Manguezal enclausurado da lagoa dos Ossos

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Manguezal enclausurado da lagoa dos Ossos

Especialistas identificam três feições de manguezais. Três tipos fisiográficos. O mangue ribeirinho é o mais comum. Trata-se daquele bosque que se desenvolve no estuário de rios da zona intertropical, onde o encontro de água doce e salgada cria ambiente propício para o crescimento de espécies de mangue. O segundo é o mangue de bacia, que cresce em depressões em margens de rios perto da foz no mar, sempre na região intertropical. O substrato dessas depressões raramente fica exposto com o recuo das marés. A água acumulada em seu interior acaba selecionando as espécies de mangue mais resistentes a lâminas d’água estabilizadas. O terceiro tipo é o mangue de borda ou franja. Trata-se de bosques que se desenvolvem em praias sem a necessidade de água doce em sua retaguarda.

Em Búzios, na Região dos Lagos, existem mangues ribeirinhos e de franja. Entre os poucos ribeirinhos, podemos reconhecer os manguezais do rio Una e de dois córregos na praia de Manguinhos. Alguns mais devem ter existido no passado. Os de franja são o Mangue de Pedra e os mangues da Ponta da Sapata e da Praia da Foca. Ressalve-se que o Mangue de Pedra conta com uma fonte de água doce na falésia situada em sua retaguarda. Ela acumula água de chuva que verte por sua base e se mistura com a água do mar. Existem depressões no território municipal de Búzios, mas elas não são alcançadas pelas marés para a formação de mangues de bacia.

Nas minhas andanças pelos territórios fluminense e capixaba para o estudo de manguezais, encontrei uma feição que parecia não se enquadrar nas três existentes. Os bosques cresciam em lagoas alongadas junto à costa, sugerindo antigos rios com a foz barrada por ação natural ou antrópica. Pareciam rios com foz no mar que formavam estuários e que apresentavam condições propícias para o desenvolvimento de manguezais ribeirinhos. Com o fechamento da foz de forma permanente ou periódica, as marés não entravam mais nos rios. Eles se tornaram, assim, lagoas alongadas. Com a abertura natural ou antrópica pelo acúmulo de água no seu interior ou por força do mar, as barras voltam a abrir.

Nessas condições, o manguezal deve se adaptar ou morrer. As espécies de mangue são plásticas e podem se moldar à nova realidade. Na lagoa do Siri, no sul do Espírito Santo, a estabilização da lâmina d’água eliminou quase totalmente o mangue branco e a siribeira por deixar suas raízes respiratórias afogadas por longo período. O mangue vermelho passou a ser dominante porque as lenticelas (estruturas nas raízes e no caule que ajudam a planta a respirar) foram afogadas por longos períodos. O mangue vermelho resistiu porque as lenticelas se deslocaram para a parte emersa das ramificações do caule.

Bosque de mangue vermelho na lagoa do Siri (ES). Foto do autor

Em outras lagoas do sul do Espírito Santo, a acumulação de água doce favorece a invasão de plantas que competem com as espécies exclusivas de mangue. A estabilização da lâmina d’água pode ainda exigir mudanças adaptativas estruturais de espécies exclusivas. O sul do Espírito Santo é um laboratório vivo sobre manguezais enclausurados. Neles, as folhas das plantas não são exportadas logo para o mar em forma de partículas, mas já dissolvidas quando a comunicação com o mar se restabelece naturalmente ou por ação humana. Esses manguezais se situam entre os ribeirinhos e os de bacia.

Mangue misturado com plantas invasoras na lagoa das Pitas (ES). Foto do autor

Em Búzios, existe um mangue que passa despercebido para as pessoas leigas. Ele se desenvolveu na lagoa dos Ossos e está muito reduzido pelas condições adversas. A lagoa situa-se bem próxima da costa. Um fluxo de água doce, talvez um antigo córrego, desce da parte alta e alimenta a lagoa. Hoje, esse pequeno curso está muito poluído e oculto sob as ruas. Ele corre por bueiros.

Por outro lado, informação fornecida por Osmane Simas de Araújo, nascido e criado em Búzios, a lagoa se comunicava com o mar por meio de um canal. As marés entravam nele e chegavam à lagoa, transportando sementes (propágulos) das espécies de mangue encontradas em Búzios: mangue branco (Laguncularia racemosa), mangue vermelho (Rhizophora mangle) e siribeira (Avicennia schaueriana). Esse canal, que comunicava a lagoa ao mar, está fechado. Restou dele apenas uma grade na boca de um bueiro na margem da lagoa.

Vista geral da lagoa dos Ossos. Foto Carolina Mazieri

Por um lado, a lagoa foi cercada pela cidade. Por outro, existe vegetação nativa e espontânea. É grande a quantidade de lixo numa das margens. Das três, só foi encontrado o mangue branco. Há vários exemplares dele na lagoa. Como nos manguezais de Manguinhos, Porto da Barra e Sapata, as árvores de mangue branco crescem muito, com troncos retos e grossos. Na lagoa dos Ossos, eles não mostram mais raízes respiratórias, mas sim raízes que partem do tronco, como nas árvores das matas de igapó, na Amazônia, sugerindo inundações frequentes e submersão das bases das árvores. É mangue branco, mas não se comporta como tal.

Exemplares de mangue branco na lagoa dos Ossos. Foto do autor

Há também espécies associadas ou invasoras de mangue perturbado ou degradado, como samambaia-do-brejo (Acrostichum aureum), a mais frequente, mololô (Annona glabra), algodeiro da praia (Hibiscus pernambucensis) e aroeira (Schinus terebinthifolia). Na parte mais alta da margem não ocupada por ruas, estacionamento e construções, a mata de restinga predomina. Na margem oposta, há calçamento e bancos. Uma placa indica o nome da lagoa e outra anuncia que ela está passando ou passará por processo de revitalização. As condições ambientais parecem precárias, mas tocas de guaiamum, aves aquáticas e pequenos mamíferos frequentam a lagoa e suas margens.

Samambaia do brejo e mololô na lagoa dos Ossos
Samambaia do brejo e mololô na lagoa dos Ossos

A lagoa merece não apenas ser revitalizada como ser mais estudada. Em termos de revitalização, caberia eliminar o esgoto despejado nela pelo córrego sob ruas que a alimenta com água doce, além das chuvas e do lençol freático. Todo o lixo deve ser retirado de suas margens, proibindo-se que ele seja novamente lançado.

Principalmente, um canal de comunicação com o mar deve ser aberto, apesar de toda a urbanização consolidada que a separa da praia.

Tocas de guaiamum na margem da lagoa dos Ossos. Foto: Carolina Mazieri

Assim recuperada, a lagoa poderá propiciar um comportamento normal aos exemplares de mangue branco e a entrada de sementes das duas outras espécies. O desenvolvimento de espécies associadas indica que a água da lagoa agora é doce. É preciso medir a salinidade. Cabe permitir que a lagoa volte a ser tipicamente costeira de novo com a entrada de água salgada.

Canalização do córrego alimentador da lagoa dos Ossos. Foto: Carolina Mazieri
ANÚNCIO
ANÚNCIOS

Mangais no estuário do rio das Pérolas

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Mangais no estuário do rio das Pérolas

Diariamente, leio o jornal “Macau Hoje”, publicado no antigo domínio português na China, uma pequena colônia na foz do rio das Pérolas, na margem oposta em que ergueu-se Hong-Kong. Ela foi devolvida à República da China Popular em 1999, que lhe conferiu o status de Região Administrativa Especial. Macau é a Las Vegas do oriente. Em plena China, com um regime político de partido único, onde não existe a liberdade como conhecida no ocidente, Macau vive do jogo de azar. Ele é a maior fonte de renda da RAEM (Região Administrativa Especial de Macau). Macau sofreu maciça invasão pacífica de chineses depois de voltar a pertencer totalmente à China. “Macau Hoje” resiste como jornal em língua portuguesa em meio a chineses. Os jornais de Goa, a capital portuguesa do Índico em tempos idos, não são mais publicados em português depois de sua reintegração à Índia em 1961. Recentemente, um jornal goês voltou a publicar artigo dominical em português. E as marcas de Portugal são ainda fortes na arquitetura principalmente. Mas tendem a ser engolidas, mesmo com todas as iniciativas de proteção por parte da Unesco. Na culinária, as marcas também são acentuadas.

Mapa de Macau na foz do rio das Pérolas

Em edição recente do jornal, foi estampada uma reportagem intitulada “Águas mais calmas”, assinada por Andreia Sofia Silva. Consultei também (pela primeira vez) a “Revista Macau”, órgão chinês de divulgação com edição em português. No mesmo dia, foi publicada nela reportagem sobre os manguezais de Macau com o título de “Mangais, uma riqueza escondida de Macau”, redigida por Paulo Barbosa. Em português, o ecossistema é conhecida como mangue, mangal, manguezal. Em espanhol é manglar. Em francês e inglês, é mangrove, apenas com pronuncia diferente.

Macau à noite

As duas reportagens referem-se a estudos que a Universidade de São José está conduzindo sobre os mangais de Macau. A matéria informa que mangal é um “ecossistema que existe em Macau”, como se ele fosse bastante desconhecido da população. O mangue, de fato, é um ambiente que comumente não interessa às pessoas pelo seu aspecto. À primeira vista, sua feição lamacenta passa a impressão de lugar fétido e infecto. Pois é exatamente o contrário. A equipe da Universidade, sob a direção de Karen Tagulao e Cristina Calheiros, tenta mostrar o que talvez se busque em todo o mundo tropical: o mangue desempenha papel ecológico de suma importância. Ele protege a zona costeira da erosão e dos fortes ventos, no oriente conhecidos como tufões. “Os mangais não ajudam apenas a limpar a água mas também acumulam dióxido de carbono. São muito importantes na mitigação das alterações climáticas. No ano passado o projeto continuou a desenvolver-se e agora o nosso foco é analisar como os mangais podem reduzir o impacto das ondas em caso de tempestade, por exemplo durante os tufões”, explica Tangulo. É estranho que se faça esse estudo pela primeira vez em Macau. As duas autoras defendem a importância de reflorestar a costa de Macau com mangais, mostrando que é mais econômico valer-se de bosques de mangue que de paredões para conter ressacas e ventos.

População do mangue Acanthus ilicifolius em meio à cidade de Macau

As mudanças climáticas estão ajudando a valorizar-se o que antes era desprezado. Ventos e ondas estão se tornando mais frequentes e mais intensos. Um paredão não é resiliente como um manguezal. Se destruído por tufão ou ressaca, um paredão não se recupera sozinho. O manguezal sim. Ele é vivo. As autoras mencionam também a capacidade que o mangal tem de depurar as águas poluídas por nitrogênio e fósforo, dois grandes componentes da crise ambiental da atualidade muito pouco conhecidos. “… a concentração de nutrientes na água é menor em áreas com mangais em comparação com áreas sem manguezais”, explicam as pesquisadoras.

População de samambaia-do-brejo em Macau

O projeto da Universidade de São José começou em 2010. A partir de 2012, passou a envolver escolas naquilo que, por aqui, conhecemos como educação ambiental. Segundo elas, há duas zonas de mangais em Macau: a maior fica na reserva ecológica do Cotai, que faz fronteira com a Ilha da Montanha e é gerida pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental. O outro mangal cresceu junto ao complexo residencial Jardins do Oceano e está sendo replantado pelo Instituto para os Assuntos Municipais. Anteriormente, o mangal estendia-se pela costa da Taipa, na zona onde estão as Casas-Museu, mas o desenvolvimento do grande aterro de Cotai levou ao deslocamento dessa zona, dado que os mangais necessitam de água fresca. Karen Tagulao considera que os dois departamentos públicos gerentes das zonas de mangais estão fazendo um bom trabalho de conservação.

Avicennia marina

Apela-se para que o mangal de Cotai seja preservado. A palavra Cotai deriva das inicias de Coloane (Co) e de Taipa (Tai). Seu nome oficial é “Zona do Aterro de COTAI”. Trata-se de um aterro ligando as ilhas de Coloane e Taipa, que, a rigor, não são mais ilhas. A nova extensão de terra é muito construída. Por aí, já se pode avaliar a dificuldade de reflorestar a costa de Macau com plantas de mangue. Karem Tangulo não tem dúvidas do interesse do governo em proteger os mangais. Cientistas têm um lado político. Publicamente, fingem acreditar nas autoridades governamentais e nos empresários até como forma de sensibilizá-los para a proteção. Ela ressalta a importância de reflorestar a costa da cidade. Neste caso, é preciso encontrar terreno para tanto. Ela observa também que a área de mangais tem se mantido estável nos últimos dez anos, mas Cotai está se expandindo. É o velho conflito entre economia de mercado e proteção de ambientes naturais.

Kandelia obovata em Macau

Em 2016, publiquei um artigo na revista Cidade de Cabo Frio sobre os manguezais do estuário do rio das Pérolas nas adjacências de Macau. Nada de mangais de Macau. As espécies de manguezais são mais antigas que a humanidade. Elas não existem para ornar ou atrapalhar nossa vida. Nós é que temos atrapalhado a vida das demais espécies vegetais e animais da Terra. Busquei artigos em língua estrangeira. Encontrei poucos. Mesmo assim, fiz um levantamento das espécies típicas de manguezal no estuário do rio sem nunca tê-lo visitado. Surpreendi-me por encontrar as mesmas espécies que a equipe de pesquisa da Universidade de São José encontrou em trabalho de campo.

Sonneratia apetala

São elas Avicennia marina do gênero Avicennia, bem representado no Brasil por duas espécies. A Avicennia marina é extremamente resistente. Sobreviveu ao petróleo lançado como arma de guerra por Saddan Houssein na Guerra do Golfo, em 1991. Outra é a samambaia-do-brejo (Acrostichum aureum), que não é uma espécie exclusiva de mangal. Na verdade, ela é uma planta bastante oportunista que cresce em área onde o manguezal foi cortado, impedindo por sombreamento que as espécies exclusivas de mangue retornem. A espécie ocorre largamente no Brasil e é a que mais nos une aos mangais do estuário do rio das Pérolas.

Aegiceras corniculatum

A Sonneratia apetala é uma espécie arbórea típica de mangue encontrada na parte oriental do planeta. Muito comum nos manguezais da Índia e Bangladesh. Kandelia obovata integra o gênero Rhizophora, com duas ou três espécies na costa atlântica da América. É fantástico saber que parentes dela estão entre nós sem que os trouxéssemos, como são os casos da banana, da jaca e do coco, pelo menos, transportadas pelos europeus da Ásia para a América. É notável saber que ela está no oriente por conta própria, não como o caju, a batata ou o abacaxi, levados pelos europeus da América para outras partes do mundo. Aegiceras corniculatum tem sua distribuição nas zonas costeiras e estuários que vão desde a Índia ao sul da China, Nova Guiné e Austrália. Tem porte arbustivo, alcançando até 7 metros de altura. Acanthus ilicifolius, comumente conhecido como acanto com folhas de azevinho, azevinho do mar e mangue sagrado, é uma espécie herbácea podendo alcançar porte arbóreo. É nativa da Austrália, Australásia e sudeste da Ásia. Tem propriedades medicinais.

Acanthus ilicifolius

Já as espécies animais encontradas pela pesquisa da Universidade de São José não parecem ser, na maioria delas, típicas de mangais. Boleophthalmus pectinirostris é um peixe com hábito anfíbio que não vive no mangue com exclusividade. Periophthalmus modestus idem. É conhecido como peixe-lúpulo ou peixe-saltador. Não se limita ao mangue. Uca chlorophthalmus crassipes é um pequeno caranguejo, sendo os machos possuidores de uma das pinças bem maior que a outra. Costumam viver em mangais e na zona entre marés, em praias arenosas protegidas, em baías e em estuários. Parece ser uma espécie mais fixa de manguezais, mas não exclusiva. Vespa bicolor pode frequentar os mangais, mas não é exclusiva dele. Ellobium chinensis é um caramujo que deve frequentar os mangais. Cassidula plecotrematoides também é um caramujo. Clithon faba é um caramujinho.

Uca chlorophthalmus crassipes
ANÚNCIOS

O tráfico de escravos na zona costeira da ecorregião de São Tomé (Rio de Janeiro e Espírito)

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

O tráfico de escravos na zona costeira da ecorregião de São Tomé (Rio de Janeiro e Espírito)

A paisagem do Sertão de São João da Barra, hoje município de São Francisco de Itabapoana, já tinha consideravelmente se modificado quando Jacob Tschudi passou por ela no final da década de 1850 proveniente do Espírito Santo. Depois de marchar quatro horas por uma trilha na mata virgem, em meados do século XIX, ele assinalou que ela não era mais tão virgem como no tempo de seus antecessores europeus que por ali passaram. Cá e lá, encontrava-se uma ou outra fazenda. Ele pousou na fazenda São Pedro, do traficante de escravos André Gonçalves da Graça, e observou as marcas externas de seu enriquecimento com o tráfico já considerado ilegal àquela época. Chamou a atenção para o intenso extrativismo vegetal, salientando que o comércio madeireiro parecia render fabulosos lucros, além das facilidades de transporte, pois que as florestas não ficavam muito distantes da costa, onde eram embarcadas as madeiras para exportação. Mas lamenta que a síndrome do desperdício elimine madeiras nobres junto com as comuns usando o fogo para abrir espaço destinado à lavoura e à criação de animais (Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1980).

Antiga sede da fazenda de São Pedro, hoje não mais existente. Foto de Dina Lerner (1992)

Fugindo ao risco de desembarcar escravos contrabandeados nos portos de Gargaú ou de São João da Barra, na foz do rio Paraíba do Sul, ou no porto de São Sebastião do Itabapoana, na foz do rio Itabapoana, André Gonçalves da Graça e outros traficantes escolhiam as praias entre Manguinhos e Itapemirim, onde havia condições favoráveis à ancoragem de barcos com maior calado. O comendador Gonçalves da Graça era proprietário da Fazenda São Pedro de Alcântara ou Cobiça, uma enorme propriedade rural. Os escravos introduzidos ilegalmente no país ou ficavam trabalhando na fazenda ou eram logo vendidos para outros proprietários regionais. Os que morriam em terra eram sepultados num local em que recentemente o mar novamente desenterrou inúmeras ossadas.

É ilustrativo seguir um pouco a carreira de José de Sousa Velho, grande contrabandista português que manteve negócios com André Gonçalves da Graça. Velho movimentava-se com bastante intimidade no norte da província do Rio de Janeiro e sul da província do Espírito Santo. Em janeiro de 1856, o juiz municipal de São João da Barra informava o presidente da província do Rio de Janeiro sobre a presença de Velho hospedado na casa de André da Graça e em sua fazenda em Manguinhos. Na mesma correspondência, o juiz acompanha os passos do contrabandista lusitano por Itabapoana e Itapemirim, à procura de porto seguro para um desembarque que tencionava fazer. Ainda em janeiro de 1856, o chefe de polícia do Espírito Santo oficiou ao vice-presidente da província alertando sobre a descoberta de indícios de preparativos para desembarque de africanos nas barreiras do Ceri e em Marobá.

Aspecto da praia de Manguinhos. Foto do autor

Num relatório de março de 1856, o conselheiro Josino do Nascimento e Silva, secretário do Ministério dos Negócios da Justiça, propôs a substituição do comandante do destacamento de Manguinhos ou Itabapoana, por já estar muito relacionado com André da Graça, e encarece a necessidade de saber o nome do proprietário da fazenda do Largo, “ponto famoso para desembarques”. Em setembro de 1856, o presidente da província do Rio de Janeiro advertia ao ministro José Thomaz Nabuco d’Araujo quanto à iminência de um desembarque clandestino de escravos na praia de Bonsucesso, em Macaé.

Outro grande traficante de escravos com base no trecho da ecorregião de São Tomé (entre os rios Itapemirim e Macaé) foi o comendador Joaquim Thomaz de Faria, proprietário das imensas fazendas de Sant’Ana, do Campo Alegre e da Floresta, com engenhos e muitos escravos (OSCAR, João. Escravidão e Engenhos: Campos, São João da Barra, Macaé, São Fidélis. Rio de Janeiro: Achiamé, 1985).

Sobre o mesmo assunto, Norbertino Bahiense levanta a hipótese segundo a qual o lugar denominado de Quartéis, nome também de uma lagoa do sul do Espírito Santo, deve-se à construção de vários pequenos quartéis nos pontos de desembarque de escravos traficados (Domingos Martins e a Revolução Pernambucana de 1817. Vitória: Littera Maciel, 1974). Atribui-se o nome de Quartéis a um destacamento militar instalado em Boa Vista para proteger os viajantes do ataque de índios. Dele deram notícia Wied-Neuwied e Saint-Hilaire, que lá buscaram abrigo em suas excursões científicas pela costa (WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. São Paulo: Edusp, 1989; e SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1974).

Pela contribuição destes dois autores, nota-se como o norte da província do Rio de Janeiro estava ainda bastante ligado ao sul do Espírito Santo, podendo-se levantar a ilação de que esse vínculo seria resultado de uma certa unidade e continuidade geológica e de uma mesma estrutura econômica e política subjacente às fronteiras político-administrativas separando o Rio de Janeiro do Espírito Santo, em caráter definitivo apenas em 1832. Na verdade, até o presente, esta continuidade geográfica e econômica continua existindo.

É interessante notar que vários topônimos mencionados por João Oscar e Norbertino Bahiense vinculam-se às bacias hídricas entre os rios Itapemirim e Paraíba do Sul. Itapemirim era vila situada à margem do rio do mesmo nome que optou subordinar-se a Campos quando do pleito desta cidade em se tornar sede de uma nova província do Império (SOFFIATI, Arthur. O movimento político de Campos em 1855. Campos dos Goytacazes: Instituto Federal Fluminense, 2012). Ceri refere-se à lagoa do Siri. A lagoa dos Quartéis e Marobá continuam com esses nomes. A fazenda do Largo certamente alude à bacia do Largo ou de Tatagiba. A ponta de Buena, situada pouco abaixo de sua foz, criou uma reentrância na costa que permitia o fundeamento de navios. Manguinhos foi mais conhecido no século XIX que nos dias correntes graças à sua posição estratégica no tráfico de escravos e à fazenda do poderoso André Gonçalves da Graça. As fazendas de Cobiça e de Floresta referem-se a afluentes do rio Guaxindiba, hoje transformados em vastos brejos em consequência de interferências antrópicas profundas.

Conclui-se que não apenas a praia de Manguinhos era ponto de escravos traficados, mas o trecho entre ele e Itapemirim onde pesquisas arqueológicas devem ser efetuadas. Esse trecho costeiro da ecorregião de São Tomé era, ainda na primeira metade do século XX, bastante ermo e desconhecido, apresentando condições para o atracamento de barcos de razoável calado.

Mapa da Ecorregião de São Tomé. A linha em vermelho assinala a área de desembarque de escravos traficados
ANÚNCIO
ANÚNCIOS

Siribeira

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Siribeira

O botânico campista Alberto José de Sampaio recusou-se, em sua Fitogeografia do Brasil (3ª edição revista e aumentada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945), a considerar os manguezais como um ecossistema exclusivo da América. Em grande parte, o ilustre botânico tinha razão. A origem dos manguezais situa-se há cerca de 60 milhões de anos, numa região que futuramente constituiria a península do Sudeste Asiático. Desse ponto, as sementes (propágulos) das plantas de manguezal navegaram milênios a fio até colonizarem a região intertropical da Ásia, África, América e Oceania. É claro que, nesse longo e lento percurso, novas espécies foram se originando. Enquanto a vegetação nativa costeira dos continentes provém do interior, a vegetação típica dos manguezais chega dos mares, como os navegadores.

Um gênero exclusivo de manguezal é próspero e mundial. Trata-se do gênero Avicennia, batizada por Lineu com este nome em homenagem ao grande sábio persa muçulmano Avicena ou Ibn-Sina (980-1037). No Brasil, as plantas desse gênero são conhecidas popularmente como mangue preto, siriúba e siribeira. Ele conta com espécies em todo o mundo intertropical. São elas Avicennia alba, Avicennia bicolor, Avicennia eucalyptifolia, Avicennia germinans, Avicennia integra, Avicennia marina, Avicennia nitida, Avicennia officinalis, Avicennia rumphiana, Avicennia schaueriana e Avicennia tomentosa, além de subespécies.

A anatomia estrutural das espécies de Avicennia é basicamente a mesma:
1- raízes alimentadoras, como em qualquer outra espécie angiosperma, apresentam geotropismo positivo, dirigindo-se para o fundo da terra em busca de nutrientes;
2- Raízes respiradoras (pneumatóforos), com geotropismo negativo: são raízes que crescem de baixo para cima num substrato compactado e pobre de oxigênio;
3- Pneumatóforos: células nas compridas e finas raízes que colhem oxigênio para a planta quando a maré baixa deixa-as emersas e que se fecham quando a maré alta as submerge.
4- Resistência à salinidade: as espécies de Avicennia podem suportar altas salinidades;
5- Secreção do excesso de sal por uma ou pelas duas faces da folha, como mecanismo de eliminar o excesso de sal absorvido.

Pneumatóforos em A. marina
Excreção de sal por folha de A. marina

Na América, existem 11 espécies e 1 subespécie de plantas exclusivas de manguezal (SÁNCHEZ, Beatriz Lopez. Ecología de manglares: biogeografía, estructura y zonación. Caracas:Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas, 2006):
1- Rhizophora mangle (com ocorrência entre Bermudas e Santa Catarina e entre México e rio Tumbes, no Peru);
2- Rhizophora harrisonii (ocorrência entre Nicarágua e Brasil, como também no Equador);
3- Rhizophora racemosa (entre Nicarágua e Brasil e entre Panamá e Equador);
4- Rhizophora samoensis (entre Panamá e Equador);
5- Avicennia germinans (entre Bermudas e Brasil e México e Peru);
6- Avicennia schaueriana (entre Caribe e Brasil);
7- Avicennia bicolor (restrita à costa do Pacífico da América Central);
8- Avicennia tonduzii (restrita à costa do Pacífico da América Central);
9- Pelliciera rhizophorae (entre Nicarágua e Costa Rica e Colômbia e Equador);
10- Laguncularia racemosa (entre Estados Unidos e Brasil e México e Peru);
11- Conocarpus erectus (entre Estados Unidos e Brasil e México e Peru)
12- Conocarpus erectus sericeus (endêmica do norte do Caribe)

Nikolaus Joseph von Jacquin (1727–1817) foi o segundo naturalista a usar a nomenclatura binária de Lineu, sendo seu criador o primeiro. Em seu livro em dois volumes sobre a Colômbia e o Caribe, ele registrou a Avicennia germinans (JOCQUIM, Nikolaus Joseph von. Relato de uma seleção de plantas da América, 2 vols. Viena, 1763). O botânico holandês descreveu a espécie com o nome científico de A. tomentosa. Jacquin foi o primeiro naturalista a descrever esta espécie, deixando dela uma estampa.

 

Avicennia germinans em Relato de uma seleção de plantas da América

Uma das mais elevadas condições de um nobre era então dedicar-se ao estudo das ciências, notadamente ser naturalista, como o príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied.

No século XIX, von Martius referiu-se a duas espécies do gênero Avicennia: A. tomentosa e A. nitida, hoje renomeadas como A. schaueriana e A. germinans, respectivamente. O naturalista alemão delimitou a área geográfica de distribuição da A. nitida (A. germinans) entre a Flórida e a Bahia (MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de e Eichler, Augustus Guilielmus (Urban, Ignatius, iisque defunctis successor). Flora Brasiliensis Enumeratio Plantarum in Brasilia Hactenus Detectarum. S/l: s/d.)

Em 1919, Luederwaldt, seguindo os passos de von Martius, disse que a A. tomentosa era típica da América meridional tropical. Dando crédito a Loefgren e Everett, ele procurou em vão a A. nitida nos manguezais de Santos (LUEDERWALDT, Hermann. Os manguezais de Santos. Revista do Museu Paulista tomo XI. São Paulo, Diário Oficial, 1919).

Por muito tempo, o limite sul da Avicennia germinans foi fixado no Espírito Santo (JIMENEZ, Jorge A. e LUGO, Ariel E. Avicennia germinans (L) L. Black mangrove. United State Forest Service Silviculture, n. 4, p. 1-6, 1985). Em 1980, as biólogas Dorothy Sue Dunn de Araujo e Norma Crud encontraram-na medrando na foz dos rios Itabapoana e Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro (FEEMA. Relatório técnico sobre manguezal. RT 1123. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente: Rio de Janeiro, 1980). O segundo rio passou, então, a constituir o seu limite meridional de distribuição. Mesmo assim, a espécie continuou, na literatura, com sua geografia limitada ao Espírito Santo como seu ponto mais austral de ocorrência. Em 1987, Flávia Mochel registrou o gênero na foz do rio Macaé, mas não determinou a espécie, recomendando estudos neste sentido (REBELO, Flávia Cavalcanti. Relatório Técnico sobre o Manguezal de Macaé, RJ. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica, 1987). Dez anos depois, minhas andanças em manguezais, para fins de estudo, revelaram uma população significativa de A. germinans na foz deste rio, o que me levou a registrar o fato (SOFFIATI, Arthur. Entre Câncer e Capricórnio: argumentos em defesa dos manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Xérox do Brasil, 1997).

Juntamente com Norma Crud, dei notícia da nova área de distribuição num trabalho científico (MACIEL, Norma Crud; SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Novos limites para a distribuição geográfica de Avicennia germinans (L.) Stern − Avicenniaceae e Montrichardia arborecens (L.) Schott − Araceae, no Rio de Janeiro, Brasil. In: SIMPÓSIO DE ECOSSISTEMAS BRASILEIROS, 4., Águas de Lindóia, São Paulo, 02 a 07 de abril de 1998. Anais… Águas de Lindóia, SP: Aciesp, 1998. v. 4.). Em 1998, incursionando pelos rios das Ostras e São João, acreditei ter deparado com uma população muito jovem de A. germinans no segundo, não contando com elementos seguros para identificá-la. Era um grupo extremamente novo de plantas, tudo indicando ter origem numa leva de sementes flutuantes, já que não foi encontrada nenhuma árvore-mãe da espécie no manguezal. Retornando ao local um ano depois, verifiquei tratar-se de Avicennia schaueriana.

Cabem as perguntas: de longa data, a espécie está presente nesses pontos, sem ter sido registrada pelos especialistas ou está navegando rumo ao sul? Neste segundo caso, a dispersão estaria ocorrendo naturalmente ou por interferência humana? Tornam-se necessárias mais pesquisas para responder a estas questões com segurança, além de buscar-se também os possíveis fatores limitantes a estabelecerem sua área geográfica.

Até o momento, o limite meridional de distribuição de Avicennia germinans é o rio Macaé. A partir de rio das Ostras, ocorre apenas Avicennia schaueriana. Cabe registrar, por outro lado, que Avicennia schaueriana se distribui por área muito maior, ao lado de A. germinans. Enquanto aquela ocorre do Caribe a Santa Catarina, ou seja, nos limites setentrional e meridional dos manguezais na América Atlântica, esta estaciona no rio Macaé até o momento.

Embora resistente a estressores, o gênero Avicennia pode desenvolver mecanismo de adaptação a impactos. Na Guerra do Golfo, em 1991, O Iraque lançou petróleo no mar como arma de guerra contra os Estados Unidos. Os manguezais foram atingidos. Avicennia marina desenvolveu raízes anômalas para resistir ao entupimento das lenticelas. Raízes alimentadoras foram lançadas acima do nível da maré mais alta, partindo delas pneumatóforos com lenticelas livres para a troca de gazes (BÖER, Benno. Anomalous pneumatophores and adventitious roots of Avicennia marina (Forssk.) Vierh. Mangroves two years after the 1991 Gulf War oil spill. Marine Pollution Bulletin nº. 27. Saudi Arabia. 1993).

No estuário do rio Macaé, foi identificado fenômeno semelhante em exemplares de Avicennia germinans. Raízes adventícias anômalas partiam do caule até a altura de 5,5 metros, emergindo dela pneumatóforos livres de submersão pela maré cheia. O manguezal é bastante afetado por esgoto, que pode poluir o ambiente, mas não exigir das plantas de mangue qualquer forma de adaptação. Contudo, o óleo lançado pelo aeroporto, por garagens de ônibus e pelas embarcações a motor pode causar impacto subletal ao manguezal, exigindo o desenvolvimento de formas adaptativas de sobrevivência (MACIEL, Norma Crud e SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. “Raízes aéreas em Avicennia germinans (L.) Stern. – Avicenniaceae, com emissão de sub-pneumatóforos. Rio Macaé, Macaé, RJ, Brasil. In: Anais do IV Simpósio de Ecossistemas Brasileiros vol. IV. São Paulo: Academia de Ciências do Estado de São Paulo, 1998).

Exemplar de Avicennia germinans com raízes anômalas no estuário do rio Macaé (RJ)

Em quase todos os aspectos anatômicos, Avicennia schaueriana e Avicennia germinans se assemelham: fuste geralmente retilíneo e elegante, raízes respiratórias finas e compridas; flor branca com forte odor de mel e folhas que excretam sal. O naturalista holandês Guilherme Piso informou, no século XVII, que, no Nordeste, pessoas pobres do litoral costumavam lançar três folhas de siribeira em caldos para salgá-los (PISO, Guilherme. História natural e médica da Índia Ocidental. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1957).

É na folha que se encontra a diferença mais perceptível entre as duas espécies. A folha de Avicennia schaueriana é larga e de verde fosco. Nela, o sal é excretado apenas pela face superior da folha. Já a folha de Avicennia germinans é fina e longa, de verde nítido e brilhante. A excreção de sal é efetuada pelas duas faces da folha.

Avicennia germinans
Avicennia schaueriana

O leigo em botânica pode aprender alguns segredos do manguezal mergulhando os pés na lama e estudando.

ANÚNCIO
ANÚNCIOS

A mancha urbana da Região dos Lagos

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A mancha urbana da Região dos Lagos

Em termos geográficos, a Região dos Lagos, como a conhecemos, é recente. Sua formação começou depois de 5 mil anos antes do presente. Que o leitor conte 2 mil anos para o passado, chegando perto no nascimento de Cristo, como estamos acostumados a contar o tempo. Depois, conte mais 3 mil anos para trás. Teremos ao todo, 5 mil anos. Datas muito longas não podem ser precisadas com datações históricas. Por isso, usa-se a contagem do tempo em termos geológicos, tomando-se o presente como marco.

Há 5.100 anos antes do presente, o mar alcançou seu nível máximo no hemisfério sul. A atual Região dos Lagos era maior antes desse avanço do mar. Quando houve o recuou, que chamamos de regressão marinha, a região começou a se definir. As muitas pedras afloradas funcionaram como apoio para reter areia e formar restingas. As partes internas mais baixas permitiram a constituição de três grandes sistemas de lagoas: Araruama, Saquarema e Maricá. Daí o nome de Região dos Lagos.

Esses sistemas lagunares ligam-se ao mar por canais. A salinidade é alta. O sistema de Araruama é hipersalino. O rios são pouco extensos porque o divisor de águas que separa a região da bacia do rio São João situa-se perto do mar. Os rios que nascem nesse divisor de águas correm para o sul, encontrando logo alguma lagoa para interceptá-los. Apenas o rio Una, correndo no sentido, oeste-leste, encontra mais espaço para se estender e chegar ao mar diretamente. No passado, o pequenino rio do Trapiche também desembocava no mar. Sua área estuarina foi aproveitada para a construção da marina de Búzios.

Muito importante do ponto de vista geológico, paleontológico, arqueológico e ecológico, de modo geral, a Região dos Lagos não é propícia e uma urbanização adensada. Falta-lhe uma fonte adequada de água doce. Então, ela precisa ser importada da bacia do rio São João, atravessando o divisor de águas. A lagoa de Juturnaíba, integrante da bacia do São João, foi transformada num reservatório de água para atender os municípios da própria bacia, mas principalmente para os municípios da Região dos Lagos.

Depois de usada, a água servida não conta com um local para destinação adequada. Mesmo sendo tratada em nível terciário, ela não pode ser lançada nas lagoas para não alterar suas propriedades físico-químicas. Água doce em excesso, ainda que limpa, reduz a salinidade da lagoa de Araruama, por exemplo. Usada em serviços urbanos, a água tratada sobra. Retorná-la à lagoa de Juturnaíba custa caro e consiste numa solução polêmica. Tem-se cogitado muito o lançamento dessa água residuária na bacia do rio Una, o que, com razão, vem merecendo protestos dos moradores de Búzios. Discute-se ainda o lançamento dessas águas no mar, por meio de emissário submarino.

Também não há espaço para o lixo. Por mais que se recorra aos aterros sanitários, há um ponto de limite. Devido à grande salinidade das lagoas, a Região dos Lagos tornou-se uma grande área salineira. Na década de 1940, Alberto Ribeiro Lamego escrevia no “O homem e a restinga” (Rio de Janeiro: IBGE/Conselho Nacional de Geografia, 1946) sobre a importância econômica dessas áreas arenosas. Em sua visão pragmática e utilitarista, que era a visão de sua época, as restingas inibem a ação transformadora do ser humano. Ele se torna preguiçoso. Até mesmo a vegetação é enfezada, com suas árvores tortas e seus mangues insalubres. A pouca contribuição econômica que as restingas apresentam está limitada à pesca e à extração salina. A restinga do norte fluminense limitava-se à pesca, enquanto que a da Região dos Lagos restringia-se à pesca e ao extrativismo do sal.

Quando Lamego escreveu a sua tetralogia épica, o turismo não era uma atividade a ser considerada economicamente. A atriz francesa Brigitte Bardot revelou para o mundo aquilo que os portugueses e europeus, no geral, já sabiam sobre a Região dos Lagos: a sua beleza. A atividade turística rapidamente cresceu na Região dos Lagos a partir da década de 1960. Hotéis e pousadas se multiplicaram para receber visitantes. A reboque, desenvolveu-se uma rede de restaurantes. Pessoas com posses construíram casas luxuosas de veraneio nos locais mais paradisíacos e recônditos. Casas também são alugadas. Iates circulam pelo mar da região e transatlânticos ancoram em suas praias na estação de veraneio. Os preços de bens e serviços tornam-se exorbitantes. Faltam pousadas, água, alimento, energia. Trata-se do que os economistas ecologistas denominam de contraprodutividade: a produção de bens e serviços cresce com a demanda, estimulando mais demanda, até que os limites naturais de espaço, de água, de energia sejam atingidos. Assim, a Região dos Lagos pode chegar a um ponto de saturação e perder seu charme. Então, o turismo predatório buscará outro lugar para consumir e destruir.

Localização da área do empreendimento imobiliário

As áreas esgotadas de exploração salina estão sendo aproveitadas agora para a construção de marinas e resorts. Atualmente, quase podemos falar numa só cidade para a Região dos Lagos. Elas são densas no centro e mais difusas na periferia, mas já estão acentuando a conurbação. Inclusive com cidades além da serra do Inoã, que separa a Região da baía de Guanabara. A rigor, Maricá ergueu-se na Região dos Lagos, mas já se está incluída no grande Rio de Janeiro. E as áreas ainda não urbanizadas na Região dos Lagos estão na mira da especulação imobiliária. Atualmente, a área de Ogiva, na margem esquerda do canal de Itajuru, que liga a lagoa de Araruama ao mar, tornou-se um de seus alvos. O município favorece o empreendimento batizado de Viverde Cabo Frio, exigindo apenas um Relatório de Vizinhança. Empresas de consultoria estão sempre prontas para atender a tais demandas. Elas empregam cientistas novatos que não estão se importando com responsabilidade ambiental e social. O Relatório de Impacto de Vizinhança é elaborado em consonância com normas pré-estabelecidas.

Lagoa no interior da área de Ogiva ornada por espécies de manguezal, o que caracteriza Área de Preservação Permanente (APP)
Caranguejos na parte rasa da lagoa

A área de Ogiva sustentou uma salineira desativada. Trata-se área úmida salina com uma lagoa. Há um manguezal constituído de mangue-de-botão, siribeira e mangue branco. É área de pouso e alimentação de aves. A vegetação foi destruída recentemente por um grande incêndio. A instalação de uma nova marina destruirá uma área natural de importância ambiental. Como ela fica entre duas Unidades de Conservação, o mais adequado seria incorporá-la a um das duas, transformando-a em elo entre ambas. Nenhum levantamento de espécies de aves e de peixes foi feito. Se foi, os interesses imobiliários suplantaram a importância ambiental. Os Relatórios não passam de uma formalidade legal. Licenciado e instalado o empreendimento (ele sempre é), a empresa de consultoria, os técnicos e o Relatório não importam mais. O empreendimento ganha vida própria, exercendo pressão sobre os serviços municipais. Ele aumentará demanda de água potável e energia. Aumentará a produção de esgoto e poderá contribuir para ameaçar mais ainda a bacia do Una.

Bosque de mangue-de-botão e de siribeira. Presença de aves
ANÚNCIOS

As saídas do Paraíba do Sul para o mar e o mangue

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

As saídas do Paraíba do Sul para o mar e o mangue

Pelo senso comum, o rio Paraíba do Sul sai para o mar apenas pelos braços de Atafona e de Gargaú. Em tempos de estiagem, nem mais por Atafona, pois esse braço é fechado pela força do mar e pela fraqueza do rio. Tanto um quanto outro fenômeno têm componente natural, mas potencializado por interferência humana. O nível do mar está se elevando pelo aquecimento global, que dilata a água e derrete geleiras. O rio perde força por conta de desmatamentos, erosão, assoreamento, barragens e, sobretudo, pela transposição de 2/3 de sua vazão para o rio Guandu.

Numa viagem imaginária no tempo, voltemos dez mil anos sem tirar os pés do que hoje é a baixada dos Goytacazes. Os pés poderiam ficar molhados e até mesmo poderíamos nos afogar porque o nível do mar estava subindo e avançando sobre o antigo continente, que era formado por material típico das barreiras existentes em São Francisco de Itabapoana e Marataízes. O ponto mais baixo desse antigo continente deveria ser o leito do Paraíba do Sul, que já corria para o mar. As temperaturas estavam aumentando por forças naturais. O nível do mar estava se elevando. As águas marinhas avançaram sobre o antigo continente e chegaram perto da lagoa de Cima. O antigo continente foi dissolvido e deu lugar a uma grande laguna.

Máximo avanço (transgressão) do mar na região, cerca de 5.100 antes do presente, segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997)

O pico dessa elevação ocorreu há 5.100 anos antes do presente. As primeiras civilizações emergiam na Mesopotâmia e no Egito nesse tempo. Por aqui, o mar começou a descer a partir dessa data. O rio Paraíba do Sul começou a avançar sobre a laguna e a construir, com a contribuição dos rios Guaxindiba, Muriaé, Imbé e Macabu, um grande aterro com sedimentos transportados das partes altas. Trata-se da parte fluvial da planície.
Deve-se levar em conta que o jato do Paraíba do Sul era muito mais forte naqueles tempos remotos. Esse jato interferiu na corrente predominante do mar, que, nesse ponto, corre de norte para sul. Então, a areia transportada pelas correntes marinhas foi retida pelo jato do rio, formando-se a grande restinga de Paraíba do Sul, a maior do estado do Rio de Janeiro. Plantas, animais e povos nativos colonizaram a planície fluvial e marinha.

Mas a planície fluviomarinha é mais complexa do que se supõe. Ela apresenta, na margem direita do Paraíba do Sul, uma ligeira declividade de cerca de 10 metros entre o ponto onde futuramente erguer-se-ia a cidade de Campos e o nível do mar. As cheias eram frequente e regulares. Os transbordamentos do rio pela margem direita corriam em direção à linha de costa, formando drenos naturais e se acumulando em rasas depressões. Eram as lagoas. Formaram-se muitas. A maior delas é a lagoa Feia. A maior parte dessas magníficas lagoas foi drenada, e não aterrada, como se costuma dizer. Ou seja, canais mais fundos que elas foram abertos para a água fluir em direção ao mar.

Ao lado dessa grande restinga, existe outra, que se estende de Barra do Furado à margem esquerda do rio Macaé. Esta restinga tem data estimada de 120 mil anos. Ela se formou por outro processo, não por ação do rio Paraíba do Sul. Portanto, não a considero como parte do grande delta desse rio. A ação do Paraíba do Sul engloba toda a lagoa Feia, que se situa em terreno mais recente pelo ângulo da geologia, como mostra o mapa abaixo.

A linha vermelha assinala os limites da zona deltaica do Paraíba do Sul e as linhas azuis indicam os defluentes do rio no mar

Os rios Paraíba do Sul e Ururaí formaram-se pelo mesmo processo que construiu a planície fluviomarinha. O rio Imbé forma a lagoa de Cima e, quando o mar chegou perto dela, seu escoamento devia ser para o mar. O mesmo acontecia com o rio Preto. Quando o rio Paraíba do Sul avançou e a planície se formou, o rio Preto passou a ser afluente do Paraíba do Sul pela margem direita e o rio Imbé-lagoa de Cima construiu, juntamente com o Paraíba do Sul, o rio Ururaí e a lagoa Feia. Há um desnível entre a margem direita do Paraíba do Sul e o rio Ururaí e a lagoa Feia. Daí, os transbordamentos lançarem as águas do primeiro para o segundo e para a grande lagoa. Mesmo em tempos de estiagem, existe um fluxo neste sentido pelo lençol freático. Em resumo, as águas do Paraíba do Sul vertem para o rio Ururaí e para a lagoa Feia pelo lençol freático e pela superfície com os transbordamentos. Mas não acontece o contrário. Daí, ser necessário examinar o sistema Ururaí, que integra o rio Imbé, a lagoa de Cima, o rio Ururaí, a lagoa Feia e o antigo rio Iguaçu, e o sistema Paraíba do Sul quando o nível de ambos está baixo.

Se o nível do Paraíba do Sul se eleva, é de se esperar que o nível do sistema Ururaí também se eleve. Mas, se o nível do sistema Ururaí se eleva, suas águas não atingem o Paraíba do Sul nem pela superfície nem pelo lençol freático. Foi o que aconteceu na enchente de 2008-9: a enchente do sistema Ururaí ocorreu não apenas pela enchente do Paraíba do Sul, mas pelas intensas precipitações pluviométricas nas cabeceiras do rio Imbé. A conclusão é que uma enchente no Paraíba do Sul afeta o sistema Ururaí, mas uma enchente neste não atinge o rio Paraíba do Sul.

Mas voltemos às saídas originais do Paraíba do Sul pelo mar. As duas primeiras saídas dele são as atuais. O rio forma um pequeno delta com os braços de Gargaú e de Atafona. Mas os transbordamentos que ocorriam nas cheias lançavam água num dreno natural que foi batizado de rio Água Preta. Esse rio também corria com defluentes, isto é, com fluxos que saem de um rio, e não correndo para ele, como afluentes. Dois grandes defluentes do rio Água Preta chegavam ao mar em tempos de cheias. Mais tarde, esses defluentes receberam os nomes de lagoas de Gruçaí e de Iquipari. Continuando a correr, o Água Preta afluía para o rio Iguaçu, que nascia de um conjunto de defluentes da lagoa Feia e chegava ao mar em regime periódico ou permanente. Na altura da atual Campos, o rio Paraíba do Sul se bifurcava em dois. Um braço dirigia-se para o ponto atual da desembocadura no mar e outro se dirigia para o sul, encontrando-se com o rio Iguaçu em sua foz e aumentando mais ainda sua vazão, juntamente com o rio Água Preta. Esse braço foi naturalmente perdendo força e se tornou o famoso córrego do Cula ou Grande Canal, eixo que orientou a estrada de terra entre Campos e Farol de São Tomé, a estrada de ferro que chegava a Santo Amaro e a atual rodovia asfaltada. Por esse eixo, começou a colonização europeia da região.

Assim, o rio Paraíba do Sul era muito mais complexo no passado. É de observar que todas as desembocaduras do Paraíba do Sul no mar, tanto as permanentes quanto aos auxiliares, assim como o rio Iguaçu, situam-se acima do cabo de São Tomé, a oeste. A explicação mais adequada para que os fluxos se fixem nesse trecho da costa são as fortes correntes marinhas no setor sul da costa, assinaladas no primeiro mapa deste artigo, que não permitiam qualquer saída para o mar nesse trecho. Essas correntes empurraram as saídas para o setor leste.

A fim de ordenar o que se considerava um verdadeiro caos hídrico, o governo federal criou, em 1933, a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense. Em 1940, ela se transformou no Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Entre 1940 e 1950, a estrutura básica de drenagem na margem direita do rio Paraíba do Sul estava montada. Um dos drenos naturais foi transformado na espinha dorsal do sistema. Trata-se do canal São Bento. Ele é o único que liga diretamente o Paraíba do Sul ao canal da Flecha, aberto na década de 1940, ligando a lagoa Feia ao mar. Essa ligação criou um novo rio na planície, contrariando a direção dos demais. O Flecha corre de norte para sul, enquanto os naturais correm de oeste para leste.

O antigo rio Água Preta ou Doce foi transformado no canal do Quitingute, o mais longo da rede, nascendo no canal de São Bento e desembocando nele em seu final. Sua abertura, cortou a ligação que ele tinha com seus dois grandes defluentes, que se transformaram nas lagoas de Gruçaí e Iquipari, respectivamente. Por sua vez, o canal da Flecha seccionou o antigo rio Iguaçu, depois todo retalhado pelo núcleo urbano do Farol de São Tomé. Restou dele o trecho final, conhecido hoje como lagoa do Açu.

Havia assim, no passado, o pequeno e o grande delta do Paraíba do Sul. O pequeno, formado pelos braços de Gargaú e Atafona, ficava ativo o ano inteiro. O grande, formado pelo pequeno e pelas lagoas de Gruçaí e Iquipari e pelo rio Iguaçu, era ativado em tempos de cheia. Sendo um rio que desemboca no mar na zona intertropical, nada mais natural que suas saídas fossem colonizadas por plantas de mangue.

Os dois braços do pequeno delta, sempre abertos, foram mais colonizados por essas plantas navegantes que se fixam em estuários intertropicais, ou seja, ali onde a água doce do rio se encontra com a água salgada do mar, formando água salobra, com salinidade matizada. A margem esquerda do braço de Gargaú permitiu o desenvolvimento de um dos maiores manguezais do estado do Rio de Janeiro. Sendo uma área de acumulação de areia, mas também de argila, esse terreno favoreceu a formação de um grande manguezal com quatro espécies exclusivas desse ecossistema, das seis encontradas no Brasil. Além do mais, tem um aspecto de rio amazônico pela presença da planta aninga (Montrichardia linifera), cuja distribuição em toda a América tinha seu limite sul no Paraíba do Sul. Ele sofre invasões de criadores de gado e da vila de Gargaú. Visitado em janeiro de 2022, ele não apresentou muitas alterações.

População de aninga na foz do rio Paraíba do Sul. Foto do autor

Já o braço de Atafona, sofre forte erosão desde o tempo de sua formação por conta da corrente marinha predominante, na direção norte-sul. Nas ilhas, ele se mostra vigoroso, mas, na margem do canal, a erosão cobre suas raízes respiradoras (pneumatóforos), matando as plantas. Aí, apenas a siribeira (Avicennia germinans) e o mangue branco (Laguncularia racemosa) são encontrados, ambos com sistemas respiratórios ao rés do chão. No entanto, as plantas de manguezal apresentam forte resiliência. Quando se conclui que elas morreram, eis que as folhas reaparecem, dando sinal de vida. Na mesma vistoria do final de janeiro, verificou-se o tímido renascimento de um bosque de siribeira considerado já morto.

Bosque se siribeira em Atafona. Aparentemente, ele apresentava sinais de ter morrido pela erosão, mas voltou a emitir sinais de vida com as folhas. Foto do autor

Na lagoa de Gruçaí, a barra estava aberta. O trecho final da lagoa foi densamente urbanizado. Gruçaí cresceu muito entre a lagoa e Iquipari. Não existe rede coletora de esgoto, que é lançado nas águas da lagoa. Com as chuvas, há refluxo. Então, os veranistas pressionam a prefeitura para abrir a barra, que por sua vez pressiona o Inea. Aberta a barra, a lagoa fica quase seca e o mar se torna poluído.

No tempo em que o sistema deltaico funcionava normalmente, um pequeno manguezal formou-se na lagoa. Exemplares de mangue branco remanescentes demonstram a existência de um manguezal pretérito maior e mais saudável. Existem, inclusive, exemplares de aninga hipertrofiados. Suas sementes devem ter penetrado na lagoa no passado. Até a descoberta de alguns exemplares em Maricá, a lagoa de Gruçaí era o ponto meridional de distribuição da espécie. Hoje, existem evidências de que o manguezal tenta se recuperar na lagoa, mas não encontra condições para tal. O mangue branco é a espécie que tenta colonizar o ambiente sofrendo a concorrência de espécies tolerantes à água doce.

Moita de mangue branco na margem da lagoa de Gruçaí. Foto do autor

Em Iquipari, também exemplares de mangue branco (Laguncularia racemosa), siribeira (Avicennia germinans) e mangue vermelho (Rhizophora mangle) já foram encontradas. Se, na praia de Atafona, a erosão lança areia sobre as raízes respiratórias das espécies que as emitem (mangue branco e siribeira), levando as árvores a estado de estresse ou de morte, nas lagoas, a estabilização da lâmina d’água é que leva ao estresse e à morte. Pelo menos, o mangue branco consegue crescer nas margens, onde a água salobra oscila.

Com as chuvas, a lagoa de Iquipari encheu muito e a prefeitura oficiou ao Inea a abertura da sua barra. A autorização foi dada. A lagoa fluiu com intensidade para o mar, provocando uma grande mortandade de peixes e de outros animais aquáticos pelo choque térmico e osmótico. As touceiras de mangue branco estão secas, mostrando esforço adaptativo para sobreviver submersas permanentemente. Na praia, foi encontrada uma profusão de sementes (propágulos) de mangue branco e de siribeira.

Pequeno manguezal em substrato elevado da lagoa. Em tempos normais, ele fica afogado. Foto do autor
Conjunto de exemplares aparentemente mortos de mangue branco na lagoa de Iquipari. O olhar mais atento, revela esforço das plantas para sobreviver lâmina d’água estabilizada. Foto do autor
Sementes (propágulos) de siribeira nas praias da lagoa de Iquipari. Foto do autor

Finalmente, na lagoa do Açu, os remanescentes do grande manguezal do antigo rio Iguaçu revelam pujança e diversidade. Trata-se de um dos mais atraentes manguezais do estado do Rio de Janeiro. Além das três espécies de mangue mais comuns no norte fluminense, ele conta ainda com uma apreciável população de mangue-de-botão (Conocarpus erectus). Sua resistência à água salgada já o inclui entre as espécies de mangue. Contudo, a alta salinidade nas proximidades da barra e a estabilização da lâmina d’água são fatores que causam estresse às plantas.

Exemplares de mangue vermelho revelando estresse salino na barra da lagoa do Açu. Foto do autor

Em torno de Barra do Furado, há três bosques de mangue, sendo dois quase ligados. Mas aí já é outra história, pois tudo indica que eles se formaram a partir da abertura do canal da Flecha.

Quando as primeiras chuvas de 2022 passaram entre Itapemirim e Macaé

Transbordamento do rio Itapemirim na estrada de Penedo
Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Quando as primeiras chuvas de 2022 passaram entre Itapemirim e Macaé

Numa guerra convencional, os ataques aéreos podem ser enfrentados com canhões antiaéreos, misseis e caças a jato. No ataque de chuvas volumosas, não há como se defender no ar. As chuvas atingem invariavelmente o solo e correm para as áreas mais baixas. Pode-se criar sistemas de defesa na superfície terrestre, mas parece que ainda estamos longe disso diante dos ataques recentes, muito mais destruidores que os do passado por conta das inegáveis mudanças climáticas.

Estudo a área situada entre os rios Itapemirim e Macaé, que, pela unidade ecológica e econômica, denomino de ecorregião de São Tomé. O eixo dela é o rio Paraíba do Sul, situado a meio caminho entre os dois rios limitantes da ecorregião. Ele é o maior rio a drenar a área. Pela margem esquerda, recebe afluentes que nascem em Minas Gerais. Pala margem direita, recebe rios da região serrana do Rio de Janeiro. Como drena uma imensa área, é natural que receba muita água quando chove de forma abundante.

Como não pude sair de casa por estarem várias estradas interrompidas por transbordamentos e rompimentos de diques, busquei informações sobre as enchentes na Ecorregião de São Tomé nos jornais e junto a meus atentos informantes. Na bacia do Itapemirim, se houve transbordamentos, eles não foram mais destruidores que os de 2020. Registrou-se transbordamento do rio principal na estrada de Penedo.

Transbordamento do rio Itapemirim na estrada de Penedo
Transbordamento do rio Itapemirim na estrada de Penedo

O rio Itabapoana transbordou, como sempre, em Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte. Esse rio foi comprimido pelas duas cidades conurbadas, uma no estado do Rio de Janeiro e outra no estado do Espírito Santo.

Transbordamento do rio Itabapoana em Bom Jesus do Itabapoana

Os córregos que correm no território de São Francisco de Itabapoana devem ter provocado alagamentos. Eles são fundamentais para a drenagem de águas pluviais para o mar. Porém, estão sendo destruídos progressivamente por entupimentos, barragens e mudanças de curso. Houve alagamento na praia de Santa Clara por falta de canais de escoamento. Não é a primeira vez que isso acontece. Não há, por parte do poder público de São Francisco de Itabapoana, qualquer intenção de construir um sistema de drenagem mais duradouro, aproveitando a proximidade do mar.

Tomemos o rio Paraíba do Sul no trecho Itaocara-foz. Em Miracema, o ribeirão Santo Antônio, afluente do Pomba, transbordou. Ele era lindo e límpido. Hoje, espremido pela cidade, transformou-se numa vala de esgoto. Aperibé também foi afetado pela enchente do Pomba, assim como Santo Antônio de Pádua. Pouco mais abaixo, Itaocara, núcleo urbano que se ergueu no encontro do Pomba com o Paraíba do Sul, foi invadida pelas águas. As ruas se transformaram em rios. Milhares de moradores tiveram de sair de casa, assim como casas abandonaram seus moradores.

Transbordamento do rio Paraíba do Sul em Itaocara

Em Cambuci, mais uma vez o valão Dantas, que desce da serra do Monte Verde, ganhou volume e transbordou antes de chegar ao Paraíba do Sul. As prefeituras de Santo Antônio de Pádua, Aperibé, Cambuci e Itaocara decretaram situação de emergência, mas as águas não se importam com essas medidas governamentais convencionais. As águas são horizontalmente democráticas. Elas invadem as sedes municipais e os distritos.

Enchente no valão Dantas, Cambuci

Além de receber alto volume de água proveniente da abertura das comportas da represa Santa Cecília e de Minas Gerais pelo rio Pomba, São Fidélis também foi afetado pelas chuvas na Serra do Mar, em sua vertente interior. São Fidélis se espreme entre o pé da serra e a margem direita do Paraíba do Sul. A cidade comprimiu e cobriu o trecho final do valão Catarina. Com as chuvas na serra de alta declividade, as águas ganharam velocidade e fúria, atingindo a localidade de Palmital. Mas abaixo, o pouco urbanizado rio do Colégio ganhou força e afetou áreas rurais.

Enchente do valão Catarina em Palmital

O rio Muriaé, que nasce em Minas Gerais, foi ganhando volume com as chuvas. O rio Carangola, seu afluente bastante acidentado, invadiu Porciúncula e Natividade.

Transbordamento do rio Carangola em Porciúncula

O Muriaé transbordou em Laje do Muriaé e Itaperuna. Nesta cidade, sempre nos mesmos lugares, onde nenhum sistema de proteção é construído depois que a chuva passa.

Transbordamento do rio Muriaé em Itaperuna

Descendo mais, o Muriaé transbordou em Italva e Cardoso Moreira. Na altura de Três Vendas, já em Campos, o rio encontrou ambiente favorável com o dique de Boianga, rompido pela enchente de 2020, ainda aberto. As águas avençaram para o sistema irresponsável do DNIT, que protege a rodovia BR-356, mas não a comunidade de Três Vendas. Esse é um dos calcanhares-de-aquiles do baixo Muriaé sempre expostos a desastres. Entre Três Vendas e Campos, as águas passaram sobre a estrada em direção às lagoas da margem esquerda do baixo Muriaé, como no passado.

Em Campos, o rio passou de 10,40 m e transbordou na cidade. Antes, a água já estava passando pelos bueiros. Em certos bairros, o dique não é tão protetor. 10,40 m. é apenas uma medida simbólica. Mais abaixo, a força das águas rompeu o dique de terra da margem direita do Paraíba do Sul em Barcelos. A Br-356 não se rompeu, mas a água de transbordamento passou sobre a estrada, que foi interditada. Para um amante da natureza, o rio Paraíba do Sul ganhou aspecto esplendoroso perto da foz. Imaginei que seu aspecto normal deveria ser esse no século XVI, quando Pero de Gois singrou suas águas à procura de um ponto favorável para a sede da capitania de São Tomé.

Rio Paraíba do Sul na foz durante a enchente a primeira quinzena de janeiro de 2022

O sistema Ururaí foi atingido em Trajano de Morais, com deslizamento de encostas. Na bacia do rio Macaé, houve transbordamento nas áreas úmidas que a cidade de Macaé está urbanizando de forma errada. As águas passaram sobre a Linha Azul.

Linha Azul cercada por águas, Macaé

Breve nota sobre uma espécie rara de mangue

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Breve nota sobre uma espécie rara de mangue

À memória de Tania Mara Simões do Carmo

Existem nove espécies de mangue nas costas atlântica e pacífica da América do Sul: Rhizophora mangle, R. racemosa, R. harrisonii, Avicennia germinans, A. schaueriana, A. bicolor, Laguncularia racemosa, Conocarpus erectus e Pelliciera rhizophorae. O oceano Índico é bem mais próspero em espécies. Os gêneros Rhizophora e Avicennia são os mais bem representados no mundo dos manguezais. O gênero Laguncularia conta apenas com uma espécie. O gênero Conocarpus também. Pode-se encontrar o Conocarpus erectus fora de áreas de manguezal, mas ele tem grande resistência à salinidade, podendo ser encontrado em ambientes hipersalinos, como as lagoas de Araruama e Salgada, no estado do Rio de Janeiro. No meu entendimento de leigo, considero o Conocarpus erectus uma espécie de mangue que pode aparecer eventualmente desgarrada de bosques de manguezal, assim como já encontrei Laguncularia racemosa num costão rochoso em meio a plantas não exclusivas de mangue.

Das oito espécies, não conheço a Pelliciera rhizophorae. Foi a saudosa professora Tania Mara Simões do Carmo quem a apresentou a mim por fotos. Trata-se de uma espécie exclusiva de manguezal. Sua distribuição limita-se à América Central atlântica e pacífica, sendo uma espécie rara e ameaçada de extinção.

Em vermelho, a área de distribuição de Pelliciera rhizophorae

Descrita por Jules Émile Planchon e José Jerónimo Triana pela primeira vez em 1862, a espécie passou a ser conhecida como mangue-chá porque suas folhas contêm tanino e outras substâncias encontradas nas folhas do chá. Sua distribuição era mais ampla há 20 milhões de anos. Mas sua área reduziu-se significativamente depois por ação natural. Ela é encontrada entre o Golfo de Nicoya, na Costa Rica, e o rio Esmeraldas, no Equador, pela costa do Pacífico, e do Golfo do México ao mar do Caribe até a Venezuela, na costa atlântica da América. Talvez tenha existido na costa norte do Brasil.

A configuração da América mudou na história geológica da Terra. O istmo do Panamá não existia, permitindo ampla comunicação do Atlântico com o Pacífico. Ao criar-se a estreita faixa de terra entre Américas do Norte e do Sul, o isolamento da América do Sul, com sua estupenda fauna de herbívoros, chegou ao fim. Pelo istmo do Panamá, uma agressiva fauna proveniente da América do Norte invadiu a América do Sul, pondo fim ao chamado Esplêndido Isolamento. A comunicação entre os dois oceanos foi interrompida até a abertura do Canal do Panamá, no início do século XX. Mas as espécies de mangue navegaram livremente antes do fechamento e mesmo depois, pelo canal. Levanta-se a hipótese segundo a qual o mangue-chá retraiu-se diante de mudanças de salinidade no solo no âmbito dos bosques de mangue, das oscilações do nível do mar e do aumento da competição com Rhizophora.

Como as demais espécies de mangue, Pelliciera rhizophorae cresce em estuários e em praias protegidas. Enquanto as plantas do gênero Rhizophora emitem ramificações caulinares separadas, os exemplares de Pelliciera desenvolvem conjuntos maciços de raízes em torno do caule que lhes dão o aspecto de árvores das matas inundadas da Amazônia.

Bosque de mangue-chá em maré baixa, com caule característico

A Pelliciera rhizophorae guarda semelhança com as espécies de Rhizophora, mas se integra na família Tetrameristacea, com apenas cinco representantes distribuídos em três gêneros. O gênero Pelliciera conta com apenas uma espécie. Tal como Rhizophora, Avicennia e Laguncularia, a Pelliciera rhizophorae tem lenticelas, poros que permitem à planta respirar quando da maré baixa. Nas raízes compactas que brotam do caule antes de chegar ao solo, há um sistema que consegue bloquear o excesso de sal e de poluentes. Como no mangue vermelho, os contrafortes radiculares conferem estabilidade à árvore. Esses contrafortes não costumam passar de um metro de altura e 80 a 100 cm de largura. Eles não penetram profundamente no solo e não substituem as raízes nutridoras da planta. Embora de família distinta, Pelliciera rhizophorae lança em torno de si pneumatóforos, raízes que vem à tona (geotropismo negativo) para respirar, como as espécies de Avicennia e como Laguncularia racemosa.

Lenticelas de Pelliciera rhizophorae
Pneumatóforos de Pelliciera rhizophorae

As folhas da Pelliciera rhizophorae são coriáceas e dispostas em espiral. Têm comprimento de 20 cm ou pouco mais, com largura de 5 cm. São lisas em ambas as faces com alguns pelos nas bordas. Existem duas glândulas em cada folha que secretam substância adocicada apreciada por formigas, que defendem essa secreção de outros invertebrados. Assim como as folhas das espécies de Avicennia secretam sal, as de Pelliciera secretam substância adocicada. Essas folhas ganham coloração amarelada ao envelhecerem. O sal e os poluentes não retidos pelo caule acabam nas folhas envelhecidas.

Folhas de Pelliciera rhizophorae

As flores do mangue-chá são brancas, crescendo no final dos ramos entre as folhas. No seu desenvolvimento, essas flores, quando novas, apresentam-se fechadas e protegidas por bracteolas de cor branca a vermelho escuro. Ao abrir-se, a flor mostra-se plena, com suave perfume. Elas atingem até 13 cm de diâmetro. O curioso é que as folhas e as flores dos exemplares da Pelliciera rhizophorae do Pacífico e do Atlântico, mesmo contíguas em área bastante restrita, apresentam diferenças. As folhas e flores começam a mostrar coloração distinta, como se estivessem em processo de diferenciação específica.

Flor de Pelliciera rhizophorae

Quanto ao fruto, quando maduro ele apresenta coloração marrom e alcança cerca de 10 cm de diâmetro, com tamanho de até 14 cm. Dentro dele, desenvolve-se uma semente vivípara pouco menor que o próprio fruto. É tipicamente uma espécie de mangue, já que a semente é, na verdade, um propágulo. Quando se desprende da árvore-mãe, sua ponta afilada com até 5 cm permite que ela se fixe no chão, a exemplo do propágulo do mangue vermelho. Desse propágulo, emerge um broto já bem desenvolvido. É uma nova plântula, que carrega as duas metades do propágulo. Essas metades fornecem à plântula energia e nutrientes até por12 meses. Nesse aspecto, o propágulo se parece com o do gênero Avicennia.

Propágulo de Pelliciera rhizophorae

A salinidade adequada para o mangue-chá não deve ultrapassar a 37%. Como já se disse, acredita-se que salinidades altas foram responsáveis pela redução da área ocupada por Pelliciera rhizophorae. A poluição da zona costeira é outro fator a ameaçar a espécie. No máximo, ela suporta teores baixos de poluição. A de natureza orgânica pode mesmo alimentá-la. Geralmente, uma árvore não ultrapassa 15 metros de altura.

Do ponto de vista econômico, ela deve ter sido usada para fornecer lenha, madeira e tanino. Atualmente, é vendida como planta ornamental de difícil desenvolvimento fora do seu meio.

Bosque de Pelliciera com maré alta

Manguezais da Região dos Lagos: uma atualização

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Manguezais da Região dos Lagos: uma atualização

Distingo duas regiões dos lagos. A grande se estende da serra do Inoã ao rio Macaé. A partir deste, a costa apresenta outra configuração: é nova, baixa e desprovida de pedras. A pequena é a que se conhece mesmo como Região dos Lagos, estendendo-se da serra do Inoã ao rio Una. Não importa aqui considerar a zona costeira de cada município dela porque as divisões administrativas não acompanham necessariamente a realidade natural.

De todos os ecossistemas vegetais nativos, o manguezal é um dos poucos que não depende da flora continental, pois é constituído de espécies vegetais provenientes de outros lugares. Elas se enraízam em ambientes costeiros propícios, como estuários e praias calmas. Daí, emitem sementes (propágulos) que caem na água e são transportadas para outros pontos também favoráveis ao enraizamento pelas marés e correntes marítimas.

Podemos distinguir, na pequena Região dos Lagos, dois ambientes para a formação de manguezais. O primeiro é a enseada que se forma entre o rio Una e a Ponta da Sapata. Cabo Frio e Búzios dividem esse território, cabendo a Búzios a maior parte. Com salinidade e energia marinha atenuadas, existem na enseada condições favoráveis à formação de manguezais de franja ou borda, um tipo fisiográfico que não depende necessariamente de estuários, que pressupõem rios.

O segundo ambiente se estende do final da Ponta da Sapata à serra de Inoã, onde domina o mar aberto, com grande energia, e lagoas com salinidade variável. De um lado, o mar aberto é um fator limitante para o enraizamento de plantas de mangue. De outro, a salinidade e o semi-fechamento das lagoas também dificultam o crescimento de manguezais.

Enseada de Búzios

O maior rio da pequena Região dos Lagos desemboca na enseada de Búzios. Trata-se do rio Una. Embora com cerca de 40 quilômetros de extensão apenas, sua dimensão longitudinal só foi possível por ele correr na direção oeste-leste, acima das lagoas e paralelo ao rio São João, desembocando no mar. Os outros rios da região correm de norte para sul, sendo logo interceptados por lagoas. Nas visitas feitas à foz do Una, entre 2004 e 2014, sua foz fazia uma curva em direção ao sul, revelando a direção da corrente marinha predominante. Com a canalização de sua bacia pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento, a partir da década de 1940, houve redução de vazão. Voltando à região em fins de 2021, notou-se que a foz desemboca agora de maneira perpendicular à praia com o mangue mais interiorizado no estuário. Trata-se de um típico manguezal ribeirinho com três das seis espécies da costa brasileira.

Essa mudança no trecho final do seu curso pode indicar aumento de vazão do rio. Existem suspeitas de que uma das concessionárias de água e esgoto da Região dos Lagos esteja lançando efluentes de esgoto tratado nos três principais afluentes do rio aumentando o volume fluvial. Nota-se que, a partir do Una, existe a tendência de se formar manguezais de franja ou de borda. Resquícios de um manguezal desse tipo ainda são vistos na margem direita do Una. Sendo um típico mangue ribeirinho, o do Una conta com as três espécies encontradas ao sul do rio das Ostras: mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue preto ou siribeira (Avicennia schaueriana) e mangue branco (Laguncularia racemosa), além de espécies concorrentes não-exclusivas de manguezal.

Foz do rio Una em 2021

Logo abaixo do rio, existe agora um curso hídrico diminuto cuja origem não se pôde detectar. Nele, ainda não houve o enraizamento de espécies de mangue, mas as condições são propícias para tanto.

Novo curso hídrico, paralelo ao rio Una

Ao sul do rio Una, localiza-se o primeiro manguezal tipicamente de borda, embora, na sua retaguarda situe-se uma colina com falésias que acumula água de chuva e funciona como uma cisterna. A água doce verte para o mar e atenua a salinidade, criando ambiente adequado para o famoso Mangue de Pedra. É de se supor que esse mangue poderia se desenvolver naquela praia coberta de pedregulhos se não houvesse o aporte de água doce. Existem manguezais de franja em vários lugares do mundo em condições bastante adversas, crescendo em meio a pedras e a formações coralígenas. Esse bosque de mangue era formado por siribeira e mangue branco. Agora, um exemplar de mangue vermelho fixou-se nele, já tendo alcançado a fase jovem. Ele pode indicar a redução da salinidade da água ou simplesmente um exemplar da espécie que conseguiu de enraizar entre as pedras da praia.

Mangue de Pedra em 2021

Ao sul do Mangue de Pedra, existia o rio Trapiche, aproveitado para a instalação da Marina de Búzios. Agora, excessivamente ampliada para os lados pelo projeto Aretê. No final da marina, junto à estrade de acesso a Búzios, foi instalada agora um bueiro de metal que permite escoar as águas do que sobrou do rio Trapiche, principalmente em tempos de enchente. O estuário recuou para o fim da marina e permitiu o enraizamento de alguns exemplares de mangue branco. A montante da rodovia, é nítida a presença do rio Trapiche, por mais adulterado que se apresente. Em direção a sua nascente, não muito distante da estrada, existem banhados ameaçados pela urbanização. Eles deveriam ser protegidos pelo poder público com recursos do projeto Aretê, na forma de compensação ambiental. Da mesma maneira, a criação de áreas planas e baixas no fim da marina ajudariam a formação de um bosque de mangue.

Rio Trapiche a montante da marina em 2021

Em direção ao centro da cidade de Búzios, encontra-se o pequeno manguezal de Manguinhos, um reduzido curso d’água acossado pela urbanização e pela poluição orgânica.

Córrego de Manguinhos com altos exemplares de mangue branco, Foto: Carolina Mazieri

Junto ao Porto da Barra, nome nunca associado à pequena barra de um córrego, cresceu também um mangue ribeirinho. O córrego acabou sendo transformado em vala de esgoto. Houve transformações profundas. O córrego foi desviado para a direita e continua servindo como vala de esgoto que contamina a praia de Manguinhos. O antigo leito foi transformado num lago, ao lado do qual instalou-se um restaurante que preservou os altos e lenhosos exemplares de mangue branco. A margem desse lago junto à praia foi alteada para que as marés não invadam o lago, cuja água é renovada por bombeamento de água do mar. O estuário foi antropicamente alterado. Alguns exemplares de mangue vermelho já crescem nele, mas é preciso recriar a foz e o estuário.

Aspecto da lagoa no Porto da Barra em 2021: siribeira (E) mangue branco (D)

Em direção à Ponta da Sapata, existe ainda um pequeno mangue de franja com exemplares de mangue branco e de siribeira. O isolamento parece concorrer para a sua proteção. Talvez ele seja fragmento de um manguezal de franja mas extenso no passado e que foi fragmentado.

Pequeno bosque de mangue próximo da Ponta da Sapata (2021)

A enseada de Búzios finda na Ponta da Sapata. O maior manguezal de Búzios se encontra aí. Seu tipo fisiográfico é também de borda. Em parte, a praia é recoberta de pedras. A diversificação vegetal também aumentou. As três espécies exclusivas são encontradas aí. Antes, só havia altos exemplares de mangue branco e de siribeira. Agora, enraizaram-se alguns exemplares de mangue vermelho. Esse bosque termina no ponto em que as águas tranquilas da enseada se encontram com as fortes ondas do mar aberto, o que parece ser indicado com a redução do tamanho das plantas e o fim da ocorrência delas.

Visão de conjunto do mangue da Ponta da Sapata (2021)

Na face do mar aberto, cumpre registrar o enraizamento de um exemplar de siribeira e um de mangue branco na Praia Brava. O primeiro apresenta grande resistência à salinidade, mas o segundo não. Ambos já alcançaram a fase adulta e podem povoar a praia, criando nela um pequeno manguezal.

Exemplar florido de siribeira na Praia Brava, em Búzios (2021)

Na praia de Foca, a pequena população de siribeira detectada nas visitas anteriores ganhou estatura e se mostra bastante sadia, florescendo e produzindo muitos propágulos.

Pequeno bosque monoespecífico de siribeira com flores e propágulos na Praia da Foca, Búzios (2021)

Uma busca rigorosa pode localizar manguezais em outras praias de Búzios, já que os casos das praias Brava e da Foca não parecem propícias, à primeira vista, para a fixação de plantas de mangue. No entanto, elas estão lá, crescendo na areia.

Lagoas

Ao entrar nos complexos lagunares de Araruama, Saquarema e Maricá, espécies de mangue serão encontradas dependendo do grau de salinidade. Sabe-se que a lagoa de Araruama é hipersalina. Logo na entrada do canal de Itajuru, que a comunica com o mar, encontra-se a ilha do Japonês, onde pequenas populações de mangue se desenvolveram. Pouco adiante, na margem esquerda do canal, na planície de Ogiva, mais agrupamentos de mangue aparecem. As espécies mais frequentes são a siribeira (Avicennia schaueriana) e o mangue-de-botão (Conocarpus erectus). Ambos apresentam grande resistência à salinidade, embora o mangue-de-botão não seja uma espécie exclusiva de manguezal.

Pequeno bosque de siribeira em Ogiva com espécies invasoras. Cabo Frio

Os dois serão encontrados nas bordas da lagoa de Araruama em vários pontos. Também nos pequenos rios que desembocam nela, como o pequeno rio Salgado.

Exemplares de siribeira na lagoa de Araruama
Mangue-de-botão na lagoa de Araruama
Rio Salgado junto à foz, na lagoa de Araruama

No conjunto lagunar de Saquarema, a salinidade parece reduzir-se, permitindo o desenvolvimento, aqui e acolá, do mangue branco. Nenhum exemplar de mangue vermelho foi avistado. Espécies concorrentes halo-tolerantes, como a samambaia-do-brejo (Achrostichum aureum) invadem os bosques, bem como espécies exóticas, como a amendoeira e a casuarina. A ocorrência de taboa (Thypha domingensis) indica a existência de água doce.

População de taboa junto a plantas de mangue no sistema lagunar de Saquarema

Em direção ao complexo lagunar de Maricá, parece que a salinidade diminui mais ainda. Nos locais visitados, existem bosques com a predominância de mangue branco, o mais comum nos manguezais. Em vários pontos das margens, existem colinas erodidas, na base das quais, formam-se pequenas planícies que sofrem influência das marés, já que o sistema de cinco lagoas se liga ao mar. É nessas planícies que crescem as plantas de mangue e outras oportunistas, como a samambaia-do-brejo. A presença de trepadeiras indica ou a degradação do manguezal ou a proximidade de outras formações vegetais. Os mangues nas planícies junto a colinas se confundem com outros tipos de vegetação, embora mangue não suba morro. Ele cresce em terras atingidas por marés.

Bosque de manguezal em estreita planície do complexo lagunar de Maricá

A fauna nativa de São Francisco de Itabapoana

Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A fauna nativa de São Francisco de Itabapoana

Não se pode falar numa fauna nativa restrita ao município de São Francisco de Itabapoana, porque os animais não reconhecem limites traçados por seres humanos. Pode-se, isto sim, reconhecer que as matas estacionais, a vegetação nativa de restinga e os manguezais existentes no território que hoje corresponde ao município de São Francisco de Itabapoana abrigaram, antes da chegada dos europeus, uma rica diversidade faunística, ainda encontrada no século XIX pelos naturalistas europeus. Atualmente, representantes dessa fauna aparecem afastados dos seus habitats, capturados e aprisionados em quintais e ainda atropelados. Os animais terrestres e alados, principalmente, transitavam com certa liberdade entre as três formações vegetais nativas que revestiam o solo do futuro município.

Já em 1785, o cartógrafo militar Manoel Martins do Couto Reis lamentava, em famoso relatório, que “A irregularidade e disposição que notamos neste terreno, composto de tantos montes, vales, muitos brejais, imensas águas e extensas campinas, concorreu muito em outro tempo a fazê-lo fertilíssimo de animais silvestres de muitas espécies das do Brasil; porém os sucessivos divertimentos dos homens, aplicados ao exercício das caçadas inventadas, e praticadas de vários modos (nota de margem: Armam espingardas por um estilo bem simples, e deixando-as no lugar, retiram-se até que a caça as desarme. Fazem jogos de várias qualidades nos caminhos, por onde se presume passa mais caça. Os negros são mais cheios de astúcia para isto parece, que adquirida nas suas terras com o muito exercício): e também os indispensáveis alaridos do povo, os estrondos dos tiros de espingarda, as derrubadas de madeiras, que formam nas concavidades das montanhas formidáveis ecos, e a frequência de jogos, vieram a destruí-los em muita parte, e os que restavam, se reconcentraram às entranhas dos sertões mais distantes, aonde procriam; porém ainda assim em certos tempos com conjunções da lua aparecem muitos nos arredores dos lugares povoados.”

Embora a lista de animais feita por Couto Reis seja bastante detalhada, não havia a preocupação, na época, de inserir as espécies em seu contexto. As primeiras informações acerca da fauna silvestre relacionada aos seus ecossistemas, no norte fluminense, parecem fornecidas pelo naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, em sua viagem do Rio de Janeiro a Salvador, empreendida em 1815. Ao cruzar o rio Paraíba do Sul, no manguezal de sua foz, rumo ao norte, ele registrou uma legião de jacarés-de-papo-amarelo (Caiman latirostris).

Jacaré-de-papo-amarelo em desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied (1815)

Avistou também, nesta travessia, grande número de martins-pescadores azulados (Megaceryle torquata) e de aves parecidas com o corvo marinho europeu, que, segundo Olivério Pinto, correspondem ao biguá (Phalacrocorax olivaceus olivaceus). Junto à praia, ele encontrou batuíras e maçaricos, observando a presença de muitas conchas.

Mergulhando no interior da sombria e imponente mata estacional, Maximiliano deparou com dois homens escuros e inteiramente nus carregando dois lagartos teiú (Tupinambis teguixin) mortos. Este é o maior dos lagartos brasileiros e até hoje apreciado como iguaria, notadamente a carne de sua cauda. Em direção à fazenda Muribeca, às margens do rio Itabapoana, o príncipe naturalista escreveu uma página que nos inspira saudade do sertão, destruído antes de ser devidamente estudado e cantado: “Na escura e imponente mata virgem achamos bonitas plantas, e o soberbo Convolvulus de flores azul-celeste enlaçava-se nos arbustos, até grande altura. O pio forte e grave do ‘juó’, em três ou quatro notas, é ouvido nessas matas imensas, em todas horas do dia e mesmo à meia-noite.” Olivério Pinto explica tratar-se do jaó (Crypturellus noctivagus noctivagus), ave muito procurada e caçada no Brasil.

Lagarto teiú, ainda existente em São Francisco de Itabapoana

Na fazenda Muribeca, o príncipe e sua comitiva encontraram o pato almiscarado (Cairina moschata), o ipecutiri (Nettion brasiliensis), a marreca viúva (Dendrocygna viduata), a garça branca (Casmerodius albus egretta), a garça branca pequena (Leucophoyx thula thula) e a graça real (Pilherodius pileatus). Relata Maximiliano que, “Num passeio rio acima, os Srs. Freyreiss e Sellow se divertiram com o espetáculo de um grande bando de lontras (Lutra brasiliensis), caçando na água, adiante deles, sem o menor sinal de alarma.” Freyreiss e Sellow foram dois renomados naturalistas alemães que acompanharam Wied-Neuwied. A lontra de que fala o naturalista e da qual ele encontrou um indivíduo morto com o corpo completamente íntegro, parece tratar-se da ariranha, segundo pensa Olivério Pinto, corroborado por Ronaldo Fernandes Oliveira, mediante informação pessoal, em vista de seus hábitos diurnos. Neste caso, em vez da Lutra longicaudis, os naturalistas estariam diante da Pteronura brasiliensis. Um pequeno trabalho escrito por Julio C. Dalponte trata da lontra na foz do rio Itabapoana. A ariranha desapareceu regionalmente.
Mais ainda observou Maximiliano às margens do Itabapoana: a presença do macaco roncador ou barbado (Alouatta fusca), do sauí-açu (Callicebus personatus), do pica-pau (Leuconerpes candidus) e, no lado capixaba, da anta (Tapirus terrestris) e veados através de rastros.

Anta, animal muito frequente no Norte Fluminense no passado. Hoje, extinto regionalmente

Outro naturalista europeu famoso a passar por terras do atual município de São Francisco de Itabapoana, em 1818, foi Auguste de Saint-Hilaire, mas ele nada registrou sobre fauna nativa. Embora especialista em batráquios, Johann Jakob von Tschudi também nada escreveu sobre fauna em sua breve passagem pela região em meados do século XIX.

Bem recentemente, Norma Crud Maciel chamou a atenção para o risco que corre o molusco Cochlorina navicula, que só ocorre na vegetação de restinga entre São João da Barra e a praia de Marobá. Também por proposta dela, foi incluída na lista oficial das espécies ameaçadas do Estado do Rio de Janeiro o gongolo Rhinocricus padbergi, cujo habitat se situa na Mata do Carvão, atualmente protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba. Um pequeno levantamento de Manrique Prada apontou a ocorrência, na praia de Marobá, margem esquerda do rio Itabapoana, de lobinho (Cerdocyon thous), guaxinim (Procyon cancrivorous), lontra (Lutra longicaudis), tapeti (Sylvilagus brasilienses), gambá (didelphis aurita) e macaco-prego (Cebus apella), todas estas espécies certamente também sendo encontradas em São Francisco de Itabapoana.

Gongolo diplopode, com dois pés em cada segmento do corpo. Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba