapemirim e Macaé: zona serrana, tabuleiros, planície aluvial e restingas