Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

As saídas do Paraíba do Sul para o mar e o mangue

Pelo senso comum, o rio Paraíba do Sul sai para o mar apenas pelos braços de Atafona e de Gargaú. Em tempos de estiagem, nem mais por Atafona, pois esse braço é fechado pela força do mar e pela fraqueza do rio. Tanto um quanto outro fenômeno têm componente natural, mas potencializado por interferência humana. O nível do mar está se elevando pelo aquecimento global, que dilata a água e derrete geleiras. O rio perde força por conta de desmatamentos, erosão, assoreamento, barragens e, sobretudo, pela transposição de 2/3 de sua vazão para o rio Guandu.

Numa viagem imaginária no tempo, voltemos dez mil anos sem tirar os pés do que hoje é a baixada dos Goytacazes. Os pés poderiam ficar molhados e até mesmo poderíamos nos afogar porque o nível do mar estava subindo e avançando sobre o antigo continente, que era formado por material típico das barreiras existentes em São Francisco de Itabapoana e Marataízes. O ponto mais baixo desse antigo continente deveria ser o leito do Paraíba do Sul, que já corria para o mar. As temperaturas estavam aumentando por forças naturais. O nível do mar estava se elevando. As águas marinhas avançaram sobre o antigo continente e chegaram perto da lagoa de Cima. O antigo continente foi dissolvido e deu lugar a uma grande laguna.

Máximo avanço (transgressão) do mar na região, cerca de 5.100 antes do presente, segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997)

O pico dessa elevação ocorreu há 5.100 anos antes do presente. As primeiras civilizações emergiam na Mesopotâmia e no Egito nesse tempo. Por aqui, o mar começou a descer a partir dessa data. O rio Paraíba do Sul começou a avançar sobre a laguna e a construir, com a contribuição dos rios Guaxindiba, Muriaé, Imbé e Macabu, um grande aterro com sedimentos transportados das partes altas. Trata-se da parte fluvial da planície.
Deve-se levar em conta que o jato do Paraíba do Sul era muito mais forte naqueles tempos remotos. Esse jato interferiu na corrente predominante do mar, que, nesse ponto, corre de norte para sul. Então, a areia transportada pelas correntes marinhas foi retida pelo jato do rio, formando-se a grande restinga de Paraíba do Sul, a maior do estado do Rio de Janeiro. Plantas, animais e povos nativos colonizaram a planície fluvial e marinha.

Mas a planície fluviomarinha é mais complexa do que se supõe. Ela apresenta, na margem direita do Paraíba do Sul, uma ligeira declividade de cerca de 10 metros entre o ponto onde futuramente erguer-se-ia a cidade de Campos e o nível do mar. As cheias eram frequente e regulares. Os transbordamentos do rio pela margem direita corriam em direção à linha de costa, formando drenos naturais e se acumulando em rasas depressões. Eram as lagoas. Formaram-se muitas. A maior delas é a lagoa Feia. A maior parte dessas magníficas lagoas foi drenada, e não aterrada, como se costuma dizer. Ou seja, canais mais fundos que elas foram abertos para a água fluir em direção ao mar.

Ao lado dessa grande restinga, existe outra, que se estende de Barra do Furado à margem esquerda do rio Macaé. Esta restinga tem data estimada de 120 mil anos. Ela se formou por outro processo, não por ação do rio Paraíba do Sul. Portanto, não a considero como parte do grande delta desse rio. A ação do Paraíba do Sul engloba toda a lagoa Feia, que se situa em terreno mais recente pelo ângulo da geologia, como mostra o mapa abaixo.

A linha vermelha assinala os limites da zona deltaica do Paraíba do Sul e as linhas azuis indicam os defluentes do rio no mar

Os rios Paraíba do Sul e Ururaí formaram-se pelo mesmo processo que construiu a planície fluviomarinha. O rio Imbé forma a lagoa de Cima e, quando o mar chegou perto dela, seu escoamento devia ser para o mar. O mesmo acontecia com o rio Preto. Quando o rio Paraíba do Sul avançou e a planície se formou, o rio Preto passou a ser afluente do Paraíba do Sul pela margem direita e o rio Imbé-lagoa de Cima construiu, juntamente com o Paraíba do Sul, o rio Ururaí e a lagoa Feia. Há um desnível entre a margem direita do Paraíba do Sul e o rio Ururaí e a lagoa Feia. Daí, os transbordamentos lançarem as águas do primeiro para o segundo e para a grande lagoa. Mesmo em tempos de estiagem, existe um fluxo neste sentido pelo lençol freático. Em resumo, as águas do Paraíba do Sul vertem para o rio Ururaí e para a lagoa Feia pelo lençol freático e pela superfície com os transbordamentos. Mas não acontece o contrário. Daí, ser necessário examinar o sistema Ururaí, que integra o rio Imbé, a lagoa de Cima, o rio Ururaí, a lagoa Feia e o antigo rio Iguaçu, e o sistema Paraíba do Sul quando o nível de ambos está baixo.

Se o nível do Paraíba do Sul se eleva, é de se esperar que o nível do sistema Ururaí também se eleve. Mas, se o nível do sistema Ururaí se eleva, suas águas não atingem o Paraíba do Sul nem pela superfície nem pelo lençol freático. Foi o que aconteceu na enchente de 2008-9: a enchente do sistema Ururaí ocorreu não apenas pela enchente do Paraíba do Sul, mas pelas intensas precipitações pluviométricas nas cabeceiras do rio Imbé. A conclusão é que uma enchente no Paraíba do Sul afeta o sistema Ururaí, mas uma enchente neste não atinge o rio Paraíba do Sul.

Mas voltemos às saídas originais do Paraíba do Sul pelo mar. As duas primeiras saídas dele são as atuais. O rio forma um pequeno delta com os braços de Gargaú e de Atafona. Mas os transbordamentos que ocorriam nas cheias lançavam água num dreno natural que foi batizado de rio Água Preta. Esse rio também corria com defluentes, isto é, com fluxos que saem de um rio, e não correndo para ele, como afluentes. Dois grandes defluentes do rio Água Preta chegavam ao mar em tempos de cheias. Mais tarde, esses defluentes receberam os nomes de lagoas de Gruçaí e de Iquipari. Continuando a correr, o Água Preta afluía para o rio Iguaçu, que nascia de um conjunto de defluentes da lagoa Feia e chegava ao mar em regime periódico ou permanente. Na altura da atual Campos, o rio Paraíba do Sul se bifurcava em dois. Um braço dirigia-se para o ponto atual da desembocadura no mar e outro se dirigia para o sul, encontrando-se com o rio Iguaçu em sua foz e aumentando mais ainda sua vazão, juntamente com o rio Água Preta. Esse braço foi naturalmente perdendo força e se tornou o famoso córrego do Cula ou Grande Canal, eixo que orientou a estrada de terra entre Campos e Farol de São Tomé, a estrada de ferro que chegava a Santo Amaro e a atual rodovia asfaltada. Por esse eixo, começou a colonização europeia da região.

Assim, o rio Paraíba do Sul era muito mais complexo no passado. É de observar que todas as desembocaduras do Paraíba do Sul no mar, tanto as permanentes quanto aos auxiliares, assim como o rio Iguaçu, situam-se acima do cabo de São Tomé, a oeste. A explicação mais adequada para que os fluxos se fixem nesse trecho da costa são as fortes correntes marinhas no setor sul da costa, assinaladas no primeiro mapa deste artigo, que não permitiam qualquer saída para o mar nesse trecho. Essas correntes empurraram as saídas para o setor leste.

A fim de ordenar o que se considerava um verdadeiro caos hídrico, o governo federal criou, em 1933, a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense. Em 1940, ela se transformou no Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Entre 1940 e 1950, a estrutura básica de drenagem na margem direita do rio Paraíba do Sul estava montada. Um dos drenos naturais foi transformado na espinha dorsal do sistema. Trata-se do canal São Bento. Ele é o único que liga diretamente o Paraíba do Sul ao canal da Flecha, aberto na década de 1940, ligando a lagoa Feia ao mar. Essa ligação criou um novo rio na planície, contrariando a direção dos demais. O Flecha corre de norte para sul, enquanto os naturais correm de oeste para leste.

O antigo rio Água Preta ou Doce foi transformado no canal do Quitingute, o mais longo da rede, nascendo no canal de São Bento e desembocando nele em seu final. Sua abertura, cortou a ligação que ele tinha com seus dois grandes defluentes, que se transformaram nas lagoas de Gruçaí e Iquipari, respectivamente. Por sua vez, o canal da Flecha seccionou o antigo rio Iguaçu, depois todo retalhado pelo núcleo urbano do Farol de São Tomé. Restou dele o trecho final, conhecido hoje como lagoa do Açu.

Havia assim, no passado, o pequeno e o grande delta do Paraíba do Sul. O pequeno, formado pelos braços de Gargaú e Atafona, ficava ativo o ano inteiro. O grande, formado pelo pequeno e pelas lagoas de Gruçaí e Iquipari e pelo rio Iguaçu, era ativado em tempos de cheia. Sendo um rio que desemboca no mar na zona intertropical, nada mais natural que suas saídas fossem colonizadas por plantas de mangue.

Os dois braços do pequeno delta, sempre abertos, foram mais colonizados por essas plantas navegantes que se fixam em estuários intertropicais, ou seja, ali onde a água doce do rio se encontra com a água salgada do mar, formando água salobra, com salinidade matizada. A margem esquerda do braço de Gargaú permitiu o desenvolvimento de um dos maiores manguezais do estado do Rio de Janeiro. Sendo uma área de acumulação de areia, mas também de argila, esse terreno favoreceu a formação de um grande manguezal com quatro espécies exclusivas desse ecossistema, das seis encontradas no Brasil. Além do mais, tem um aspecto de rio amazônico pela presença da planta aninga (Montrichardia linifera), cuja distribuição em toda a América tinha seu limite sul no Paraíba do Sul. Ele sofre invasões de criadores de gado e da vila de Gargaú. Visitado em janeiro de 2022, ele não apresentou muitas alterações.

População de aninga na foz do rio Paraíba do Sul. Foto do autor

Já o braço de Atafona, sofre forte erosão desde o tempo de sua formação por conta da corrente marinha predominante, na direção norte-sul. Nas ilhas, ele se mostra vigoroso, mas, na margem do canal, a erosão cobre suas raízes respiradoras (pneumatóforos), matando as plantas. Aí, apenas a siribeira (Avicennia germinans) e o mangue branco (Laguncularia racemosa) são encontrados, ambos com sistemas respiratórios ao rés do chão. No entanto, as plantas de manguezal apresentam forte resiliência. Quando se conclui que elas morreram, eis que as folhas reaparecem, dando sinal de vida. Na mesma vistoria do final de janeiro, verificou-se o tímido renascimento de um bosque de siribeira considerado já morto.

Bosque se siribeira em Atafona. Aparentemente, ele apresentava sinais de ter morrido pela erosão, mas voltou a emitir sinais de vida com as folhas. Foto do autor

Na lagoa de Gruçaí, a barra estava aberta. O trecho final da lagoa foi densamente urbanizado. Gruçaí cresceu muito entre a lagoa e Iquipari. Não existe rede coletora de esgoto, que é lançado nas águas da lagoa. Com as chuvas, há refluxo. Então, os veranistas pressionam a prefeitura para abrir a barra, que por sua vez pressiona o Inea. Aberta a barra, a lagoa fica quase seca e o mar se torna poluído.

No tempo em que o sistema deltaico funcionava normalmente, um pequeno manguezal formou-se na lagoa. Exemplares de mangue branco remanescentes demonstram a existência de um manguezal pretérito maior e mais saudável. Existem, inclusive, exemplares de aninga hipertrofiados. Suas sementes devem ter penetrado na lagoa no passado. Até a descoberta de alguns exemplares em Maricá, a lagoa de Gruçaí era o ponto meridional de distribuição da espécie. Hoje, existem evidências de que o manguezal tenta se recuperar na lagoa, mas não encontra condições para tal. O mangue branco é a espécie que tenta colonizar o ambiente sofrendo a concorrência de espécies tolerantes à água doce.

Moita de mangue branco na margem da lagoa de Gruçaí. Foto do autor

Em Iquipari, também exemplares de mangue branco (Laguncularia racemosa), siribeira (Avicennia germinans) e mangue vermelho (Rhizophora mangle) já foram encontradas. Se, na praia de Atafona, a erosão lança areia sobre as raízes respiratórias das espécies que as emitem (mangue branco e siribeira), levando as árvores a estado de estresse ou de morte, nas lagoas, a estabilização da lâmina d’água é que leva ao estresse e à morte. Pelo menos, o mangue branco consegue crescer nas margens, onde a água salobra oscila.

Com as chuvas, a lagoa de Iquipari encheu muito e a prefeitura oficiou ao Inea a abertura da sua barra. A autorização foi dada. A lagoa fluiu com intensidade para o mar, provocando uma grande mortandade de peixes e de outros animais aquáticos pelo choque térmico e osmótico. As touceiras de mangue branco estão secas, mostrando esforço adaptativo para sobreviver submersas permanentemente. Na praia, foi encontrada uma profusão de sementes (propágulos) de mangue branco e de siribeira.

Pequeno manguezal em substrato elevado da lagoa. Em tempos normais, ele fica afogado. Foto do autor
Conjunto de exemplares aparentemente mortos de mangue branco na lagoa de Iquipari. O olhar mais atento, revela esforço das plantas para sobreviver lâmina d’água estabilizada. Foto do autor
Sementes (propágulos) de siribeira nas praias da lagoa de Iquipari. Foto do autor

Finalmente, na lagoa do Açu, os remanescentes do grande manguezal do antigo rio Iguaçu revelam pujança e diversidade. Trata-se de um dos mais atraentes manguezais do estado do Rio de Janeiro. Além das três espécies de mangue mais comuns no norte fluminense, ele conta ainda com uma apreciável população de mangue-de-botão (Conocarpus erectus). Sua resistência à água salgada já o inclui entre as espécies de mangue. Contudo, a alta salinidade nas proximidades da barra e a estabilização da lâmina d’água são fatores que causam estresse às plantas.

Exemplares de mangue vermelho revelando estresse salino na barra da lagoa do Açu. Foto do autor

Em torno de Barra do Furado, há três bosques de mangue, sendo dois quase ligados. Mas aí já é outra história, pois tudo indica que eles se formaram a partir da abertura do canal da Flecha.

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